a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Tarantino e o coração de Branca de Neve/ Ode à natureza humana: violência e revanche

Enquanto se aguarda o lançamento do novo longa de Tarantino, muitos dizem que ele mudou de vez sua linha cinematográfica, de cinema diversão para cinema político. Será que podemos interpretar que ele esteja construindo uma trajetória de cineasta político similar a de Costa Gravas, ícone deste gênero ? Um grande e redondo NÃO parece ser a resposta ! Política é a arte da negociação, do ganhar e ceder ! E os filmes deste cineasta não fazem concessões: é a violência em seu estado de carne cru, de catarse!


tarantino 1.png

Em janeiro, será lançado o novo filme do Tarantino, no Brasil. Desde a franquia Kill Bill, este diretor parece ter, definitivamente, eleito temáticas relacionadas ao combate a injustiças sociais como linha condutora de suas tramas. Sem abrir mão de sua marca registrada, o uso exacerbado da violência, já falou sobre feminismo, nazismo e falará sobre racismo, pela segunda vez consecutiva, em The Hateful Eight (Os Oito Odiados).

Tarantino 10.jpg

A tinta de seus filmes é vermelha. Sua assinatura é autenticada a sangue, que jorra pelas cenas, sempre com a dupla função de compor a estética da imagem e de representar, de forma simbólica, o primitivismo da descarga de emoções exibidas na telona.

Tais quais as tragédias gregas, os filmes de Tarantino pretendem expor toda a força de sentimentos incontroláveis que povoam a alma. Eles são exagerados; impolidos; sem limites…

Exatamente como a natureza humana!

Definem sensações arcaicas do ser humano, anteriores ao estágio de socialização da criança. E aqui podemos traçar um paralelo com os contos de fada e as fantasias infantis, os quais, com freqüência, possuem fortes imagens de violência. Nada mais parecido com uma cena deste diretor do que a tão conhecida história de uma vilã que deseja receber, como prova de sua vitória, o coração de sua oponente: lembremos a Madrasta de Branca de Neve exige que o caçador lhe traga o coração da menina, como prova de sua morte.

Quer uma história mais violenta do que esta, uma madrasta completamente psicopata, que se rejubila ao receber um órgão vital de sua enteada?

O fio que conduz tanto a trama de Branca de Neve quanto os filmes mais recentes de Tarantino é o velho sentimento de revanche, presente desde sempre na história da humanidade. Presente na criança indomada, que necessita revidar, real ou imaginariamente, o agravo sofrido.

Porém, aqui faz-se muito clara uma distinção entre as duas histórias, enquanto a Bruxa da Branca de Neve possui motivos torpes para sua vingança - seu narcisismo exacerbado que não aceita concorrência à sua beleza - , os vingadores tarantianos são "heróis nobres", que recorrem ao uso de força exacerbada para revidar injustiças.

Constitui uma regressão civilizatória à Lei de talião: olho por olho , dente por dente!

Nada mais emblemático desta premissa do que a genial cena de Bastardos Inglórios na qual a personagem judia Shoshana ateia fogo numa sala de cinema repleta de nazistas.

foto 4 .png

Quem nunca teve a fantasia de impingir aos Nazistas o mesmo martírio que eles aplicavam em suas vítimas indefesas?! É o revanchismo histórico em seu apogeu na filmografia de Tarantino. Não tem como não sair do cinema sem dar aquele suspiro de alívio, de " pôxa, ao menos na fantasia aqueles desgraçados tiveram o que mereceram! "

Chocantes as imagens para a nossa sensibilidade? Sim, muito! Mas muito necessárias também! Elas nos fazem lembrar disto :

foto 5.png

Aproximadamente seis milhões de judeus foram mortos no Holocausto. Então, mostrar a violência das mortes dos nazistas na cena do cinema não serve apenas à estética da violência como marca registrada deste diretor, mas também para explicitar, diante de nossos olhos, como mortes violentas são terríveis.

Novamente, neste filme, não há concessões políticas ou racionais: vale a máxima "aqui se faz aqui se paga"!

