a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Imagens que Falam Português

O inovador projeto @NossaLingua usa as redes sociais para estimular a aproximação dos países de língua portuguesa. Contando exclusivamente com fotos postadas por Instagrammers, este projeto montou um painel de imagens que retratam as similaridades e as diferenças existentes entre estes países. Além disso, realizou o primeiro documentário visual dos países lusófonos, todo filmado por Iphones. O interesse deste projeto, contudo, vai muito além da mera criação de belas imagens. Trata-se de mais um instrumento que incentiva a aproximação de culturas marcadas por um distanciamento histórico.



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A produção de obras culturais que mostrem os diferentes povos lusófonos é essencial para entendermos não somente a nossa história, como também para compreendermos a nossa constituição como indivíduos. Fazemos parte de uma comunidade de falantes do português, cujas diferentes culturas, de uma forma ou de outra, recebeu influências, e influenciou, umas as outras. Assim, o conhecimento acerca da realidade destas culturas contribui para que possamos conhecer melhor a formação de nosso próprio povo.

Como brasileira, a percepção que tenho é a de que, durante muito tempo, houve, em nossa sociedade, um silêncio sobre as origens e as ramificações da língua portuguesa e da própria cultura lusófona como um todo. Havia uma visão turvada pela cegueira produzida por sentimentos negativos de aversão à metrópole colonizadora e culpa pelo passado escravocrata do país.

Apesar da transferência da Corte portuguesa ter trazido para o Brasil diversos hábitos e costumes portugueses, a influência cultural predominante foi, durante longo período, a francesa; enquanto que a econômica era a inglesa. Foi apenas em meados do Século XX, que a cultura estadunidense passou a ser a influência externa mais marcante. Já a cultura portuguesa era vista como algo pitoresco, como uma referência menor, desprezada; a ser por nós evitada.

No Brasil, sabemos muito mais sobre França, Inglaterra e Estados Unidos do que sobre Portugal e os demais países de língua portuguesa. Crescemos lendo os clássicos europeus não-portugueses. Se dos portugueses sabemos muito pouco, dos africanos menos ainda. Perdemos muito tempo, negligenciando nossa ligação com os países africanos. O que sabemos sobre Angola, por exemplo ? Sobre seu povo, sua cultura? Pouco. Quase nada. No entanto, o grande número de angolanos trazidos como escravos para o nosso País em muito influenciou a formação do povo brasileiro, de seus costumes e hábitos. Sem contar a influência que nós exercemos naqueles países, por meio, por exemplo, do contato dos descendentes dos africanos escravizados que retornaram aos Estados de origem de seus antepassados.

Ao longo das últimas décadas, contudo, este distanciamento histórico tem sido superado pela vontade dos povos de língua portuguesa em estreitar o relacionamento entre eles. Pelo desejo de criar novos canais de diálogo e cooperação. No âmbito internacional, foi criada (em meados do decênio de 1990) a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que não apenas atua trilhando caminhos de aproximação para os países membros, como também alinha a atuação dos Estados lusófonos em diversos foros internacionais. Recentemente, no Brasil, tem havido maior disseminação de autores estrangeiros de língua portuguesa, com destaque para alguns escritores, tais como como José Saramago (português), Mia Couto (moçambicano) e Valter Hugo Mãe (angolano).

Se as modernas tecnologias de comunicação e de TI são muitas vezes criticadas como instrumentos de alienação dos indivíduos, os novos projetos de disseminação e divulgação da cultura e do idioma dos países lusófonos têm sabido utilizá-las de forma brilhante. A primeira grande iniciativa que inovou utilizando tecnologia sofisticada foi o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado no ano de 2006, em São Paulo. Tendo como um de seus objetivos principais a interação dinâmica dos visitantes com o idioma, ele utiliza tecnologia moderna para fornecer ao público formas interativas de exibição de seu acervo.

Como evidência do alto interesse que há hoje em torno de nosso idioma, este museu é um dos mais visitados do Brasil e da América do Sul. Recentemente, um incêndio danificou severamente a sua estrutura. Felizmente, todo o seu acervo está preservado em formato virtual, e há a previsão de que ele possa ser integralmente recuperado.

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O Projeto @NossaLingua - liderado por uma equipe multinacional e multidisciplinar de curadores - constitui ousada iniciativa que visa a incentivar a aproximação entre os falantes da língua portuguesa e a produção de conhecimento mútuo. Até o momento, quatro obras distintas de imagem já foram desenvolvidas em seu âmbito: uma exposição de fotos presencial, uma galeria virtual de fotos, um livro e um filme documentário.

Tanto o livro quanto a exposição têm como objetivo compor um painel fotográfico temático, retratando imagens sobre diferentes aspectos do território lusófono , mostrando as peculiaridades e as semelhanças nele existentes . São nove países, localizados em quatro continentes distintos: Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Macau e Timore Leste. Trata-se do primeiro documentário visual dos países de língua portuguesa.

