a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Corrigindo o título para o plural: Que Horas Elas Voltam?

O que as personagens Val, a simpática empregada, e Bárbara, a patroa esnobe, têm em comum? Apesar de termos todos, indignadamente, crucificado Bárbara por negligenciar seu filho, Val também escolheu abandonar sua filha. Ambas as mulheres nos fazem ver que a maternidade não constitui função pronta, mas sim um papel que se deve exercer no dia a dia. Ambas condenaram seus filhos à tortura de questionarem incessantemente: "Que horas ela volta?"


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Além da evidente temática sobre a estrutura estratificada de nossa sociedade e os conflitos entre classes sociais distintas, o filme Que Horas Ela Volta? possui níveis mais existencialistas de análise, os quais conferem maior peso ao aparente foco da trama principal.

Para aqueles que ainda não assistiram, traço um breve resumo:

A história tem como personagem principal a empregada doméstica Val, que mora na casa de seus patrões Bárbara e Carlos, pais do adolescente Fabinho, há mais de uma década em São Paulo. Quando se mudou para esse estado, Val deixou em Recife sua filha Jéssica ainda pequena, a qual foi criada por outra pessoa. A trama do filme inicia no momento em que Jéssica pede à mãe para ficar com ela em São Paulo, onde irá prestar o vestibular para a Faculdade de Arquitetura. Como Val mora na casa dos patrões, ela pede a eles para hospedar sua filha, enquanto procura um lugar para as duas morarem. A partir daí, o filme se desenrola em duas frentes principais. A mais visível diz respeito aos conflitos entre classes sociais ocasionados com a chegada de Jéssica, a qual teve uma formação educacional e crítica melhor do que a da mãe (o enredo do filme não esclarece muito bem como).

Porém, a trama deste filme mostra também uma questão de caráter universal muito forte: a relação entre mães e filhos. Conduz-nos a uma reflexão sobre a idealização existente em nossa sociedade em relação à propensão da mulher para a maternidade.

É como se toda mulher tivesse uma vocação inata - encrostada em seu DNA - para ser mãe. Há, até mesmo, um dito popular que afirma que: Quando nasce um bebê, nasce com ele uma mãe. Sabemos, contudo, que esta afirmativa, felizmente, não é verdade, posto que somos seres humanos, não robôs projetados em série. Cada qual tem a sua individualidade. Cada qual terá a sua "Mãe", papel criado constantemente a partir da convivência e do relacionamento.

O parto apresenta à mulher a um desconhecido. Um ser totalmente dependente dela, mas com quem ela ainda não tem a menor intimidade. Desconhece os gostos e desgostos dele.

Aos poucos, mãe e filho vão se conhecendo. Reconhecendo o cheiro e o tom da voz um do outro. E é neste processo de entrosamento que a mulher nasce como mãe daquela criança específica.

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Outro aspecto pouco comentado nos livros que enobrecem a maternidade é que, como uma campainha ultra estridente de despertador, ela arranca a mulher de um estado onírico de egocentrismo, no qual todos nós seres humanos habitamos.

Cabe ressaltar que este estado não deve ser visto de uma forma pejorativa, já que o narcisismo é essencial para que os indivíduos desenvolvam uma série de cuidados próprios, fundamentais à sua integridade física e mental.

Com a chegada do bebê, a mãe tem que se colocar, frequentemente, em segundo plano. Ela tem de dar prioridade a suprir as necessidades básicas da criança. E, aí, não tem como ela procrastinar, como podia fazer, antes, com muitos outros deveres que tinha com outras pessoas.

Além das questões práticas a serem desempenhadas, a mãe deve também se confrontar com uma série de questões pessoais mal resolvidas, tais como fantasmas do passado e receios presentes, para melhor atender às demandas do filho.

Parece que ambas as mães retratadas neste filme não conseguiram superar esta situação de narcisismo e cuidar de forma adequada de seus filhos. Ambas negaram aos filhos o acolhimento e a proteção materna. Bárbara, a mãe rica, terceiriza o filho para a sua empregada, que assume as funções práticas e emocionais de mãe do menino. É Val quem incentiva e acarinha Fabinho no dia a dia.

