a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Pinguinho e os Meritocratas

Uma reflexão sobre uma menininha pobre que sempre vejo perto de minha casa, mas em outro planeta. O que a sociedade pode/deve fazer para tornar o futuro desta garotinha mais parecido com o de meus filhos ? Pela manhã, meus meninos recebem beijinhos, enquanto ela, mais novinha e frágil, recebe cascudos...


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Foto: Sebastião Salgado

Hoje, mais uma vez , vi uma menina que tenho visto há meses, pelo menos umas duas vezes por semana.

Um pinguinho de gente ( 2 anos no máximo ).

Vejo-a ser xingada de " filha da puta" e muitos palavrões, pela própria Mãe, que lhe aplica um monte de coquinhos na cabeça .

Essa cena se repete, há meses.

Fico olhando e me perguntando que tipo de comportamento esperam que esta menininha tenha quando crescer ?

Certamente, muito diferente de nosso, que crescemos com problemas diversos, mas com cuidados que ela nunca teve e, provavelmente , nunca terá.

Como esperam que ela entre em um bom colégio, arrume um bom trabalho?

Aliás, acredito que nem um trabalho mediano conseguirá arrumar, com o tipo de criação que teve, que irá embasar seu repertório de comportamentos sociais e emocionais.

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Foto : Sebastião Salgado

Aqui, lembro de uma belíssima citação de Hannah Arendt :

"A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens.
A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar o mundo comum."


Nestes dias, sempre acabo indo para o trabalho refletindo sobre como as políticas sociais são importantes para amenizar estas situações, para dar algum tipo de acalanto a pessoas que somente tiveram sofrimento ao longo de suas vidas.

Lembro da importância das políticas afirmativas, das políticas de cotas, das transferencias de renda…..

"Pôxa, mas será que esta menininha não poderá batalhar por conta própria e, por seu próprio esforço, vencer suas dificuldades, conquistar seu espaço?" perguntam aqueles que defendem a Meritocracia.

"Conheço um cara que veio do nada, ferrado de pai e Mãe, que estudou morando nas ruas, que conseguiu entrar na UFRJ ,e ainda tem aquele outro que foi pra Harvard !"

Acrescentam, em júbilo, nossos meritocratas.

Poizé!

Um. Dois… Extraordinários!

Mas temos um zilhão de pobres, miseráveis.

Pessoas comuns.

Ao escolhermos exceções, escolhemos nos cegar para as evidências, que gritam diante de nossos olhos que pobreza gera mais pobreza, e maus tratos geram monstros.

Pergunto-me, também, quando foi que a promoção de equidade social se tornou
sinônimo de merecimento?

Políticas públicas devem ser, sobretudo, pra quem necessita delas.

Pessoas comuns.

Um montes delas.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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