a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Switched at Birth: a composição da harmonia da tolerância, nos encontros e desencontros entre o som e o silêncio

O enredo de Switched at Birth fala sobre a interação entre surdos e ouvintes. Mostra como o mundo do “Outro”, quando muito distinto do nosso, pode causar estranhamento, parecer ameaçador. Porém, mostra, de igual modo, que quando superamos este receio inicial ganhamos não apenas por alargarmos nossos horizontes, mas também por vencer a paralisa do medo, que pode contaminar nossas vidas.


“Pior que medo de alma do outro mundo é o medo da alma do mundo do outro.” – Adélia Prado

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Switched at Birth (Trocadas no Nascimento) é uma das séries mais corajosas da atualidade. A estrutura da trama gira em torno de duas famílias que tiveram suas filhas trocadas na maternidade. Anos depois, ao tomarem conhecimento deste erro, elas travam grande movimento de aproximação para que as, então, adolescentes possam conviver também com suas famílias biológicas. Contudo, o que torna esta estória uma atração verdadeiramente apaixonante, essencial àqueles que se interessam pela "alma humana", pelo conhecimento profundo das dores e delícias da vida, é o fato de uma das meninas trocadas ser surda.

Engana-se, todavia, quem acha que a série é uma peça audiovisual panfletária, que faz apologia vazia às facilidades de integração entre surdos e ouvintes. O mérito do enredo desta série é, justamente, que ele foge de uma abordagem simplista do tema. Sem ser piegas ou didático, oferece visão profunda e, muitas vezes, áspera dos relacionamentos entre estes dois grupos.

A série passa uma bonita mensagem ao não tentar escamotear o estranhamento que permeia as relações entre surdos e ouvintes. Afinal de contas, os surdos são destituídos de audição; a percepção do meio que os cerca é diferente da de um ouvinte. Fingir que surdos e ouvintes percebem a realidade que os cercam da mesma forma seria hipocrisia. Essa atitude, ao invés de ajudar, somente atrapalharia. Impediria que se visse o Outro de uma forma real, com suas forças e necessidades; que se conseguisse crescer, por meio do contato com pessoas e sentimentos distintos. E nisso, ela também acerta, ao mostrar o amadurecimento emocional e a alegria que os personagens (tanto os ouvintes quanto os surdos) sentem, quando vencem seus medos e preconceitos e conseguem se relacionar com pessoas diferentes deles.

Produzida pelo Canal ABC Family, a série foi criada por Lizzy Weiss. Estreou em 2011, e atualmente se encontra na quarta temporada, distribuída em aproximadamente noventa episódios. Não é uma série de grande apuração técnica. Não tem fotografia ou trilha sonora especialmente elaborada ou bonita. Seu enredo, todavia, tem aspectos muito interessantes. Além do tratamento humano dispensado às duas estórias principais, o roteiro ainda se diversifica em várias subtramas de interesse social. Fala, por exemplo, sobre alcoolismo, arte de rua (grafite) e estupro. A falta de desenvolvimento e o abandono repentino de estórias secundárias, todavia, é uma grave falha de sua narrativa.

A caracterização física, pessoal e sociocultural dos personagens principais já evidencia a intenção do roteiro de jogar com os encontros e desencontros de indivíduos de grupos distintos forçados, pelo acaso, a conviverem de forma mais próxima. Bay Kannish (Vanessa Marano) cresceu em uma família estadunidense branca, rica. Seu pai, John (D.W. Moffert), é um ex-jogador de baseball e sua mãe, Kathryn (Lea Thompson), dona de casa. Bay sempre havia nutrido certo desconforto em relação à família, devido a suas diferenças físicas e de personalidade: é morena, com traços latinos e de temperamento mais expansivo. Uma das subtramas bastante interessantes será focada na cultura dos grafites, do qual esta personagem é adepta.Com um estilo similar ao de Bansky, ela pinta clandestinamente lindos grafites pela cidade e defende a bandeira de que a Arte de Rua deve ser mais valorizada.


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Já Daphne Vasquez (Katie Leclerc), que ficou surda na infância, devido a uma meningite, é ruiva e, inicialmente, mais recatada. Foi criada pela mãe, Regina (Constance Marie), ex-alcoólica, de origem hispânica, em um bairro latino de classe baixa. Seu Pai, Angelo (Gilles Marini), abandonou a família, por acreditar que a esposa o havia traído, devido às diferenças físicas da filha. Tem grande aptidão para o esporte, como o pai biológico.

Interessante é que a atriz Katie Leclerc não é completamente surda. Ela tem a doença degenerativa Síndrome de Ménière, que causa perda auditiva intermitente. Sua fala é a de uma pessoa ouvinte. Como a sua personagem é surda desde menina, a atriz tem de introduzir um sotaque diferente, imitando a fala de uma surda.

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É Bay quem faz um exame de sangue no colégio e descobre que não é filha de seus pais. Por meio de uma investigação, os Kennishes encontram à família Vasquez e a aproximação entre as duas famílias tem início. Há de imediato a preocupação da família biológica em se adequar às necessidades especiais da filha surda, e eles começam interagir de forma intensa com a comunidade local de surdos.

