a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Julieta e John Lennon

Um título econômico, para um filme econômico. "Julieta", o mais recente filme de Pedro Almodóvar, tem como característica principal uma mudança radical na forma como costuma contar sua história. Rasga sua fórmula narrativa voltada para o superlativo. Assim como a vida, ele é muito simples. Assim como a vida, ele é feito de fragmentos de imprevistos. Banal. De uma banalidade brutal; cotidiana.


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Se fosse escolher uma única frase para descrever Julieta, o último filme de Almodovar, recorreria a uma da canção Beautiful Boy, de Lennon , a qual diz que "a vida é o que acontece com você enquanto você está ocupado fazendo outros planos".

Abaixo reproduzo o vídeo que acompanha a música e que, para mim, é um dos trabalhos de Arte que melhor traduz o clima imposto a última trama de Almodóvar. Julieta vive sua vida de forma tranquila. Mesmo assim, ela é afetada por pessoas, fatores da natureza… e tudo o mais com que a nossa calma interior tem de se a ver.

Aparentemente um filme monótono e raso, Julieta é o longa no qual este diretor melhor conseguiu retratar o relacionamento humano. Aliás, é a narrativa na qual ele melhor descreve o sentido da vida, qual seja: ela acontece sem que nós possamos domá-la de acordo com as nossas expectativas.

Passado em duas fases, Julieta é vivida por duas atrizes que dão força e conferem continuidade ao papel, sem causar a estranheza da mudança . As atrizes Adriana Ugarte e Emma Suárez desempenham o personagem, respectivamente, no passado - aos vinte e poucos anos -, e no presente - já na meia idade -.

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A trama gira em torno da história de Julieta, uma mulher nos seus cinqüenta anos, triste e com um mistério em seu passado, que, como fica bem evidente desde o início do filme, mudou profundamente sua vida. Seu ser.

Ela é triste. E triste como ela, é seu figurino presente.

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Seguindo a tradição de suas películas anteriores, este diretor esbanja no esmero com o figurino, o qual marca de maneira clara não apenas a mudança de tempo/moda, mas também o estado de espírito/personalidade de Julieta.

As cores escolhidas para demonstrar a vivacidade de Julieta na primeira fase da história são o vermelho e o azul turquesa, escolhas já feitas para ilustrar o caráter quente e expansivo dos personagens principais de outros filmes seus. E, nesta fase, as cenas são de uma plasticidade absurda, desde os planos fechados, mostrando detalhes dos personagens e dos cenários, até aos que captam a amplitude da natureza. Nota-se, a firme mão do diretor sob os aspectos técnicos do filme.

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No entanto, ao contrário dos demais protagonistas Almodovarianos, Julieta é uma personagem econômica.

Diferentemente do histrionismo que costuma marcar as personagens e os roteiros de Almodovar, este filme é feito de proporções minimalistas. De situações que poderiam acontecer com qualquer um de nós.


A partir deste ponto, se você não quer ter spoiler, aconselho que veja o filme e continue a leitura depois.

Em O Matador (1986), Ata-me (1990) e A Pele que Habito (2011) , Almodovar trabalha com personagens a flor da pele, emotivos, que encarnam situações que mais parecem cenas de uma tragédia grega. Hipérboles da vida. Em Julieta, ele nos mostra que a vida, por si só, já é bastante complexa e imprevisível.

Construído em cima das perguntas "o que esconde Julieta?" "O que ela fez de tão grave que merece ser triste deste jeito ?", o enredo do filme é calcado em um mistério do passado da personagem principal.

E é ela quem justamente nos conduz por meio de seu passado quando resolve escrever um relato de sua vida à filha, a quem não encontra há muito tempo.

Na história de Julieta, vemos o brilhantismo deste diretor, que ,do meu ponto de vista, amadureceu à velocidade da luz neste filme. Como disse, aparentemente simples, esta trama lida com um dos aspectos mais complicados de nossa existência: a imprevisibilidade.

Histórias loucas acontecem com TODAS as pessoas. Acontecimentos aparentemente pequenos, com o poder de mudar as nossas vidas de forma avassaladora, podem acontecer com qualquer um de nós. Inclusive, com as pessoas mais "estáveis".

Eu amo, de verdade, as tramas de Ata-me e de A Pele que Habito, que nos dizem que a vida muitas vezes é mais louca do podemos imaginar. Amo, genuinamente, a força louca, catártica de seus personagens principais, respectivamente Ricky e Roberto Ledgard. Eles nos instigam a ver o lado extremo de nossas emoções. Eles são os propulsores de seus destinos. Correm atrás de seus sonhos desvairados. São indivíduos que fascinam e amedrontam. Torcem e retorcem a sua vida e a dos outros.
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Porém, o que Almodóvar faz em Julieta é rasgar esta sua fórmula. Ele nos diz , "a vida como ela é, a vida cotidiana e besta de todos nós, já é de meter medo !"

Ela nos prega peça o tempo todo.

Mas o filme não é asspético em tragédias e desatinos. Julieta é, sim, uma pessoa equilibrada ,"do bem" , mas isto não impede que sofra pequenas traições em seu dia-a-dia. Como todos nós. Não impede que fatores totalmente alheios à sua vontade mude sua vida. A cuidadora de sua mãe doente, por exemplo, tem um caso com o seu pai, e ela não pode fazer nada. Herda uma empregada com quem não se dá muito bem, mas não a despede. Mantém ela trabalhando em sua casa durante anos.

E é esta a grandeza maior do filme de Almodóvar: Ele é humano. Demasiadamente, humano.

Por mais que nos esforcemos; que planejemos; que sigamos tranqüilos, a vida simplesmente acontece...

Almodóvar definitivamente amadureceu. Em um filme denso e singelo, teve a grande coragem de reconhecer que a vida é amedrontadora para todos, mesmo as pessoas mais normais e equilibradas .

Tenho um amigo que viu o filme antes de mim, e me aconselhou a nem ir ver. Disse que este diretor havia "envelhecido", "perdido a mão".

Para mim, ele se reinventou. Com isso, renasceu. Reforçando a minha admiração pelo seu trabalho, dando evidências de que ele pode ser repleto de surpresas. Assim, como a trama de Julieta. Assim, como a nossa vida.

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Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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