a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

O Machismo em Romances Cinematográficos Lésbicos: Azul é a Cor Mais Quente e Flores Raras

Azul é a Cor Mais Quente e Flores Raras são filmes, cuja a trama principal gira em torno de romances lésbicos, de maior repercussão ao longo dos últimos anos. Interessante, no entanto, é que apesar de terem sido aclamados pela Mídia e pelo público, em geral, como "lindos romances homossexuais", ambos mostram relacionamentos extremamente machistas. Será que devemos ser sexistas e analisarmos o machismo de forma parcial, quando praticado por uma mulher contra outra mulher ?


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Alguns dos adjetivos usados com freqüência para descrever estes filmes são: "delicado", "lindo" , "sensível", "verdadeira história de amor" e "corajoso". Concordo única e exclusivamente com o último desta lista. Os dois longas, de uma forma ou outra, têm o mérito de retratar um assunto que ainda é rechaçado por muitos. Ambos têm algumas cenas bonitas de amor, produção e fotografia bem cuidadas e atrizes principais com atuações competentes. São produções importantes, que lidam com um tema de interesse humano, não se preocupando somente em atingir o grande público, em garantir sua bilheteria.

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Contudo, ao assistirmos a esses filmes sem filtros sexistas - sem aquela vontade danada de gostar do filme, simplesmente porque ele se propõe a abordar tema que ainda sofre preconceitos -, ficamos com uma sensação de inquietação e assombro. Afinal, fomos ao cinema para assistir ao que a crítica especializada e a divulgação de boca a boca classificaram como "lindas histórias de amor entre mulheres", e acabamos assistindo a cenas explícitas de machismo! Como pode ser isto ?

Lindas histórias de amor - aquelas que vão bem além de uma atração sexual irresistível, ou de uma química com combustão expontânea - entre duas pessoas (ou mais) pressupõem, sobretudo, respeito e amizade. Nesse requisito, os romances narrados nestas películas deixam muito a desejar. Quando acaba a sessão, você sai do cinema se perguntando por que certas pessoas quando estão apaixonadas se submetem a tantas humilhações.

Se narrassem histórias de casais heterossexuais, algumas cenas fariam os mais machistas dos homens se orgulharem da vexatória dinâmica de dominação/submissão dos relacionamentos retratados; as mulheres, por sua vez, esbravejariam clamando por maior igualdade, respeito e amizade entre o casal.

A luta do feminismo sempre foi para se conseguir a igualdade entre os sexos. Para que as mulheres, historicamente relegadas a uma posição de subordinação e maltratos, sejam tratadas de forma respeitosa e com direitos iguais.

A respeito de tratamento igualitário, podemos dizer que ambos os filmes são bem imparciais: mostram como os seres humanos podem ser demasiadamente parecidos. Para o bem, ou para o mal. Mostram personagens femininas tendo atitudes extremamente "machistas", dominando e maltrando suas parceiras.

Neste ponto, grita a pergunta que não quer calar? Quer dizer, então, que segundo esta linha de raciocínio, não é legal as mulheres terem características mais identificadas com o estereótipo masculino ? Devemos ser eternas Penélopes em Apuros ? A nós é permitido apenas um armário rosa degrade ?

Obviamente que não! Armário rosa somente se quisermos !

Nós, mulheres, podemos ser quem quisermos. Inclusive, machistas, se assim decidirmos. Mas devemos dar nome aos bois: Machismo é machismo!

Porém, uma questão precisa ficar clara: não é a orientação sexual, nem a identificação com características do gênero masculino que faz uma mulher assumir atitudes machistas com sua parceira. A caracterização de cada gênero sexual é definida de acordo com padrões de comportamento histórico-socioculturais e psicológicos de cada época; ela contém elementos considerados positivos e negativos. Todos temos um pouco de cada.

