a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

AdaptSurf: uma onda de inclusão e liberdade

Em 2016, o Brasil será sede dos Jogos Paralímpicos pela primeira vez. E esta é uma ótima oportunidade para refletirmos acerca da acessibilidade que nossas cidades oferecem para indivíduos com necessidades especiais. A AdaptSurf realiza um tipo de atividade muito ousada em uma sociedade com pouca tradição de inclusão: ela incentiva pessoas com necessidades especiais a desenvolverem a sua autonomia e a entrarem em contato com a natureza por meio do surf.


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Morei nos Estados Unidos durante alguns anos, em Bethesda, Maryland; conurbado de Washington DC. Bethesda é uma cidade pequena e bastante organizada. Um dos fatores que me chamou muito a atenção foi o fato de que lá os portadores de necessidades especiais usufruíam bastante da chamada "vida de rua". Era muito comum vermos cadeirantes deslocando-se sozinhos pelas ruas, super mercados, restaurantes e demais espaços públicos. A infraestrutura da cidade é projetada para a inclusão de pessoas com necessidades especiais. A mentalidade das pessoas é de inclusão.

Quando voltei ao Brasil, a comparação com o que havia visto no exterior me veio a mente quando uma amiga convidou minha família para jantar em sua casa. Seu filho, um rapaz de uns trinta anos, tinha esclerose progressiva em um estágio avançado. Apesar de conseguir fazer diversos movimentos, ele necessitava do uso de máscara de oxigênio. Na época, meu filho tinha seis anos e minha amiga ficou preocupada com a reação dele diante de seu filho. Estava com receio de que meu filho se assustasse, pois a máscara de seu filho cobria quase que o rosto inteiro, e ainda tinha uma pesada haste que ficava parada ao seu lado.

Naquele momento, percebi a diferença entre o lugar que havíamos morado durante os últimos três anos e o nosso país. Gostem ou não dos Estados Unidos, na cidade onde morávamos, a inclusão de portadores de necessidades especiais encontrava-se anos luz à frente da nossa.

Só para se ter uma ideia mais concreta do que estou falando, dou o exemplo de que no restaurante que almoçávamos, pelo menos uma vez por semana, que era bem cool e na moda, freqüentava um senhor que usava um suporte respiratório muito similar ao do filho de minha amiga.

Meu filho cresceu vendo este senhor, e vários outros portadores de necessidades especiais, usufruindo dos espaços públicos como todos nós. Como deve ser.

Ao chegar na casa de minha amiga, ele correu para o rapaz, que estava jogando vídeo game, deu um sorrisão, um abraço, pediu para jogar também e lá ficou animadíssimo a noite toda.

Bom, agora voltemos para a nossa realidade. A minha realidade mais imediata é a de uma cidade litorânea, com praias maravilhosas, mas que possui infraestrutura bastante precária para pessoas com necessidades especiais.

Para mim, a praia é um dos lugares nos quais me sinto melhor. O contato com o sol, a água do mar, são estímulos corporais que me revigoram, física e mentalmente.

Assim, quando descobri o projeto AdaptSurf fiquei maravilhada. Não tenho nenhuma pessoa próxima com necessidades especiais. Mas realmente acredito que uma sociedade só é verdadeiramente harmônica quando ela consegue tratar a todos da forma que eles necessitam, cuidando daqueles que possuem demandas diferenciadas.

Na minha cidade, o Rio de Janeiro, sinto que ainda há muito por fazer neste sentido. Acho que o descaso muitas vezes reflete uma característica que os indivíduos tendem a ter de apenas se preocupar com aquilo que lhes atinge diretamente. Dessa forma, em várias sociedades nas quais a inclusão social ainda se encontra em movimento de construção, a infraestrutura urbana é toda projetada para a maioria, sem levar em consideração grupos específicos que possuem necessidades diferenciadas.

Nesses casos, as pessoas com deficiência devem lidar não somente com as suas limitações mas também enfrentar as barreiras que a sociedade lhes impõe, tanto no aspecto físico quanto no comportamental .

Fundada em 2007, a AdaptSurf é uma associação sem fins lucrativos. Tem como objetivo justamente a promoção da inclusão social das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, gerando oportunidades de acesso ao lazer, esporte e cultura, por meio do contato direto com a Natureza.

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Segundo especificado em seu site, esta associação tem como proposta "desenvolver e divulgar o surf adaptado para pessoas com deficiência, lutar pela preservação e por melhorias na acessibilidade das praias. Acreditamos que o surf pode ser uma excelente ferramenta nas questões sociais, culturais e ambientais, por se tratar de um esporte saudável, democrático e de interação total com a Natureza".

A AdaptSurf oferece seus serviços para pessoas com diferentes tipos de deficiência (física, auditiva, visual, mental e múltipla), com o intuito de possibilitar uma experiência múltipla e enriquecedora delas com o mar e a praia, de forma geral.

