a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Amor sem Fronterias: o universo da assistência humanitária e a MINUSTAH

Em um contexto de crise internacional humanitária sem precedentes, Amor sem Fronteiras (Beyond Borders) é um filme essencial. Apesar de sua enganosa aparência de superficialidade, encerra um retrato realista e desconcertante dos percalços envolvidos na ajuda humanitária. O Brasil tem prestado assistência humanitária  em diversos conflitos e em calamidades internacionais, seja por meio da atuação de ONGs , seja por meio de ajuda militar. Recentemente, tive a oportunidade de conviver com um jovem ex-militar que foi baleado no rosto quando participou da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti MINUSTAH , e que me fez lembrar da dura realidade que este filme nos mostra.


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Muitos ao saberem do elenco e do resumo deste filme, contudo, podem julgá-lo de forma errônea, como uma simples história de amor. Ele, porém, vai muito além disto. Recebi a indicação para assisti-lo de uma professora de um curso de pós graduação que fiz nos Estados Unidos sobre ajuda humanitária, que já havia vivido em diversos países africanos em conflito. Confesso que só me interessei por ele, por causa desta referência. Afinal de contas, um romance com a Angelina Jolie (ainda nos primórdios de seu engajamento humanitário) e Clive Owen só poderia ser um água com açúcar superficial, pensei eu; como pensam muitos. 

Ledo engano, todavia.

O gancho romântico atende muito bem a duas finalidades. Em primeiro lugar, mostra as discrepância entre os dois estilos de vida retratados - o dos países ricos  e o dos pobres -, representados pelos personagens principais e os locais de conflito onde eles atuam.

Além disso, mostra que os prestadores de ajuda humanitária também têm uma vida pessoal e que esta afeta, e é afetada, pelo trabalho que estão realizando nas crises em que atuam. 

Já em uma de suas primeiras cenas, retrata os contrastes existentes entre a realidade rosada dos países que prestam assistência e os que a recebem. 

É em um baile Black and White de gala de arrecadação de fundos para uma organização não-governamental que presta serviços humanitários na África, que os personagens principais se conhecem. Nick Callahan (Clive Owen), que é o personagem masculino principal, um médico ativista humanitário, invade uma festa de gala, para protestar contra os cortes de financiamento a um campo de refugiados na Etiópia, no qual a sua ONG  atua.

Com ele, leva um menino africano, vestido em trapos, como denuncia da situação catastrófica que o povo desse país se encontra. Diz que quando o encontrou, o menino passava tanta fome, que tentava comer o próprio dedo.

Em uma cena de cortar os mais empedernidos coracões, um convidado atira uma banana em direção ao menino. Callahan pega a banana. Diz que se o convidado pretende fazer a antiga piada de mal gosto que compara africanos a macacos, que isto para o menino não faz a menor diferença. Que se quiserem que ele imite um macaco, assim ele o fará. Por que, afinal de contas, aquela banana contém 300 calorias, muito mais do que o menino costuma comer em um dia.

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Lê em voz alta, no meio da festa, o motivo pelo qual o corte foi realizado, qual seja: a condenação do regime ditatorial, apoiado pelo Comunismo, então vigente na Eitópia.

A esse respeito, cabe ressaltar que as instituições governamentais e privadas que financiam ajuda humanitária normalmente avaliam as condições locais de governança. Um dilema de complexa solução se apresenta.

Por um lado, é totalmente compreensível que quem está emprestando/doando dinheiro para assistência humanitária queira se certificar de que os recursos contemplados não estejam sendo dirigidos para financiar Ditaduras, ou grupos que violem leis locais ou normas internacionais. Por outro lado, todavia, e esta é a posição adotada por Callahan, o salvamento de vidas humanas deveria ser o principal ponto a ser considerado, independentemente do governante no Poder.

Dá para se perceber que não se trata de uma questão cartesiana.

Você estaria disposto a doar dinheiro a um país governado por um ditador?
Você cortaria o financiamento de um campo de refugiados lotado de pessoas morrendo de fome por que ele estaria localizado em um Estado com um governo ditatorial ?

