a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Confiança e Perigos na Rede: Amores virtuais ou cuidado com o que você deseja

Frequentemente, vemos textos e debates alertando sobre os perigos dos relacionamentos amorosos iniciados nas Redes Sociais. Sobre como pessoas boas podem ser facilmente enganadas por pessoas má intencionadas. Mas este artigo falará sobre um dos principais responsáveis pelos “enganos” que ocorrem nos amores virtuais: Você! Tanto Confiança quanto Perigos na Rede falam sobre situações nas quais os indivíduos tendem a desejar tanto encontrar um amor, que chegam, até mesmo, a distorcer a realidade. Moldá-la de acordo com o seu desejo.


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Ao longo das últimas décadas, uma nova forma de interação amorosa tem ganhado força: os relacionamentos que se estreitam por meio do contato virtual. Aqueles que os indivíduos se apaixonam se conhecendo muito pouco pessoalmente ou, até mesmo, sem nunca terem se encontrado.

Nestes casos, muitas vezes, as pessoas se apaixonam sem ao menos terem se visto.

Nunca se ouviu a voz do Outro; o seu timbre quando nervoso ou quando muito feliz, suas acelerações e suas calas.

Não se sentiu o cheiro do Outro, e as suas variações de acordo com situações distintas.

Nunca se viu as marcas que se formam em torno de seus olhos quando sorri.

Nunca se experimentou aquela troca de olhares rendidos que ocorre entre seres apaixonados.

Mas como alguém pode se apaixonar sem ter tido estas experiências sensoriais do ser amado?

Que elemento é tão forte, tão poderoso, que faz os indivíduos prescindirem da delícia que é o contato físico com o ser amado ? Daquela sensação inebriante de simplesmente estar desfrutando do mesmo ar que ele respira?

A resposta a esta pergunta é simples e muito complexa ao mesmo tempo. E ela tende a desagradar àqueles que gostam de botar a culpa de suas (des) ilusões nos outros.

A única pessoa tão especial capaz de nos fazer apaixonarmos por um indivíduo que não conhecemos é, de fato, uma pessoa especialíssima em nossas vidas: Nós Mesmos!

Nosso desejo de que o que queremos se torne realidade.

No caso dos relacionamentos virtuais, o nosso credo que podemos moldar a realidade – e moldar o Outro – de acordo com o que desejamos, ganha proporções ainda maiores. Os relacionamentos humanos são construídos tendo como base projeções. Projetamos no Outro as nossas visões, impressões e emoções que adquirimos ao longo da vida, nossas expectativas, realizações e frustrações.

Tendemos a enxergar o ser amado por meio de uma lente, que torna aquela pessoa atrativa para as nossas expectativas amorosas. Nos relacionamentos reais, esta lente também se encontra presente. Ela , no entanto, é permeada pela realidade do Outro: o ser amado possui cheiro, voz, contorno corporal, gestos, movimentos, olhares...

Escolhemos amá-lo “por causa” e “apesar” de suas características.

Mesmo os relacionamentos reais possuem forte carga de projeções e expectativas que nos ajudam a formar uma “ilusão” do ser amado. Ilusão, como assim ?

Para mim, o relacionamento amoroso é uma “ilusão” bonita que formamos em torno de uma pessoa. Quando apaixonados, nos sentimos inebriados pelo Outro. Para ilustrar o que estou dizendo, basta lembrar o momento quando um amigo querido deixa de ser “mais um amigo querido” e passa a ser o Objeto de nosso amor romântico. Muito provavelmente, ele continuou a ser a mesma pessoa que sempre o foi. Mas a forma como o vemos ganha outros contornos.

A nossa capacidade de amar nos faz ver uma pessoa de forma distinta como vemos as outras. A esse respeito, gosto sempre de lembrar uma frase de Roland Barthes na qual ele diz o seguinte: o amor acaba quando descobrimos a verruga no nariz do Outro.
Esta frase evidencia a ilusão que é o amor. A verruga sempre esteve ali; bem na nossa frente! Porém “escolhemos” não enxergá-la.

É claro que o relacionamento presencial também é repleto de projeções, expectativas e diversos outros fatores que influenciam as relações humanas, mas ele tem o contraponto do Outro. Ao menos que se utilize mecanismos extremos de negação, a presença real do Outro impõe diversas restrições à livre-imaginação. Assim, a nossa idealização do amor deve se adequar à presença do Outro. É o diálogo entre as nossas fantasias de amor ideal e a presença real do Outro que forma, DIARIAMENTE, a imagem do ser amado.

Dois filmes recentes falam de forma muito reveladora acerca de amores virtuais e a capacidade que o indivíduo tem de se autoiludir. Interessante que ambos os filmes são dirigidos por dois “Amigos”, David Schwimmer - o Ross - e Courtney Cox – a Mônica - do seriado megahit Friends.

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Adotando um estilo de suspense-policial, Confiança (Schwimmer, 2010), fala sobre o relacionamento virtual entre uma adolescente e um homem que ela conhece na Internet. O interessante desta trama é que ela nos mostra como o nosso desejo exerce um papel poderoso na construção da imagem do Outro.