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Tem relacionamentos lésbicos nos quais existe a diferenciação marcada de uma parceira com o gênero masculino e a outra com o feminino, e a relação é de cumplicidade e respeito. Quando pensamos em uma bonita história de amor lésbico na telona, lembramos porque Tomates Verdes Fritos (1991) ainda aguça o nosso paladar, mesmo décadas depois. O enredo do filme gira em torno da história do amor entre duas mulheres Idgie (Mary Stuart Masterson) e Ruth ( Mary Louise Parker). Idgie tinha atitudes consideradas bastantes masculinas, ainda mais para o contexto sociocultural dos anos 1930, e Ruth femininas. Mas elas tinham uma cumplicidade muito grande, e constroem uma parceria baseada no respeito mútuo.

O Azul é a Cor Mais Quente narra a história de Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma jovem saindo da adolescência e sua descoberta do amor com Emma (Léa Seydoux), uma artista plástica de cabelos azuis e anos mais velha. Adèle é de uma classe social menos privilegiada do que Emma, cujos os pais são sofisticados intelectuais. Emma também tem um estilo mais "masculino" do que sua jovem namorada. Ao longo da história, as diferenças entre elas vão se reafirmando, e servem como estrutura para que Emma desenvolva uma relação abusiva com Adèle.

O que vemos é a típica história de uma adolescente encantada com uma pessoa mais velha e talentosa. Emma, por sua vez, parece inicialmente encantada com o fascínio que exerce sobre Adèle. Em minuto algum, porém, Emma parece admirar sua namorada. Ela até usa a adolescente como musa para seus quadros, demostrando que admira a beleza de Adèle. A pintora, todavia, não é cúmplice de Adèle; não dá força para que ela corra atrás de seus sonhos. Menospreza o trabalho da adolescente, que é professora de crianças, sugerindo a ela que arrume um trabalho de verdade.

Mas a seqüência na qual a falta de cumplicidade entre as duas se faz deploravelmente notória ocorre quando Adèle prepara uma festa para Emma. Organiza tudo; cozinha; fica servindo os convidados. A pintora não ajuda em nada durante a festa, e ainda flerta com outra mulher, que depois se torna sua namorada. Após a festa, Adèle arruma tudo sozinha, enquanto sua namorada fica deitada lendo. Parece uma dona de casa servindo e tentando desesperadamente agradar os amigos de seu marido machista .

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Nesta hora, não tem como não nos lembrarmos de Chico Buarque:

" Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas,
Vivem por seus maridos, orgulho e raça de Atenas …."

Baseado no livro de Carmem L. Oliveira, Flores Raras conta a estória do romance entre a arquiteta Lotta Macedo Soares (Glória Pires), uma das responsáveis pela a construção do Parque do Aterro do Flamengo, e a poetisa estadunidense Elizabeth Bishop (Miranda Otto). Uma série de clichês machistas ocorre ao longo do filme. Os seguintes comentários baseiam-se única e exclusivamente na trama do filme, não na vida real.

O roteiro usa como linha condutora um dos poemas de Bishop, The Art of Losing, que fala sobre como vamos nos acostumando a perder coisas, ao longo de nossas vidas. Faz um jogo com as palavras " arte de perder " e " desastre". Na primeira cena, Bishop mostra o que já havia escrito desta poesia a um amigo, que lhe diz que ela ainda parecia incompleta, que deveria trabalhá-la mais.

Estressada e com um bloqueio de escritor, a poetisa resolve viajar para espairecer e se inspirar. Vem uns dias para o Brasil, e hospeda-se na casa de Mary, uma antiga amiga (e flerte) de faculdade, que é casada há alguns anos com Lotta.

Inicialmente, Bishop e Lotta não se dão muito bem. O chocante é que desde o primeiro momento de aproximação maior entre as duas, Lotta é extremamente abusiva e insensível com a poetisa, que se encontra claramente fragilizada. Em uma cena na qual vai ao quarto em que Bishop está hospedada, Lotta tripudia perversamente do visível problema alcoólico de Bishop. Depois, a beija. A partir desta cena constrangedora, torna-se declarado o interesse em que uma sente pela outra. E também fica explicitado o tom abusivo da relação. O espectador fica com a certeza de que mais abusos vêm pela frente.

