a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Debates políticos nas redes sociais: quando é bom discordar de Umberto Eco

Antes das redes sociais, "normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados...” sentenciou Eco. Será mesmo? Penso que não. O maior imbecil de todos projetou a sua voz em frequência mundial, ao redor do mundo, bem antes da existência das redes sociais: Hitler. Hoje, a Internet ampliou o direito do contraditório, do discurso democrático; coibindo, assim, a prevalência de discursos de muitos imbecis. Estamos todos muitos cansados de tanto debate politico nas redes sociais? Mas, talvez, nunca se tenha falado tanto de política no Brasil, e no mundo. Isso é bom!


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Foi no discurso em que recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália , que Eco fez a contundente crítica às redes sociais. Segundo ele:

"O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade", completa este autor.

Penso justamente ao contrário do que este brilhante autor afirmou.

Para mim, um dos grandes méritos da Internet é justamente criar uma ferramenta de comunicação bastante democrática, que possibilita corroer o discurso dos idiotas.

Como assim?

Não é a Internet um espaço no qual todos podem escrever e divulgar suas ideias de forma relativamente simples e rápida, atingindo um público antes impensado?

Como qualquer um pode divulgar seu pensamento, qualquer um pode também confrontá-lo.

Será que o discurso higienista hitleriano e as atrocidades cometidas pelo regime nazista se sustentariam com o grau de transparência obtido por meio da internet ? Muito provavelmente, não.

No passado recente, a comunicação era uma arma dos mais fortes, e seu alcance ocasionava mais estragos do que armas mortais. Não foi isso que ocorreu com Goebbels, o famigerado Ministro da Propaganda de Hitler, o qual incitava o antissemitismo e o ódio aos comunistas? A máquina de propaganda nazista promoveu lavagem cerebral no povo alemão, sem o direito a propagação de vozes contrárias.

Se lembrarmos um pouco da história, lembraremos que muitos custaram a acreditar na extensão das ambições do general nazista. O governo inglês, por exemplo, julgou improcedentes os alertas do governo francês, segundo o qual a Alemanha estava adotando uma política claramente agressiva e expansionista.

Na época, o mundo não tinha conhecimento claro acerca das atrocidades cometidas pelo nazismo.

Em tempos de internet, relatos em tempo virtual teriam sido, de uma forma ou de outra, divulgados para o mundo todo. Histórias diversas seriam contadas de diferentes ponto de vistas, e todas narrariam as dores causadas pela máquina de morte nazista.
Não teria como não se acreditar em tais testemunhos, mediante as visões e os sons do horror.

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Antes da internet, o poder de comunicação era privilégio de Poucos, os quais exerciam seu domínio sobre Muitos.

Os meios de comunicação eram tidos como órgãos de propagação de verdades absolutas.

Não precisamos ir tão longe, viajarmos ao Velho Continente. Basta lembramos que Getúlio Vargas logo percebeu a importância de se controlar a disseminação de opiniões e de ideias e criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), com o objetivo de centralizar a propaganda oficial do presidente e de controlar e reprimir a disseminação de pensamento discordante do que lhe interessava, durante o Estado Novo.

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Ao se falar em influencia da Mídia na sociedade, não podemos deixar de lembrar do episódio surreal protagonizado pelo genial Orson Welles, em 1938. Ele adaptou para o Rádio a peça de H. G. Wells , A Guerra dos Mundos. O enredo descrevia uma invasão marciana na terra. Para dar maior dramaticidade a esta obra, Welles optou por dotar-lhe do estilo jornalístico, característico de sua época.

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No início do programa, explicitou-se de que se tratava de uma adaptação literária. Ocorre, todavia, que grande parte dos ouvintes sintonizaram no programa depois das explicações introdutórias e acreditaram se tratar, de fato, de uma invasão alienígena, gerando pânico em grande parte da população local.

Esse episódio serve para se evidenciar o alto grau de manipulação que as os meios de comunicação exercem sobre as massas.

O que a minoria que detinha o controle dos meios de comunicação falava “tornava-se” verdade. No caso, a simples fala em um canal de rádio construía realidades muito além do crível. Construía mundo interespaciais .
Acreditava-se, até mesmo, no inacreditável.

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Já mais recentemente, as transmissões em tempo real representaram importante papel na diversificação de informações transmitidas e no impacto que elas causam em seus ouvintes. As noticias não eram mais limitadas a estúdios, nos quais experiências eram narradas ou reproduzidas; mas, sim, passaram a mostrar o aqui e o agora dos acontecimentos. E como o mundo havia se tornado mais “amplo”– com o aprofundamento da globalização -, o pronome demonstrativo ganhou mais proximidade, e todos os lugares distantes – os “lás” – invadiram as casas das pessoas, tornando-se “aqui”, e agora.