Para compor este painel, os curadores deste projeto optaram por convidarinstagrammers para postarem fotos de sua autoria, que retratassem os temas propostos. Assim, o acervo de imagens desta coletânea é composto inteiramente por fotografias compartilhadas na rede social de imagens Instagram por seus autores.

O estabelecimento de temas constitui um diferencial importante nesta coletânea, pois as distintas áreas temáticas fornecem não apenas rico panorama das características de cada um dos países envolvidos, como também uma linha condutora, que permite ao público apreciar as igualdades e as diferenças entre povos que compartilham a mesma língua. Podemos observar como a comunicação humana, no mesmo idioma, pode estar relacionada a caminhos ora tão parecidos, ora tão distintos. Como o mesmo idioma dá voz a identidades tão diferentes.

Os temas propostos abrangem ampla variedade de aspectos de cada país, tanto objetivos quanto subjetivos, formando dez galerias virtuais, que totalizam quase dezessete mil imagens, entre as quais foram escolhidas as cem melhores, dez em cada grupo, para ilustrar a exposição física. O resultado, como se pode vislumbrar abaixo, é uma miríade de imagens fortes e deslumbrantes, que nos possibilita conhecer um pouco das características de cada um dos países lusófonos.

Os temas são os seguintes:

1 - TERRA

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2 - CASA

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3 - TRABALHO

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4 - FÉ

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5 - FESTA

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6 - MAR

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7 - GENTE

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8 - Lazer

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9 - PALAVRA

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10 - RAIZ

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Já o aspecto colaborativo destas obras fotográficas confere viéis democrático e plural a esta coletânea, posto que ela contou com a participação de diversos fotógrafos tanto profissionais quanto amadores. Do ponto de vista técnico, as imagens são bastante diversificadas, evidenciando diferentes níveis de profissionalização e de estilos fotográficos. A mistura de fotógrafos amadores e profissionais é muito instigante, pois enquanto as imagens dos fotógrafos profissionais nos brinda com a sofisticação de suas técnicas, as dos fotógrafos amadores nos oferecem o olhar do cidadão comum, uma visão corriqueira, sobre a vida cotidiana. Apresenta um mosaico de percepções acerca da realidade de cada país.

O Rio de Janeiro foi a primeira cidade a receber a exposição fotográfica, que será exibida em todos os países participantes.

O quarto produto deste projeto trata-se do documentário “NossaLingua.doc”, também realizado de forma colaborativa, que será lançado no primeiro semestre de 2016. Ele foi totalmente filmado com o uso de Iphones. A primeira etapa de documentários foi realizada em três países — Cabo Verde, Portugal e Brasil. Mas há a perspectiva de que as filmagens possam ser realizadas, também, nos demais países de língua portuguesa.

Além de imagens, o documentário possui entrevistas, relatos e histórias. Quem já aprecia a Literatura lusófona, poderá se deliciar com entrevistas dos escritores Mia Couto (Moçambique),José Luiz Peixoto (Portugal), o Mário Lúcio (Cabo Verde), Braúlio Tavares (Brasil). Para quem ainda não tem intimidade, é uma ótima oportunidade de conhecer estas mentes tão privilegiadas.

Abaixo reproduzo Pílula da NossaLíngua.Doc , pequenos trechos do documentário já disponibilizados no site deste projeto:

Estas " Pílulas" cumprem sua função de teaser e nos despertam o desejo de assistirmos logo o documentário completo. Por meio desta breve olhadela, podemos não somente apreciar a beleza das paisagens filmadas, como também perceber que a informalidade e a musicalidade do brasileiro são características compartilhadas com povos de outros países lusófonos.

Completamente apaixonada por nossa língua, confesso que este foi um dos artigos que me deu muito prazer em escrever. Fico feliz, pois considero que o interesse deste projeto vai muito além da mera criação de imagens bonitas. Ele contribui para a aproximação de culturas distanciadas por uma ignorância histórica. Não podemos continuar a ignorar povos que foram tão importantes em nossa formação cultural.

Não podemos, falando a mesma língua, continuar a desconhecer os hábitos e a cultura dos demais povos com quem compartilhamos o nosso idioma, e muito de nossa história. Permanecermos de costas uns para os outros, significa jogarmos fora inúmeras oportunidades. Em um mundo no qual interesses conflitantes conduzem povos ao conflito e à competição, o compartilhamento de uma língua comum, falada em quatro continentes, deve ser visto como uma vantagem a ser cultivada com todo o zelo, como um elemento capaz de gerar união, e que convida à parceria.

O idioma comum deve servir como ponto de aproximação para que possamos apreender com as diferenças. A conhecer caminhos distintos dos por nós trilhados, pois que a pluralidade de influências e o compartilhamento de experiências contribuem para o florescimento dos povos.

Assim, quando tiverem oportunidade, virem-se de frente, e acompanhem este lindo projeto e todas as demais iniciativas que semeiam a harmonia entre povos tão diferentes, mas com tanto em comum.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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