Inicialmente, seu interlocutor se apresenta como um rapaz de sua idade. Nessa condição, a conquista com elogios e empatia com seus problemas. Aos poucos, todavia, ele vai revelando a ela que é muito mais velho do que dizia ser. E, mesmo assim, ela vai aceitando.

Quando ela o encontra pessoalmente, constata que ele é um homem com uns quarenta anos. E, mesmo diante da realidade, ela aceita ter relações sexuais com ele, de livre espontânea vontade. Isto que é o mais duro: os laços criados pela fantasia do Outro são mais fortes do que a realidade do Outro.

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No final do filme, em um dos diálogos mais bonitos envolvendo pais e filhos, o pai – representado brilhantemente por Clive Owen – (que durante toda a estória havia se revoltado muito contra toda esta situação e atuado junto às investigações para localizar e prender o pedófilo), fala com a filha sobre o seu sentimento de fracasso por não conseguir defendê-la dos perigos da vida. No caso em tela, um perigo que adentra os lares (por meio dos relacionamentos virtuais) e os pais não têm muito como se precaver contra ele.

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Sem querer diminuir a culpa do pedófilo de Confiança, que se faz passar por um jovem e com artimanhas conquista a adolescente, acho que o maior desespero de um pai e/ou mãe é não saber o que se passa pela cabeça da própria filha. E o filme ilustra este temor com muita propriedade.

A menina não é violentada. Ela cede voluntariamente. Confia em um desconhecido que já havia se provado um mentiroso antes mesmo de ela ir ao seu encontro. Quando ela resolve encontrá-lo, já sabia que ele havia mentido a sua idade, só não sabia quanto.
Mas o seu desejo de que o personagem em que acreditou fosse verdade era tão, tão grande que ela se entrega para uma imagem que havia sido criada em sua mente, não para o homem real que foi ao seu encontro.

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Já o enredo de Perigos na Rede (Cox, 2012) vai um passo além e mostra como a realidade virtual pode servir como escape quando o próprio personagem obtém prazer não apenas enganando, mas também, se enganando. Baseia-se em um caso real, e narra estória de Thomas Montgomery (representado com maestria de forma angustiantemente embotada por Garret Dillahunt), um homem de 47 anos, que leva uma vida pacata e entediante.

Inicialmente, ele reluta em entrar na Internet. Depois, incentivado por amigos, começa a navegar na Rede, onde conhece virtualmente supostamente “uma moça alta, sensual e loura”, e, apesar de ser casado e ter filhos, logo se envolve. Para a moça, ele mente sobre a própria identidade. Diz que é um soldado jovem. O que realmente o foi na juventude.

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Interessante, que ele mente não com o mero intuito de enganar a moça, mas ele próprio se engana com a situação criada em sua fantasia. Em uma cena brilhante, começa a imaginar o encontro com a jovem; só que em sua imaginação, ele ainda é o jovem que descreveu para a sua paixão virtual. Ele obtém o “gozo psicológico” por meio de uma ilusão.

Sua vida real, apesar de organizada, era vista por ele como entediante. Ao invés de tentar introduzir mudanças nela, ele se lança na fantasia. Cria um mundo paralelo, no qual não apenas seu objeto amoroso era virtual, e tinha as características que ele desejava (havia recebido umas fotos da suposta moça, porém não a conhecia pessoalmente), como ele próprio se via como outra pessoa; seu “Eu” mais jovem. Neste caso, ele próprio se enganava. Criou uma “fantasia” que se adaptava ao seu desejo, e não foi o seu desejo que se adaptou à realidade.

Ambos os filmes retratam com maestria situações nas quais a própria pessoa alimenta amores virtuais idealizados. A ausência do contato físico com o Outro impede que dados do mundo real sirvam de limites para que nossos desejos se imponham à realidade. Assim, os nossos mecanismos de projeção, idealização e demais formas de nos confundir com o Outro entram em ação.

É óbvio que existem muitas pessoas aproveitadoras no mundo, que por motivos diversos “necessitam” enganar os outros. Mas se pararmos para refletir um pouquinho, perceberemos que há situações que são muito claras, e que nós é quem nos deixamos enganar por nossa enorme vontade de que um desejo se torne real.

A esse respeito, poderíamos lembrar de uma famosa frase de Friedrich Nietzsche na qual ele nos faz a seguinte advertência: "Acabamos por amar nosso próprio desejo, em lugar do objeto desejado."

Se refletirmos de forma mais racional, nós não deveríamos nos achar apaixonados por uma pessoa que nunca encontramos pessoalmente. Com a qual nunca convivemos.

Mas o nosso desejo é tamanho, seja devido ao medo de encarar a realidade (com pessoas reais), seja devido à esperança de encontrar um “ amor ideal”, que nós mesmos nos enganamos. Apesar da falta de conhecimento acerca do Outro, nós nos apaixonamos. Apaixonamo-nos, na verdade, pelo nosso desejo de nos apaixonar.

A internet é uma ótima ferramenta para aproximar pessoas, não para substituir o contato entre elas. Por mais “fácil” e cômoda que a realidade inventada possa parecer, ela não substitui a delícia que é a troca real entre pessoas. Por mais que a convivência com o ser amado nos exija restrições e renuncias, vale à pena arriscar ser feliz de verdade: com todos os cheiros, toques, sons, gostos e etc que se tem direito !


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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