a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

A Garota Dinamarquesa: Hans Axgil, um personagem masculino do futuro

A Garota Dinamarquesa nos oferece um show de humanidade. Não apenas por tratar de um tema tão importante e polêmico como é a mudança de gênero, mas também por seus personagens mais relevantes serem pessoas excepcionalmente empáticas e com a mente aberta. Este artigo trata sobre Hans Axgil (um personagem coadjuvante), amigo querido de infância de Einar, o qual nos dá um exemplo ainda raro nos cinemas hoje em dia: um personagem heterossexual masculino forte, sem ser machista.


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O filme de Tom Hooper tem como trama central a mudança de sexo de seu personagem principal Einar Wegener / Lili Elbe (Eddie Redmayne), suas dificuldades e a sua alegria em reconhecer e assumir sua verdadeira personalidade. O ganho de confiança e felicidade é perceptível ao longo do percurso da transição de gênero, Lili se mostra uma pessoa muito mais assertiva do que Einar.

Outro fato muito bonito de se ver é como o amor verdadeiro por uma pessoa , aquele que vai muito além de desejarmos "um amor pra chamar de nosso", pode adquirir diversas formas, de acordo as transformações que ocorrem ao longo da vida. No caso em questão, a mudança é bastante drástica, pois Gerda (Alicia Vikander), acompanha toda a transformação de seu marido, quando ele decide mudar de gênero. Ela, então, sai da posição de esposa de Einar e torna-se amiga de Lili. Percebe que se perde de um lado, seu "objeto" amoroso, ganha com a felicidade de um ser humano querido.

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Mas o tema deste artigo trata de uma terceira reflexão específica que este filme nos suscita em relação à formação de identidades de gênero: a construção de uma identidade masculina que se distancia dos estereótipos machistas.

Aliás, uma pergunta vem a minha mente: como podemos denominar um conceito que enaltece a formação de uma identidade masculina positiva, que dê ênfase a aspectos bacanas do homem?

Homismo? Masculinismo ?

Enquanto o termo "feminismo" é geralmente associado a adjetivos positivos, que servem como uma busca para fortalecer o papel das mulheres, o machismo é um conceito negativo, que remete a uma pretensa superioridade masculina sobre as mulheres. Segundo a carga sociocultural que este termo carrega, os homens machistas careceriam das qualidades geralmente associadas às mulheres, tais como a sensibilidade e a generosidade. Por outro lado, acreditam e pregam a superioridade física e intelectual do homem em relação às mulheres. Vivem em um mundo binário, dividido entre dominadores e dominados.

Ao meu ver, Axgil encarnaria um exemplo bem acabado de um homem que consegue ver muito além das convenções sociais de sua época. De um homem que tem a coragem de não temer as opções identitárias do Outro.

Desde a sua entrada na história, Hans Axgil (Matthias Schoenaerts) nos surpreende. Dá primeira vez em que ouvimos falar em seu nome, ficamos sob a impressão de que ele pode ser homossexual. Einar conta a Gerda que quando menino se apaixonou por um amigo, e que os dois haviam se beijado. Ao saber desta história, Gerda que ainda está bastante atordoada com toda a sua nova situação e preocupada com o bem-estar de Einar/Lili, sai a procura de Axgil, em busca de um marchand para as pinturas de Einar, de um amigo que possa ajudar em um momento tão delicado de sua vida

Mas contrariando esta nossa primeira impressão, ele não é. Ao longo da trama, envolve-se amorosamente com Gerda e, ao mesmo tempo, demonstra ser um bom amigo para Lili. Acompanha as duas ao longo do período de transição sexual de Lili, fazendo-se presente nos momentos mais difíceis.

O fato deste personagem ser um heterossexual masculino tem grandes desdobramentos para nossa reflexão. Em primeiro lugar, nos mostra um homem que contrariava completamente os padrões socioculturais daquela época. Ah, devo mencionar que a trama se inicia no final da década de 1920. Grave omissão a minha esta? Não. Infelizmente, não. Transcorridos tantos anos, o tema da mudança de sexo ainda é um forte tabu em nossa sociedade, bem como o machismo.

Assim, ele é um personagem ainda do futuro. Um futuro um pouco mais próximo agora do que a décadas atrás. Contudo, mais distante do que gostaríamos.

