a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Meu tempo são todos

"No meu tempo, os conjuntos de música (bandas de música) tocavam um som de verdade."
"No meu tempo, os homens eram mais cavalheiros."
Quem nunca ouviu uma frase deste gênero?
Pessoalmente, acho que se a pessoa está viva, o presente é o tempo dela. E aproveitar a vida é estar em constante processo de descoberta e apropriação do seu Hoje! Basta termos a coragem de conhecer coisas novas.


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Foto: Claúdia Lebarbenchon

Conforme vamos amadurecendo, percebemos que um dos grandes dons da vida é a nossa capacidade diária de nos sensibilizarmos com as coisas novas que vamos conhecendo ao longo do tempo. Percebemos que não há linha de chegada, que a nossa vida pode ser uma constante reinvenção de nós próprios, tanto nos grandes quanto nos pequenos aspectos.

Mas mudar pode ser uma tarefa muito assustadora, e com o passar dos anos, muitas pessoas vão se apegando a escolhas e hábitos que lhes são familiares, pois eles, de alguma forma, lhes parecem ser mais seguros.

Conforme vamos nos tornando adultos, tendemos a abrir mãos da enorme plasticidade que caracteriza a nossa infância, vamos acreditando que o que conhecemos já é o suficiente, já nos basta. Acreditamo-nos mais sábios do que a criança, que muito pouco sabe. Porém, com toda a sua falta de experiência, os pequenos têm uma coragem enorme de ir desbravando o desconhecido. De a cada dia, mediante pequenas descobertas, irem se criando e recriando.

E é esta capacidade que as crianças têm que nunca devemos perder. Manter um olhar curioso para o que nos cerca -deixando vir um suspiro de surpresa mediante as novidades - é a forma que temos de nos manter realmente vivos.

David Bowie sempre foi meu ícone musical preferido. Ao ler tantas matérias falando sobre sua habilidade de se metamorfosear ao longo da vida, percebi que o que mais me agradava não era os personagens que criava , mas, sim, o enorme desejo de viver que revelava em seu olhar.

Transmitia a impressão de que estava sempre avaliando o que poderia absorver em cada ocasião. Esta sua característica perpassou toda a sua vida. Para mim, a valiosa mensagem que ele nos deixou foi a seguinte : o tempo é meu aliado. A cada minuto, sou alimentado por novas experiências , novas influencias que vão enriquecendo o meu ser. Cabe a mim, estar aberto a elas.

Ao invés de aceitarmos e propagarmos a batida idéia de "choque de gerações", da impossibilidade de nos conectarmos com o estilo de vida das gerações diferentes das nossas , (sejam as que nos antecederam, sejam as que nos procederam), por que não aceitarmos que o "tempo " é um conceito fluído, que não deve nos delimitar? Nós é quem devemos utilizá-lo, aproveitando ao máximo as descobertas que ele nos proporciona.

Costumamos blasfemar contra a crueldade do tempo, que castiga nossos corpos, mas antes mesmo de estarmos, de fato, incapacitados para determinadas atividades, somos nós quem nos punimos, restringindo os nossos desejos e a nossa capacidade de nos admirarmos com as belezas da vida.

Mas aí sempre tem quem diga, "pôxa, mas não dá para comparar a beleza da música clássica, com o rock !" , e outras comparações que tendem a enfatizar uma suposta qualidade nostálgica do passado. Para mim, tais comparações são inócuoas. Não acrescentam nada. Servem, apenas, para restringir tudo o que somos a um passado, muitas vezes, bom, com muitos fatores positivos, porém, passado.

Além disso, penso que nem tudo tem de ser uma comparação. Certas coisas servem a determinadas finalidades e outras para outras. Por que devemos agir de forma excludente, como se um gosto devesse anular o outro?

Quando me fazem este tipo de comparação, costumo brincar que, para praia , havaianas, para festas, Manolos … Os dois têm lugar cativo no meu armário .

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Somos indivíduos múltiplos. Devemos olhar para trás, para frente e para os lados. Sem preconceitos contra sexo, cor, classe social, idade …

Ideias preconcebidas são artifícios que muitas vezes usamos para nos sentir seguros em relação ao mundo, e a nós mesmos. É como se limitando nossas margens de escolha e de atuação, agiríamos dentro de uma zona de segurança . Mas isto não é verdade. Ficamos congelados nelas, enquanto o mundo ao nosso redor gira, e nós nos isolamos.

Meu tempo são todos!

Meu tempo é a música clássica, aí de mim se não fosse a Pastoral, de Bethoven!

E como pensar em dançar sem a rainha da pista de dança, Lady Gaga?

Meu tempo é a luta das feministas da década de 1960, que me possibilitaram sair de casa sem amarras, sem sutiãs . E meu tempo são as mulheres que agora optam por ficar em casa e cuidar de seus filhos, por que querem; não porque são obrigadas.

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Meu tempo são as desestruturadas calças boca de sino, e as secas multicoloridas skinnys .

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Meu tempo são as aconchegantes receitas caseiras que curam todos os males, prescritas por nossas queridas vovós, e as incômodas e supermodernas ultra-sonografias.

Nosso tempo é o do fotógrafo musical Bob Gruen, que com sua mágica câmera, ainda jovem, registrou a história dos Rolling Stones e hoje, septuagenário, registra shows do Greenday.

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Como este fotógrafo, devemos soltar nossas âncoras de êxitos e fracassos passados, e viver o momento

Devemos ser atores protagonistas de nossas vidas até os créditos finais aparecerem.
Então, por que nos reduzirmos a determinada época de nossas vidas, colocando-a em um super pedestal ao rotulá-la de "MEU TEMPO"?

No meu tempo, Nada era melhor.

Porque o meu tempo é agora !



Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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