Sem crises de consciência, mocinhos e bandidos encontram-se no mesmo patamar de comportamentos, no que diz respeito ao uso da violência como instrumento para atingir seu objetivo: a revanche. Contudo, enquanto o excesso de ketchup dos Westerns pastelões serve meramente ao propósito de entreter, os filmes de Tarantino possuem, sim, conteúdo moral. Retratam justamente o que consideram abominável. Eles literalmente dissecam a anatomia da violência na sociedade.

Tarantino 2.png

É em Prova de Morte (2007), que a causa feminista é mostrada de forma mais explícita, quando as personagens principais resolvem se vingar de Mike, um misógino dublê de cenas automotivas, assassino de mulheres. Interessante, que elas vencem o cruel assassino em seu próprio jogo: um racha de carros.

Mas ao contrário do que muitos de seus detratores acusam, os filmes de Tarantino não fazem uma apologia à banalização da violência. Justamente ao contrário! Mostram como mortes violentas ocorrem, como o uso exacerbado da força é vil. Ainda no Prova de Morte, há uma cena na qual Mike, (que tem um carro blindado para resistir a fortes impactos, para ser a prova de morte) choca seu carro propositadamente com o de quatro mulheres, matando-as.

Além de mostrar a cena no plano geral, o filme faz quatro planos detalhes, mostrando como o corpo de cada uma delas foi dilacerado com a batida.

foto 3.png

Exibição desnecessária de violência? Não! Pode-se perceber aí um caráter de denúncia, de se evidenciar o estrago real que o assassino fez em suas vítimas.
Se fizermos um apanhado nas entrevistas de Tarantino vimos que ele tem resposta pronta para a pergunta que sempre lhe fazem acerca de como a violência de seus filmes pode incitar violência na vida real. Para ele, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Seus filmes não incitam violência. São instrumentos de catarse.

Concordo plenamente. Ninguém falaria que depois de assistir a Branca de Neve ou os Três Porquinhos - que queimam o lobo em água fervendo -, as crianças ficam com o desejo de repetir estas ações e saem ateando fogo em seus bichinhos. Sentem, sim, uma descarga psicológica de alívio. De vingança em relação a um opressor.

E lembremos que os filmes de Tarantino não se pretendem realistas em termos de construção de personagens ou situações. Seus personagens são estereotipados, suas situações inusitadas. Apesar de suscitarem reflexões acerca de temas reais, sua estrutura toda remete a cenas oníricas. Como contos fantásticos.

Da mesma forma que Tarantino, Costa Gravas também fala sobre racismo, no intrigante Atraiçoados, e nazismo, no genial Muito Mais que um Crime. Em ambos os casos, diferentemente do cineasta estadunidense, este diretor adota uma linha narrativa completamente racional. A violência é reservada aos violentos. Ela causa espanto e assombro, e os mocinhos da trama devem lidar com ela usando a Razão.

atraicoados .jpg
Atraiçoados é um filme nipo-estadunidense de 1988, dirigido por Costa-Gavras.


este aqui .png
Muito mais que um crime / O enigma da caixa de música é um filme americano-húngaro de 1989, dirigido por Costa-Gavras.

O espectador é convidado a refletir sobre injustiça, mas não a se colocar no lugar de anjos vingadores, como os desenhados por Tarantino. É o primado da racionalidade sobre o da bestialidade da violência empregada por seres desprezíveis, seja por nazistas, seja por racistas.

É o primado da Lei, em um mundo adulto e político. Ele adota uma dramaturgia lúcida , que critica a crueldade do homem, empregando narrativas frias e ponderadas. Em Sessão Especial de Justiça, Costa Gravas atinge o ápice de seu cinema político, retratando as mazelas das engrenagens do Poder Estatal. Completamente Kafkaniano, o filme adota narrativa metatextual e se desenvolve de forma burocrática e arrastada. Entediantemente, sensacional!

Como papel picado não sangra, parece que dificilmente Tarantino fará qualquer filme no qual predomine um víeis político racional e burocrático.
The end.png


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Eduarda Amaral