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Hans Axgil é um homem muito bonito. Tem uma bela postura. Um jeito sedutor e suave, ao mesmo tempo. Uma boa situação financeira. É amigo. É inteligente. Seu figurino é impecável. Parece um modelo saído de um editorial de moda. É cheiroso. Como posso saber de seu cheiro, se ele não é mencionado neste longa ? Isto se chama cobiça feminina. O personagem encarna aquele homem forte e sensível com quem as mulheres que gostam de estabelecer relações bacanas gostariam de se relacionar. Aquele personagem que nos encanta, estimulando as nossas imaginações, fazendo que completemos com nossas fantasias os atributos que julgamos desejáveis neles.

E, acima de tudo, ele é humano. Se formos pensar em termos de papéis sociais que as pessoas muitas vezes assumem por se sentirem superiores, poderíamos dizer que ele possui várias características que fazem muitos homens se considerarem superiores aos demais, os tornam muito arrogantes. Levianos em relação aos outros e, sobretudo, em relação às mulheres. Mas ele é solidário e gentil.

Interessante é que ele consegue ter todas essas qualidades positivas e, ao mesmo tempo, dar limites ao seu envolvimento com Gerda. A sutil complexidade deste personagem encontra-se justamente no fato de ele se manter muito íntegro, mesmo estando apaixonado por ela. Na medida exata, ele demonstra empatia à situação de Gerda e de Lili, sem se tornar submisso à sua paixão.

Outro característica muito relevante de sua personalidade é que ele não demonstra nenhum preconceito em relação ao homossexualismo. É bastante seguro e resolvido acerca de sua orientação sexual. Na cena abaixo reproduzida, em uma conversa com Gerda, com o maior charme e naturalidade, relata a ocasião em que ele e Einar se beijaram:

Gerda: Eu sou casada com Einar Wegener, você se lembra dele?

Axgil : Claro, éramos tão amigos. Como ele está?

Gerda: Ele me contou que você o beijou uma vez...

Axgil : Eu o que ? Ok. Ok. Eu me lembro. Estávamos brincando na cozinha, e ele estava usando o avental de sua avó, como você pode imaginar, meninos pequenos... brincando... ele estava tão bonito que eu tive de beijá-lo. Sim, eu beijei o Einar. Logo em seguida, seu pai estava me expulsando de lá. Einar, Meu Deus! Por que ele não veio hoje ?

Um segundo ponto a ser destacado é que ter um personagem heterossexual (um membro do status quo convencional) que não julga a forma de viver dos outros serve para mostrar como comportamentos de gênero distintos não devem ser vistos como uma ameaça aos comportamentos de gênero convencionais. Axgil é um homem viril e bem sucedido (fatores extremamente prezados dentro da mentalidade convencional machista), que não procura impor sua forma de vida aos demais. Ele respeita a decisão de Lili e a ajuda a seguir seu desejo de transformação. Dedica o amor de infância que tinha pelo amigo Einar, à nova amiga Lili.

Apesar dos inúmeros avanços da proteção dos direitos humanos realizados ao longo dos últimos anos, ainda vivemos em um mundo onde não há total respeito à liberdade de escolha dos outros, no qual o lema "viva e deixe viver", não é, de fato, respeitado. Muitos membros da comunidade LGBT ainda sofrem severas discriminações e graves violências quotidianamente.

Ainda hoje, quantas pessoas não ficam chocadas ao verem pessoas queridas realizarem mudanças de orientação sexual ou de gênero em suas vidas? E o filme também é muito sábio e realista neste sentido. Ele não procura fingir que não há dificuldades para todos os envolvidos nessas situações. Mostra, claramente, que transformações objetivas e subjetivas podem ocorrer também não apenas com o sujeito que passa de fato pelo processo de modificação, como também, por aqueles que com ele se relacionam. Evidencia a importância do apoio e carinho de quem se ama quando o indivíduo assume a sua transsexualidade.

Enfim, juntamente ao papel de Gerda, o personagem de Axgil é uma apologia de amor ao próximo. Um personagem libertador. Que, assim como Lili e Gerda, não submete a sua felicidade e as suas lealdades a padrões sociais preestabelecidos.

Assisti ao filme com uma amiga, que me disse que não tinha ficado claro para ela se no final Gerda e Axgil ficavam juntos ou não. Eu pensei: será que isso realmente faz diferença ? Só o fato de Axgil ter existido na vida de Gerda e de Lili, naquele determinado momento tão crucial e de ter sido tão empático, já lhe dá o direito à famosa frase dos contos de fadas: "e foram felizes para sempre". Seja junto à Gerda. Seja seguindo sozinho o seu caminho. Palmas para Hans Axgil.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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