A série retrata com naturalidade e profundidade a temática da surdez. Mas a coragem de Switched At Birth vai além de meramente encenar o universo dos surdos.
Muito além!
Uma grande parte de seu elenco é composta por atores com deficiência auditiva. Insere-se em um grupo restrito de obras audiovisuais que não somente pregam a necessidade de inclusão dos portadores de necessidades especiais, como também realiza na prática o que preconiza.

Além da Katie Leclerc, o elenco principal de adolescentes conta com outros atores surdos. Sean Beardy faz Emmett Bradsoe, que é o namorado de Bay. O romance deles mostra com bastante delicadeza o relacionamento entre um surdo e uma ouvinte, e os caminhos em comum que eles têm de construir para superar as barreiras que os separam. Outro aspecto interessante acerca deste personagem é que, apesar de surdo, ele toca bateria em uma banda.

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Já Ryan Lane faz o papel de Travis, um adolescente surdo com problemas familiares, cuja família (ouvinte) se recusa a aprender a se comunicar por meio de sinais. Uma das principais características iniciais deste personagem é a sua irritação com as pessoas, em geral, e sua resistência, em particular, em lidar com ouvintes. Aos poucos, conforme ele vai aumentando a sua autoestima, vai se abrindo mais para as pessoas. Começa, até mesmo, a namorar uma menina ouvinte. Há muitos outros atores surdos no elenco secundário.

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A veterana atriz Marlee Matlen também tem importante participação, no papel de Melody Bledsoe, que é uma das conselheiras da escola para surdos e mãe de Emmett. Em 1986, Marlee ganhou o Oscar de melhor atriz, pelo filme Os Filhos do Silencio, sendo, até hoje, a única atriz surda a receber este prêmio.
Outra peculiaridade é que a Língua de Sinais Americana (American Sign Language - ASL) é usada na maioria das cenas nas quais participam ao menos um ator surdo. Grande parte dos atores ouvintes teve de apreender a gesticular. Em geral, quando contracenam com os personagens surdos, os ouvintes gesticulam, ao mesmo tempo em que falam.

E pasmem com a coragem desta série: há um episódio que tem 90% de sua duração sem linguagem oral. A comunicação é toda realizada por meio da ASL, com legendas. É muito emocionante! E, se pensarmos no risco que a produtora correu ao realizar um episódio que poderia significar grande queda de audiência (devido à rejeição do público ouvinte), nossa admiração pela audaciosa incitava desta série cresce ainda mais.

Sempre buscando caracterizar de forma precisa as vivências dos deficientes auditivos, a série mostra um mundo desconhecido para muitos. Um universo com limitações; é claro. Mas, também, com diversos recursos que os ouvintes têm, mas não utilizam já que possuem a expressão oral.

O que podemos constatar é que se os surdos não escutam, e muitos também não falam, sua expressão corporal é muito mais viva. Como a ASL é uma linguagem visual, ela se utiliza mais intensamente do corpo do que a linguagem verbal. É interessante de se reparar como os personagens surdos possuem amplo repertório de expressões corporais. Emmett, por exemplo, possui leque de expressões faciais variadíssimo.

De tão ágeis, as mãos parecem tentáculos, que desenham imagens no ar. Exalam sentimentos. Depois de assistirmos a esta série, não tem como não nos extasiarmos com as diferentes possibilidades de expressão humanas. Não tem como não passarmos a gesticular mais com as mãos!

Entre os assuntos de grande relevância para a comunidade de surdos, a série aborda com profundidade os questionamentos acerca da formação de uma identidade comum a este grupo e de como deve se dar a inserção de seus membros na sociedade. Com grande sensibilidade, são mostradas diversas cenas nas quais coexistem sentimentos dicotômicos de empatia e estranhamento e tolerância e intolerância entre surdos e ouvintes.

A polêmica questão em torno da necessidade de escolas especiais exclusivas para surdos é amplamente debatida, por exemplo. O roteiro aborda duas situações opostas nas quais alunos surdos e ouvintes convivem na mesma escola. A primeira delas ocorre quando Daphne tem aulas no colégio de Bay. Além do bullying sofrido por colegas, ela sofre por não conseguir acompanhar todas as atividades curriculares.

Posteriormente, a situação é invertida, quando Bay resolve sair de uma escola regular e se matricular no colégio exclusivo de surdos – no qual Daphne e Emmett estudam –, em um programa piloto oferecida para alunos ouvintes. Neste caso, é Bay quem tem dificuldades em seguir as aulas ministradas em ASL e sofre represálias dos colegas surdos, que acham que o colégio não deve aceitar alunos ouvintes. Sentem que o ingresso de estudantes ouvintes em seu colégio pode transformar a cultura escolar baseada na surdez. Bonito é que como Bay insiste em permanecer no colégio, acaba conquistando a amizade dos colegas surdos, que superam seus preconceitos quando a conhecem melhor.

Mas sejamos francos, quem não tem medo de ver seus pontos de vista mais prezados confrontados por hábitos e costumes diferentes? Ou mais importante, quem tem a coragem de vencer o medo da alma do mundo do outro; abandonar seu egocentrismo, e ganhar novas perspectivas de mundo, mesmo que elas sejam estranhas à nossa ?


Eduarda Amaral

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