Abaixo, um vídeo institucional falando sobre a AdaptSurf:

Esta associação possui uma história interessante de superação e garra.
Um de seus fundadores, Henrique Saraiva, ao ser assaltado e levar um tiro na coluna, em 1997, perdeu parte dos movimentos das pernas. Após um primeiro momento de choque e adaptação, ele conta que percebeu que a sua felicidade não dependia de ele estar cem por cento bem fisicamente. Assim, voltou a surfar, e viu que podia lutar, ou melhor, surfar em busca de sua felicidade.

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Na foto, Henrique Saraiva, um dos fundadores da AdaptSurf

Em 2007, Henrique e os fisioterapeutas Luana Nobre e Luiz Philipe da Silva, começaram a pesquisar sobre o surf adaptado, que já existia em alguns lugares do mundo, constatando que não havia nenhuma iniciativa similar no Rio. Pesquisaram todos os tipos de deficiência que poderiam atender e as adaptações que deveriam ser feitas para que eles pudessem dar aulas de surf com segurança.

Além de ministrar aulas de surf, a AdaptSurf também fornece o equipamento necessário para que seus alunos tenham acessibilidade ao mar. Assim, esteiras são colocadas sobre a areais para permitirem que as cadeiras de rodas especiais para praia (cadeiras anfíbias) possam ser locomovidas de forma adequada.

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A prancha também apresenta características peculiares: é confeccionada com um material mais maleável, possui alças de fixação, para facilitar a fixação do aluno e sua segurança durante as aulas. Sua quilha também é de borracha, impedindo, assim, maiores riscos de acidente.

Conforme explica Phillipe, no vídeo acima postado, a AdaptSurf trabalha em três vertentes:

1 – Integração Social no ambiente das praias – Esporte adaptado para contribuir com o desenvolvimento físico e mental;
2 – Acessabilidade – Modelo de praia acessível;
3 – Preservação das praias – Desenvolve trabalho de educação ambiental com todos os participantes da Adapt Surf, para educar os freqüentadores da praia em geral.

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Como alguns alunos relatam, o simples contato com a água transmite uma sensação maravilhosa. No mar, muitos deles conseguem uma mobilidade que não possuem em outros meios. Usam suas potencialidades para vencer os obstáculos das ondas e se divertir com eles. Eles percebem que podem ir muito além de suas limitações cotidianas.

Outro aspecto muito valorizado e incentivado é autonomia de seus alunos. A AdaptSurf trabalha para que, dentro do possível, os alunos consigam ir as aulas sozinhos. Buscando criar as adaptações necessárias para isso possa ocorrer de forma segura.

O vídeo acima mostra o relato de Monique, que nasceu com paralisia cerebral e que a cada onda surfada renova a autoestima, ao se ver capaz de vencer o medo, e praticar um esporte tão prazeroso.

Já André ficou paraplégico após um acidente de moto. Superou a depressão com a ajuda do surf, que lhe deu um novo estímulo para viver.

O que dizer de Marlon que teve um glaucoma e perdeu a visão de forma repentina. O surf também lhe deu uma nova perspectiva na vida e hoje ele surfa se guiando pelo barulho das ondas, ficando até mesmo em pé na prancha.

Como sublinham os fundadores da AdaptSurf, é raro vermos pessoas com deficiências em nossas praias; mas nos pontos nos quais a AdaptSurf ministra suas aulas, há uma razoável concentração de pessoas com deficiências. Inicialmente, atendendo um número pequeno de alunos, hoje a AdaptSurf tem dezenas de alunos.

O Guia de Acessabilidade das Praias constitui outro trabalho super interessante desta ONG. Nele são dadas informações acerca das condições de acessabilidade das praias e da qualidade das ondas. Assim, turistas e moradores podem escolher a praia que melhor se adequa às suas necessidades.

http://adaptsurf.xpg.uol.com.br/projetos_guia.html

Este projeto serve também para mostrar para a população que os portadores de necessidades especiais são capazes de vencer suas limitações e praticar surf, um esporte para destemidos, que nem todos têm a coragem de tentar.

E, se vencer o medo das ondas já é uma tarefa de superação para qualquer pessoa que não tenha limitações físicas, imagina para aqueles que tem alguma deficiência e têm de arrumar formas para contorná-las. E, neste aspecto, o AdptSurf fornece uma experiência libertadora e segura.

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Mas penso que os benefícios deste projeto vão muito além das pessoas que ele atende diretamente. De fato, ele não apenas melhora a qualidade de vida de seus alunos, mas também contribui para mudar a mentalidade de nossa sociedade no que diz respeito à inclusão. Ajuda o Rio de Janeiro a se tornar mais democrático e humano.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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