a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

As Idades de Lulu e Björk: a inexorável vertigem do amor e fantasias sexuais

As Idades de Lulu fala sobre questões espinhosas nos relacionamentos amorosos, as quais, muitas vezes, para nossa própria sanidade (afetiva e corporal), preferimos esquecer. Faz-nos refletir acerca da entrega amorosa e do sempre presente risco de perda e de como usamos as fantasias sexuais não apenas como fonte de prazer, mas também para domarmos nossos medos. A percepção mais aguçada que o filme nos traz sobre amor, sexualidade e vida é a seguinte: Ame! Ouse! Fantasie! Delicie-se! Quase tudo é permitido! Quase tudo ..



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Ao contrário de outros filmes que abordam a temática da fantasia sexual - como Nove Semanas e Meia de Amor e Cinquenta Tons de Cinza (desculpem citar filmes tão prosaicos, mas são exemplos do gênero) , os quais reproduzem cenas de intimidade e sexo de forma esquemática, como em um comercial de absorventes - as Idades de Lulu deixa entrever, com grande sensibilidade e sutileza, a construção do aspecto corporal do amor, ao longo da vida.

Por meio de pequenos detalhes, nos faz recordar que a sexualidade tem gosto, cheiro, paladar, escuta, visão e muito tato.

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Em uma das primeiras cenas, exibe, em plano detalhe, a vagina de Lulu, recém nascida, sendo salpicada de talco. Esta cena dura por aproximadamente um minuto, tempo bastante longo para um close praticamente estático, sem nenhum som em especial.

Tendemos a focar nas características sociais e psicológicas do desenvolvimento da sexualidade. Frequentemente, esquecemo-nos de que a formação dos gostos e desgostos do corpo - das sensações de prazer e dor -, constitui processo que se desenvolve por toda a vida. Dos estímulos que recebemos e de como os interpretamos. E de que a sexualidade nasce junto com o bebê. Fato já ressaltado por Freud há tempos, mas que freqüentemente esquecemos.

Aqui, abro um parêntesis para comentar que o filme foi realizado na década de 1990. Esta cena lindíssima, sem nenhuma intenção pervertida ou de exploração sexual de um neném, talvez não fosse permitida de forma tão explícita hoje em dia. Muito provavelmente, poderia sofrer censura, ser considerada uma apologia à pedofília. Ainda bem que não o foi, pois ela é fundamental para instigar a reflexão acerca do componente sensual inerente ao envolvimento amoroso.

O indivíduo deseja não apenas o amor racional e emocional, mas também satisfazer a um repertório de emoções e sensações corporais que apreendeu a desejar. E o corpo deseja. Há uma componente "animal", que dificilmente é totalmente controlado por nosso lado racional, e que pulsa repleto de desejos e quereres sensoriais.

Breve Resumo

Esta película do Espanhol Bigas Luna narra a estória de amor entre Lulu (Francesca Neri) e Pablo ( Oscar Ladoire). O romance inicia-se com Lulu ainda adolescente. Pablo, que é amigo de Marcelo, o irmão anos mais velho dela, já é adulto e é com ele que ela inicia a sua vida sexual. Inicialmente tímida sexualmente, Lulu se solta, e o dois desenvolvem um relacionamento amoroso permeado por forte sensualidade e erotização. Gostam de fazer brincadeiras sexuais. De, até certo ponto, testar a segurança do amor deles Uma delas consiste em assustar de carro travestis a noite. Dirigem em direção deles, gritam, e depois saem correndo.

Em uma destas noites, conhecem Ely, uma travesti, que acabam levando para um ménage à trois. Reveladora esta cena deixa muito clara a dinâmica dos jogos sexuais entre eles. Apesar de incluírem Ely nas preliminares sexuais, ela é completamente excluída do ato sexual. Lulu senta-se no colo de Pablo e o enlaça , deixando bem claro que, apesar de tentado, ele pertence somente a ela. O amor dela é monogâmico.

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Aparentemente desbravadora, em termos sexuais, o que Lulu busca, na realidade, é sair da rotina, é obter frisson em uma realidade segura de um casamento estável. Podemos perceber dois aspectos desta fantasia: Em primeiro lugar, desperta o tesão sexual em Lulu, injetando uma adrenalina que uma pessoa casada já não costuma ter com outros parceiros.

Em segundo, coloca-a em uma situação na qual Pablo também é tentado, e ela vence a sua rival. Não é disso que todos temos medo? De surgir uma terceira pessoa que arrebate o ser amado, nos roubando o que somente aquele ser pode nos doar: o seu amor?

Para ilustrar a dicotomia entre o medo e a segurança inerentes às relações amorosas estáveis, recorro a genial canção Hyperballad, da cantora islandesa Björk. Sua letra fala sobre uma mulher que vive em uma linda montanha e que, todas as manhãs, antes do parceiro acordar, vai á beira do penhasco e atira objetos lá de cima. Então, fica parada, assistindo eles se espatifarem, imaginando como seria o seu corpo despencando lá de cima, chocando-se contra as pedras. Depois, volta para casa, mais feliz, por se sentir segura de novo, ao lado do dele.