A partir daí, já torna-se explícito o tom de denuncia que o filme pretende adotar. Torna-se evidente, de igual modo, que o filme apresenta uma abordagem realística das intervenções humanitárias, longe de padrões maniqueístas.

Se você está acostumado a enxergar o mundo em preto e branco, fique longe deste filme. A Ajuda humanitária não é uma área para fracos. É uma zona de atuação repleta de áreas cinzentas, nas quais a promoção do bem-estar humano deve ser o principal foco.

A socialite Sarah Jordan ( Angelina Jolie), que é casada com o filho do rico empresário responsável pelo corte do financiamento, se impressiona com a altivez de Callahan e fica muito tocada pela situação do menino africano. Resolve, então, se envolver de forma ativa na ajuda humanitária e vai pessoalmente levar um comboio de alimentos ao continente africano. A partir daí, o filme retrata  o envolvimento do casal de protagonistas, o qual se desenrola no contexto da prestação de ajuda humanitária.

O enredo nos faz refletir acerca da complexidade existentes em contextos de tragédias humanitárias. Muitas vezes, tendemos a achar que fornecer ajuda a países em conflito constitui tarefa fácil. Que todas as pessoas que trabalham neste ramo têm tendências à santidade.

Esta idéia, todavia, é bastante equivocada. Neste sentido, o personagem de Owen é um verdadeira aula acerca das contradições nas quais um ativista pode se envolver. Ao longo da história, para conseguir ajudar a quem precisa, ele tem de negociar com milícias africanas e com agentes da CIA, por exemplo.

Sim! É isso mesmo!
Para conseguir fazer boas ações, ele têm de se corromper, fazer pactos com senhores de guerra local . 

Em uma das cenas mais marcantes do filme, que parece tentar recriar a famosa foto de Kevin Carter, Sarah passa por uma criança que está morrendo, a resgata, contra a vontade de sua guia, que busca dissuadi-la de tentar salvar a criança, alegando que seria uma atitude em vão. Callahan também acreditava que a criança acabaria morrendo de qualquer maneira. Explica à Sarah que, como aquela, havia milhares de outras crianças. Não podiam salvar a todos. Em sua opinião, iriam apenas desperdiçar recursos. Deixa claro que em um contexto de recursos escassíssimos, há escolhas a serem feitas o tempo todo.

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Foto de Kevin Carter, ganhadora do Prêmio Pulitzer de Melhor Fotografia Especial, em 1993. Retrata a Fome no Sudão.

Sarah, contudo, convence-o a tratar a criança. Contra as previsões do médico, eles cuidam do menino e ele sobrevive.

O debate travado entre eles mostra a divisão entre um olhar otimista - de uma pessoa que não está vivenciado aqueles horrores em sua vida cotidiana - e o olhar cético de quem já sabe dos horrores de guerras e das transformações duras que eles promovem na personalidade do indivíduo. 

Para o público brasileiro, os conflitos mostrados neste longa podem parecer uma realidade distante, já que o Brasil não se encontra envolvido em nenhum conflito militar, de forma direta, há muito tempo. Porém, apesar de afastado fisicamente dos principais conflitos internacionais, o País tem atuado de forma sistemática em diversas ações de ajuda humanitária no âmbito internacional, tanto por meio da ação de civis, quanto da de militares. 

Recentemente, tive um pouco mais de contato com esta realidade por meio de Francisco Marcelo B. Batista, um jovem ex-militar que participou da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) , da qual o Brasil exerceu o comando militar até 2016.

É interessante notar que se em nosso país há muita pobreza, com áreas do território nacional nas quais dominam grupos criminosos, do meu ponto de vista, a situação de guerra é muito distinta da pobreza. Ela se caracteriza por um território estatal no qual as leis já não mais existem. Onde há o colapso de funções mais primordiais do Estado, como a primazia da Lei e a manutenção da segurança.