Lotta troca Mary por sua antiga amiga de universidade. Esta mudança de parceira ocorre sem a menor consideração pelos sentimentos de Mary. Lotta e Bishop simplesmente atropelam os sentimentos dela como um trator. Sem cuidados; sem compaixão.

Quando o romance com Bishop já esta estabelecido, Mary, que havia ido embora, volta e diz à Lotta que não consegue viver sem ela, e quer adotar um filho com ela. Lotta aceita, pois sente a necessidade de iniciar uma família, e impõe a Bishop a presença da ex-mulher. Então, as três passam a morar juntas no sítio. A arquiteta não apenas faz questão de adotar uma filha com Mary, como também a convida para trabalharem juntas na construção do Parque do Aterro.

Para Lotta, este arranjo era bom. Conveniente. No fundo ela parecia gostar das duas. Para Bishop e Mary, não. Elas não eram mais amigas, e ficam nesta situação extremamente a contragosto. Ficam, por amor, por submissão.

E aí nos perguntamos: quantos relatos já ouvimos de homens que sujeitam suas mulheres a situações parecidas, mantendo duas famílias ao mesmo tempo? Ha diferença nesta situação mostrada no filme ?

Em uma cena deplorável, Lotta, que estava no Rio de Janeiro, combina de encontrar com Bishop, que estava sozinha no sitio delas em Petropólis, para comemorar o aniversário da poetisa, que faz seu próprio bolo; monta uma bela mesa; e espera,espera… Ao final da tarde, Lotta manda Mary a Petropolis para avisar que não poderá ir. Só aparece no dia seguinte, encontrando uma Bishop devastada.

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“Quando amadas se perfumam, Se banham com leite, se arrumam...“

E os abusos continuam quando Bishop é convidada para ministrar uma matéria em uma faculdade nos Estados Unidos. Lotta diz que a poetisa não pode ir porque quer que ela escreva um livro sobre a construção do Parque do Aterro. Quando Bishop argumenta que serão somente seis meses, Lotta humilha sua mulher dizendo que ela é uma bêbada e que não conseguirá ficar sóbria mais de três dias sem a sua ajuda. Bishop, então, abandona Lotta e vai para os Estados Unidos.

Mas é no final da história que uma das coisas de maior mal gosto acontece entre as duas. Se antes Lotta é retratada como a força motriz da relação, no final está debilitada. Com a perda de prestígio de Carlos Lacerda, ela desiste de continuar à frente do Projeto do Parque do Aterro. E é internada com depressão. Recém saída da clínica, vai ao encontro de Bishop, que tinha plena consciência do estado depressivo da outra, em Nova York.
Naquela ocasião, Bishop já tinha outra amante. Nós, espectadores, sabíamos disso. Lotta, não.

Lotta chega na casa de Bishop desesperada para retomar aquela ligação. A poetisa, contudo, está fria e distante. Demonstrando uma crueldade sem igual, Bishop não cobre os rastros da nova namorada em sua casa. Um livro com uma dedicatória de amor da nova amante é desleixadamente largado no sofá da sala. Ao sentar-se , Lotta encontra o livro. Lê a declaração. Se mata.

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A cena final é a mais cruel de todas. Bishop lê para o amigo professor o desfecho da poesia que havia iniciado o filme. Sempre gostei desta poesia, mas no contexto em que foi inserida na trama, passa uma insensibilidade monstruosa. Como se fechasse um ciclo de criação e de vida, Bishop conclui sua poesia sobre perdas, dando a idéia de que mesmo a morte de Lotta não havia sido um desastre para ela.

A morte de Lotta não havia sido um acidente; mas, sim, um suicídio, o que já é um fato muito triste. Muito pior, ainda, quando é antecipado pela falta de cuidado com uma pessoa, uma ex-amante, visivelmente doente e em necessidade de cuidados especiais.

Realmente, o final deste romance não é um desastre. É uma catástrofe.


Eduarda Amaral

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