a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema

Cuba e a máquina do tempo: nem à esquerda, nem à direita, mas rumo ao futuro  

Em ensaio fotográfico sobre Cuba, a fotógrafa Josiane Dias buscou capturar o clima cotidiano das ruas de Havana. Queria fazer um trabalho que revelasse além dos retratos que estamos acostumados a ver, os quais, em geral, ou focam em víeis político (entre um polo e outro da dicotomia castrista/anticastrista) ou no "exotismo" desta ilha caribenha.  O que ela percebeu ? Vejam neste belíssimo e humano registro, e compare a sua percepção à dela.  



cuba mulher a janela .jpg

Falar sobre Cuba é sempre uma tarefa polêmica. Todos têm opiniões fortes sobre a geopolítica desta ilha da América Central. Foi quando vi o projeto de Josiane publicado na Revista Lens Culture que me fascinei com o que nos revela esta fotógrafa.   Ela nos oferece um olhar diferente daquele que estamos acostumados a ver - ou melhor- a antever.

E foi sua abordagem distinta de um tema tão eivado de reducionismos que cativou os meus sentidos, e o meu coração, para este ensaio fotográfico. 

O entendimento sobre como as preferências pessoais afetam a interpretação do que vemos é essencial quando falamos sobre um ensaio fotográfico de Cuba, tanto do ponto de vista de quem fotografa, como do ponto de vista de quem aprecia as fotos.


Recentemente, fiquei bastante surpresa quando postei em um grupo de fotografias uma linda foto, na qual um homem e duas crianças estavam no Forte de São Luiz, em Niterói, com uma vista deslumbrante ao fundo  (Estado do Rio de Janeiro). O lindo e elegante homem vestia uma pantalona de linho branco, uma camisa listrada e segurava um charuto. O menino e a menina sorridentes brincavam ao seu redor.


Como legenda, escrevi: "lembra a linda Cuba dos anos 50" . Em 3, 2,1, começaram os comentários negativos acerca de… Cuba! De todos os lados, vieram críticas. Enquanto uns questionavam como eu podia elogiar a “ditatorial Cuba de Fidel”, outros me censuravam por falar da “Cuba subjugada por interesses capitalistas dos anos 50”, de Fulgêncio Batista !

Nenhum comentário sobre a deslumbrante paisagem com seus contornos montanhosos. Sobre o lindo homem.  Ninguém sequer lembrou de mencionar as alegres crianças. A beleza de seres humanos e da paisagem foi sobrepujada por ódios ideológicos.

Demonstrando grande maturidade e perspicácia profissional, a câmera de Josiane não foi cooptada por filtros geoestratégicos (com disputas políticas que limitam o enquadramento), ou por lentes turísticas exortando suas belezas naturais (que servem como moldura para todas as fotos). Neste aspecto, penso que a experiência pessoal de ter vivido em diferentes culturas contribuiu para formar uma visão pluralista do mundo, que a possibilitou ver seu objeto de trabalho sem ideais superficiais ou preconcebidas. Ajudou-a a perceber que cada povo tem suas particularidades, sua essência. Curitibana, Josiane já morou em Brasília, Genebra, Tokyo, São José da Costa Rica. No momento, reside em Nova York, onde aprimorou sua formação profissional, cursando o International Center of Photography (ICP), a National Academy School e a School of Visual Arts (SVA)

menino e sombra .jpg
Suas lentes focaram no dia-a-dia do cidadão comum, buscado perceber os indivíduos "seus reflexos" e o clima das ruas.

Com o intuito de descobrir a poesia do cotidiano, Josiane caminhou pelas ruas, com uma câmera na mão e nenhuma ideia preconcebida na cabeça. Buscou despir-se do que já sabia desse país e perceber "o que a ruas tinham a lhe contar". Esquivou-se dos pontos turísticos da cidade e de pontos "pitorescos" da cultura e da paisagem cubana.

Assim como a sua abordagem, sua fotos são sóbrias e sem o apelo ao uso de efeitos fotográficos para criar maiores impactos. Como um bom fotógrafo de rua, utiliza-se de belíssimos enquadramentos para captar a alma das pessoas , e o dinâmico colorido da cidade.

Com grande sensibilidade, nos conduz por um passeio pelas ruas de Havana, para observar o cidadão comum.
cuba senhora.jpg

cuba senhora com bolsa.jpg

Percorreu diversos pontos de Havana - como o bairro do Vedado (onde reside a “ classe média cubana”) , a Havana Veja e o Centro de Havana - sempre preferindo documentar as ruas internas, menos badaladas; entrando em pequenas ruelas e vilas.

ruela.jpg
A caminhada pelas passagens secundárias da cidade nos permite conhecer a vida que pulsa no interior das fachadas turísticas.

interior casa .jpg

dentro da casa .jpg

bandeira porta.jpg

Captou detalhes do cotidiano das ruas e deu uma espiadela dentro das casas. E o sentimento que nos passa é de sobriedade, tanto nas pessoas, como nos objetos. Alheios aos delírios capitalistas de consumo, nas casas, há poucos objetos. Retratada pela porta entreaberta, a bandeira cubana serve como homenagem à história e à soberania do país.