Atenção, não se enganem ! A personagem da canção não reproduz somente o adorável sentimento de segurança que tem ao final de cada uma destas pequenas encenações . Ela revive, também, a cada vez , a vertigem que tem quando assiste ao objeto se despedaçando. E, por meio desta pequena dramatização, sente , de igual modo, o pavor da queda. Contudo, apesar do desejado momentâneo mal-estar, o final conhecido é sempre o triunfo da sensação de segurança.

Aviso: deste ponto em diante, começarei a analisar o que considero a segunda grande sacada deste enredo, que está diretamente relacionada ao desfecho do filme. Para quem ainda não assistiu, e queira ter a oportunidade de se surpreender, este é o momento de parar a leitura, e retornar depois, para comparar nossos pontos de vista.

Muitos acham este filme moralista. Eu o acho uma grande lição de como os limites de cada um devem ser respeitados.
De fato, a percepção mais aguçada que o filme nos traz sobre amor, sexualidade e vida é a seguinte:

Ame! Ouse! Fantasie! Delicie-se!

Quase tudo é permitido! Quase tudo ...

Só não ultrapasse os próprios limites. Viva as suas fantasias sexuais mais loucas; mas as que você de fato escolher. Quem negligencia os próprios limites, lança-se no caos !

E é justamente no caos psicológico que Lulu acaba se atirando depois que extrapola os seus limites psicológicos e sexuais. Depois de anos de um casamento estável recheado de desejo e fantasiais sexuais, o casal protagonista está em uma festa e Pablo começa a flertar com uma mulher. Lulu sente muito ciúmes. Juntamente com um grupo pequeno de amigos, eles voltam para casa deles. Pablo e Lulu estão nas preliminares sexuais, quando ele veda os olhos dela com um lenço, e introduz um outro homem na relação sexual. Nós vemos que o convidado de Pablo é Marcelo, irmão de Lulu. Ela, teoricamente, faz sexo com o próprio irmão as cegas, sem saber com quem estava transando.

A partir deste ponto, o filme adquire um ar sombrio. Ao descobrir que havia transado com Marcelo, Lulu fica completamente desnorteada. Separa-se de Pablo. E entrega-se a fantasias sexuais pervertidas, chegando ao extremo de ir a uma sessão de sadomasoquismo super perigosa.

Para muitos, o filme assume caráter extremamente moralista, já que Lulu teria ficado desequilibrada depois de ter mantido relacionamento sexual com o irmão. De acordo com este ponto de vista, o filme corroboraria que somente os relacionamentos convencionais seriam de fato corretos. Saudáveis.

Acredito, contudo, que o que faz ela perder seu equilíbrio é o fato de ter vivido uma fantasia que não tinha o desejo (nem a capacidade psicológica) para viver. Como ela mesma diz, nunca tinha fantasiado em fazer sexo com o próprio irmão. Por que o fez então?

Se partirmos do pressuposto de que ela realmente não sabia que era seu irmão o homem com quem estava se relacionando, podemos dizer que ela quebrou um tabu muito cultuado em nossa sociedade, a interdição do incesto. E a este respeito, repito, que ela teria quebrado sem escolher. A trama não pretende julgar se o incesto (um constructo social e psicológico) é certo ou errado. Deixa claro que não é o incesto em si que desestabiliza a personagem, mas o fato de ela feito algo que não intencionava.

Por outro lado, poderíamos também supor que, desde que Marcelo entrou no quarto e começou a interagir com ela, Lulu sabia exatamente de quem se tratava. Não teria sido ela capaz de reconhecer o corpo, o toque, a temperatura e a respiração do próprio irmão ?

Quando Lulu se separa de Pablo, ele a questiona porque ela havia aceitado fazer o ménage, e ela responde que caso não tivesse feito, ele teria transado com a mulher com quem estava paquerando na festa. Vemos que, também nesta suposição, mesmo que tivesse reconhecido o irmão durante o sexo, ela teria feito algo que não desejava.
Em ambas as hipóteses, ela teria vivido uma fantasia do marido, não sua.

Pablo explica para Lulu, que Marcelo era seu melhor amigo, e que sempre havia pensado em dividir a esposa com ele. O incesto era algo que excitava a Pablo e a Marcelo. Lulu, porém, teria ultrapassado seus limites, somente para agradar a uma outra pessoa.

Longe de ser um filme conservador, As Idades de Lulu tem a coragem de mostrar sentimentos profundos e difíceis presentes nos relacionamentos humanos e de deixar claro que a forma como lidamos com estes sentimentos "de medo da entrega", de "vontade de romper com o tédio cotidiano de relacionamentos estáveis" , da "ameaça ( real ou imaginária) da perda do amor para outra pessoa", depende dos limites de cada um. É o agir fora dos próprios parâmetros que pode lançar a pessoa no caos, provocando o sofrimento psicológico.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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