Os membros das forças de paz atuam, em geral, em duas frentes, na manutenção da segurança e na prestação da ajuda humanitária. Ambas as dimensões, como muito bem retratadas em Amor Sem Fronteiras, são repletas de desafios. Os integrantes das missões de paz estão ali para ajudar na segurança local e para ajudar na reconstrução de locais devastados por guerras.

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Devem procurar, ao máximo possível, manter a neutralidade em relação aos conflitos locais.

Assim, encontram-se em situação extremamente difícil, na qual não podem usar força de ataque – já que devem permanecer neutros no conflito –, restando a eles somente a possibilidade de se defenderem quando atacados.

Como Callahan , quando optou por participar das forças de paz do Haiti, Marcelo tinha como intuito atuar na promoção da paz e na prestação de ajuda humanitária naquele país latino-americano. Diferentemente de Callahan, todavia, e de grande parte de pessoas dos países mais ricos, Marcelo foi criado na Cidade de Deus, comunidade carioca com histórico de pobreza e violência. Mesmo assim, o grau de pobreza e de devastação encontrados no Haiti o chocaram.

Contou-me sobre mulheres que cozinhavam barro para alimentar os filhos. Aqui vale lembrar que tamanha é a escassez de comida naquele país , que as mulheres fazem biscoitos de terra para comerem.

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Emocionou-se quando me falou sobre a felicidade dos haitianos quando iam pegar os alimentos oferecidos pela MINUSTAH.

Como nesse longa, Marcelo também acabou literalmente sofrendo na pele as conseqüências às quais estão sujeitos os membros de ações humanitárias. Estava em um posto de controle que foi atacado e levou um tiro na boca, sendo levado para um hospital na Argentina, onde teve de ser operado. Teve muitas sorte em escapar com vida. Hoje, carrega uma cicatriz nos lábios. Conseguiu reconstruir sua vida, e se posicionar em uma profissão civil.

Captura de tela 2016-06-29 às 00.09.55.pngVisita do então Secretário Geral da ONU Koffi Annan ao Haiti, em 2006. Na foto, o soldado fuzileiro Naval Marcelo Francisco B Batista ferido durante sua atuação na MINUSTAH participa de um encontro com Annan.

A dura realidade é que agentes humanitários, sejam civis, sejam militares não se encontram imunes às intempéries e circunstâncias políticas locais.

Além disto, ao contrário do que gostaríamos de supor, como todos os seres humanos, há indivíduos não tão bem intencionados entre os ativistas civis e os militares das missões humanitárias. Ao redor do mundo, houve inúmeros crimes cometidos por membros de missões humanitárias civis e militares, como má conduta, estupros e violência - praticados contra a população local.

No livro The Road to Hell , Michael Maren apresenta visão extremamente crítica do campo da assistência humanitária. Eu, contudo, discordo de seu ponto de vista. No cômputo geral, as missões humanitárias prestam um serviço de grande importância para os povos aos quais atendem.

Assim, devido às extremas dificuldades encontradas na área da ajuda humanitária, há grandes debates acerca das formas mais adequadas de se promover tais intervenções . Apesar das dificuldades inerentes a elas, como as retratadas em Amor sem Fronteiras, penso que a comunidade internacional não se pode furtar de ajudar os povos que estejam em situação de calamidade humanitária.

E o ensinamento que este filme transmite é justamente este: não se pode assistir de braços cruzados ao sofrimento de seres humanos.
Quando nos perguntamos por que nós brasileiros, que somos um povo que tem tantas mazelas próprias, devemos sair de nosso território e nos despencar a ajudar estrangeiros , cabe uma paráfrase da bela frase de Dante Alighieri a qual noz diz que: "No inferno , os lugares mais quentes estão reservados para aqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise".

No caso da ajuda humanitária, falamos que "o inferno" está reservado àqueles que se mantém passivos diante daqueles que se encontram em situação muito pior do que a nossa, que muitas vezes têm somente os próprios dedos para roer, como relatado por Callahan, ou uma panela com barro de refeição diária, como contou Marcelo.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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