No início da década de 1990, a Guerra do Golfo, ou Primeira Guerra do Iraque (1990-1991), foi a primeira guerra a ser transmitida ao vivo pela tevê. Assim, enquanto, no aconchego de nossos lares, saboreávamos um delicioso lanche de fronte à televisão, a CNN mostrava pessoas sendo assassinadas, naquele exato momento.

Mas apesar do enorme avanço da transmissão em tempo real, em termos de como imagens e opiniões eram propagadas ao redor do globo, ela ainda representa um meio de divulgação pertencente a uma grande corporação.

Ao meu ver, a verdadeira reviravolta ocorreu mesmo com a popularização da internet, na qual todos que tenham acesso a um computador conectado a rede mundial possuem a capacidade de projetar a sua voz, tornando-se, eles próprios, divulgadores de ideias. Formadores de opinião .

Hoje, a internet serve como megafone para uma miríade de expressões humanas. Por meio dela, podemos apreciar, por exemplo, trabalhos artísticos e científicos fantásticos. Da mesma forma, vemos pessoas sem a menor qualificação para determinado tema expor ideias totalmente estapafúrdias.

Infelizmente, muitos acreditam em qualquer informação/opinião que esteja veiculada que lhes chegue ao alcance.

Assim, os diversos “idiotas” aos quais Eco se refere ganham seguidores. Porém, de igual modo, suas opiniões são também imediatamente confrontadas.

Um episódio como o ocorrido com A Guerra dos Mundos seria muito improvável. Logo, alguém perguntaria em uma rede social:

“E aê, eh verdade que tem uns monstros invadindo a terra???”.

No mesmo minuto, já seriam produzidas inúmeras respostas.
Nos minutos seguintes, já surgiriam vários Memes satirizando aquele mal entendido.

No Brasil, as redes sociais se tornaram um forte foro de debates políticos. Todos parecem ter e querer expressar suas opiniões políticas. Vemos desde pessoas totalmente desinformadas acerca da realidade do país até àquelas que estão bem atentas ao contexto político e socioeconômico, que realizam análises bastante criteriosas.

Hoje, os analistas e comentaristas políticos e econômicos dividem seu espaço de análise e construção de conhecimento com o cidadão comum. Desde assuntos mais complexos sobre coalizões partidárias até os assuntos da gestão cotidiana da Administracao Pública são amplamente esmiuçados na rede, por diferentes atores sociais, com diferentes níveis de expertise no que falam.

Penso que este movimento é bastante sadio. Mesmo que muitas vezes possa parecer exagerado e descabido. Pessoas que anteriormente não tinham nem interesse e nem voz passam a refletir mais sobre os assuntos que afetam o seu cotidiano. Elas questionam a atuação daqueles que estão sendo pagos com o dinheiro de seus impostos: sejam burocratas, sejam políticos.

Pontos de vistas distintos. Alternativas diferentes para o futuro do País estão sendo apresentadas. Defendidas com paixão. Dificilmente, pode-se varrer a sujeira para debaixo da censura de um Estado autocrático.

Outro fator extremamente positivo é que as pessoas tendem a sair de suas "ilhas de isolamento” .

No mundo virtual, acabamos entrando em contato com realidades bastante diferentes das nossas. Mesmo que tendamos a ter em nosso circulo de relacionamentos pessoas que compartilham a nossa forma de pensar, acabamos vendo os amigos dos amigos dos amigos ...

Aí, você pode se fazer a seguinte pergunta: mas, no meio virtual, não há violentas polarizações em torno de determinados temas? Claro que sim! Mas penso que estas polarizações de fato já existiam. Não foram criadas pela Internet. Ela apenas aproxima pessoas que, de outra forma, manter-se-iam à distância umas das outras. Para mim, isto é bom.

Acredito que o confronto entre ideias diferentes é que traz o desenvolvimento. Se todos pensassem da mesma forma, não haveria chance de progresso; já que ideias novas tenderiam a ser rechaçadas .

O pensamento humano tem sido construído a partir do confronto entre tese e antítese , não é?!

A internet eleva esta metodologia a um grau nunca antes visto. Ela oferece inúmeras possibilidades para que os indivíduos se informem e analisem suas opiniões, mudando-as se julgarem conveniente. E, novamente, isto é bom!

Como a Historia já nos deu inúmeros exemplos, o pensamento único tiraniza os indivíduos, limitando a sua criatividade e o seu crescimento.

Quantas vezes o seu pensamento já foi mudado por uma ideia diferente de outra pessoa, que tenha lhe indicado um caminho totalmente distinto do qual você estava optando ? Se já ocorreu com você, sabe que a sensação é fenomenal. Você sente o sensacional grito interior de Eureka! Você se pergunta: "como eu não havia pensado nisto antes ?"

Em outras ocasiões, você será o propulsor da transformação em outra pessoa. Expressará um ponto de vista sobre o qual ela não havia vislumbrado.

Assim, melhor ter a oportunidade de ouvir várias vozes falando, mesmo que, por vezes, o borburinho possa parecer enlouquecedor, do que ser obrigado a escutar um único tom.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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