Suas fotos nos mostram que a realidade cubana é muito mais complexa e rica do que geralmente supomos, que o imaginário cubano é formado por influências que vão muito além do que normalmente se mostra, que não é forjado em dicotomias.  

O contraste entre elementos e estilos de vida de épocas distintas permeia toda a cidade. As grandes construções são o testemunho da extravagância que os mais ricos ostentavam na época de Fulgêncio Batista. Os maravilhosos prédios de estilo art deco, dos anos 1930, 40, estão bastante deteriorados por fora. No entanto, grande parte deles mantêm seus lustres e vitrais originais em ótimo estado de conservação, demonstrando, assim, o zelo que o povo cubano tem com os bens públicos.

cuba 2 carro em frente a predio .jpg
Este carro resiste as intempéries do transcurso do tempo, e das mudanças político socioeconômicas. Está estacionado em frente ao Edifício Baccardi, marco da arquitetura Art Deco, completado em 1930. Depois da Revolução, passou a abrigar escritórios. Foi renovado na década de 1990.

Nota-se,também, que não houve um movimento deliberado do governo Castrista de eliminar os resquícios arquitetônicos de uma época capitalista, os quais convivem com imagens de Fidel e Che Guevara pintadas pelas ruas da cidade. Passado e presente convivem em harmonia.

che .jpg

Já a atual austeridade desta cidade retrata a situação de restrições econômicas e sociais vividas, desde a revolução cubana .

senhor que vende balas.jpg
Senhor vendendo balas na porta de sua casa.

este cococ aqui .jpg
O casal saí às ruas para vender coco.

pessoas lendo .jpg
É comum vermos pessoas nas ruas lendo e conversando, como se fazia outrora. Talvez, pelo fato do acesso à tecnologia da informação ser limitado.


Percebe-se, também, o alto grau de adaptação e criatividade dos cubanos: Símbolo de uma passado de exploração capitalista da ilha, algumas das inúmeras piscinas vazias foram transformadas em espaços de recreação.        

Cuba 1.jpg


São tempos históricos distintos que compõem a arquitetura e permeiam o imaginário coletivo daquele povo. 

Neste aspecto, lembramos que o próprio Fidel Castro tomava coca-cola, que inicialmente ele não era comunista, mas, sim, nacionalista.

fidel_castro drinking coke.jpg
Foto Romano Cagnoni, para Revista Life, publicada em 1972. Há uma polêmica acerca do ano em que esta foto foi tirada.

Qual a importância destas considerações ? Elas nos ajudam a entender a realidade que as fotos nos mostram. Que as influenciais do mundo capitalistas que vemos nas ruas, no cotidiano cubano, não são novidade do atual período de distensão política , mas que fazem parte da história deste povo e se encontra presente na formação de sua identidade sociocultural.

cuba bandeira .jpg
A bandeira cubana encontra-se exposta em diversos lugares pela cidade. Embaixo da bandeira, lê-se a palavra "shop".


cuba maromba .jpg
O "superficial e consumista " culto ao corpo também é visto nas ruas de Havana.


Cuba meninas balao.jpg
A Minnie ilustra camisetas infantis.


E foi por meio destas andanças pelas entranhas de Havana, sentindo os cheiros, ouvindo as gargalhadas, as músicas e os silêncios; sentido a temperatura do ambiente; saboreando a culinária cubana, que Josiane foi capaz de traduzir em imagens o sentimento predominante, o qual capturou todos os seus sentidos: a espera pelo futuro! 

O ponto mais interessante revelado pelo olhar de Josiane é justamente este: Havana clama pelo futuro!  

Ao contrário do que muitos poderíamos supor, apesar da deterioração de grande parte de suas construções e da falta de recursos financeiros do povo, a cidade exala uma expectativa de futuro. A impressão que temos com as suas fotos é justamente esta. Vemos um povo discreto e alegre, que apesar das inúmeras provações históricas a que tem sido submetido, não demonstra sinais de derrota e de desistência. Pelo contrário, demonstra enorme resiliência.

meninos brincando .jpg

cuba religiosos .jpg

menina .jpg

Contudo, tampouco parece satisfeito com as atuais condições em que se encontra. Sente-se o pulsante desejo latente por uma vida melhor.      

Na fisionomia das pessoas, não se percebe desesperança ou acomodação, mas, sim, uma nostalgia de um futuro a ser cumprido. Exatamente, como as piscinas vazias, que aguardam para serem preenchidas.            

cuba piscina principal.jpg


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/fotografia// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Eduarda Amaral