Val, por sua vez, deixou a filha no Nordeste para ser criada por outra pessoa ao ir para São Paulo trabalhar. Quando a filha decide prestar vestibular, Val já estaria sem vê-la há dez anos. Ao longo deste período, não foi sequer uma única vez visitar a própria filha. Em uma das cenas, Jéssica relata como ela costumava perguntar sobre a mãe: a que horas ela volta?

Quando a filha, revoltada, pergunta porque a mãe não foi vê-la, Val não consegue explicar. E, não. Não foi uma questão relacionada a impossibilidades reais decorrentes de sua situação socioeconômica. Também, não parece ter sido devido a uma situação difícil entre Val e o pai de Jéssica, como o roteiro chega a sugerir.

Ela simplesmente não consegue encontrar justificativas a dar; nem para a filha , nem para si própria.

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Fato é que ela não conseguiu desempenhar o papel de mãe, e todas as funções a ele inerentes. Abandonou uma menina e terá de se reconectar com uma mulher.

Então, como ela conseguiu cuidar de Fabinho? Ser como uma mãe para ele? Mas, será?

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Interessante é que o título em outros idiomas é "A Segunda Mãe", que dá ênfase ao papel de mãe substituta desempenhado por Val junto a Fabinho.

A resposta que parece mais acertada para esta indagação, talvez, seja pelo fato de Fabinho não ser seu filho. A responsabilidade pela vida daquele ser não era sua. Era uma relação na qual ela podia escolher até onde iria se envolver. Não precisava vencer seus fantasmas mais íntimos, aqueles com os quais nos confrontamos quando temos de sair de nossos papéis de filhos e assumirmos os de pais.

Apesar do público e da crítica, em geral, ter se apaixonado por Val e ter louvado suas qualidades maternas com Fabinho, condenando a frieza e o distanciamento de Bárbara com o rapaz, ambas as mulheres apresentam dificuldades profundas em exercer de forma plena a maternagem. Para aqueles que saem em defesa de Val, alegando que muito provavelmente ela não teve uma boa infância e reproduz padrões apreendidos em sua criação, podemos alegar que o mesmo poderia ser dito em relação à Bárbara. Em defesa desta mãe rica, poderíamos inferir que ela também repete uma criação de alienação por parte de seus pais, não raro os casais de famílias mais privilegiadas deixam seus filhos aos cuidados de babás e empregados.

Assim, sem parcialismos ou maniqueismos, poderia arrumar desculpas para ambas as mulheres, com a finalidade de tentar explicar porquê elas negligenciaram seus filhos. Porém, não o farei.

Acredito que os pais devem tentar superar os medos e frustrações oriundos de sua criação para dar a seus filhos a melhor vida que puderem dar. Acredito que na vida sempre é tempo de se aprender, de modificar a própria história.

Nada melhor do que um filho para nos mostrar que podemos ter segundas chances na vida. É, neste sentido, que o crescimento pessoal de Val se mostra vitorioso. Ao contrário de Bárbara, que prefere enviar seu filho para o exterior em um momento no qual a proximidade parecia mais adequada do que o afastamento. Fabinho necessitava de limites e afeto, de alguém que lhe desse um direcionamento naquela circunstância tão importante de sua vida. Necessitava de pai e mãe.

Com a filha, mais culta e crítica do que ela, Val aprende a se questionar. Realiza uma reavaliação de sua situação de submissão frente aos patrões, e pede demissão do trabalho. Por sua própria incitava, a personagem de Regina Casé decide não apenas ir morar com a filha, para dedicar-lhe cuidados e mimos antes negados, como também decide cuidar do neto. Evitando, assim, que a sua história se perpetue, por meio da vida da filha e do neto.

Val, finalmente, se permite se apaixonar pela filha e, por meio do amor, reescreve seu futuro.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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