a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Perdas e ganhos de assistir ao espetáculo "Simplesmente eu, Clarice Lispector"

Ninguém que adore a escrita de Clarice sairá incólume deste espetáculo. Você, certamente, irá perder uma coisa que lhe era preciosa. O que? A Clarice que havia dentro de você. Mas se deslumbrará com as inúmeras Clarices que podem vir a existir. Inclusive dentro de você!


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Normalmente, não costumo ter vontade de escrever falando com o leitor. Não, não gosto. Só isso. Nem sei explicar o porquê… Mas para falar sobre uma obra de Clarice, nem tem como não ser assim.

Você imaginaria de outra forma?

Sim, é este tipo de reação/escrita que temos quando lemos Clarice. Ou, apenas pensamos nela. Tudo vira pessoal. Tudo da vontade de divagar. Temos a necessidade de nos comunicar de uma forma muito pessoal. De estabelecer um diálogo íntimo com o nosso interlocutor. Porém, falamos com o Outro, como se estivéssemos falando com nós mesmos. A leitura de Clarice nos conduz a um nível de introspecção absurdo; no qual, não nos damos conta da existência do Outro.

Pôxa, é claro que existem outros, que não Eu, neste mundo. Vários outros. Sabemos disso. Mas, nestas circunstâncias, todos eles são construídos de uma perspectiva extremamente egocentrada.

É, justamente, desta posição totalmente narcísica que esta peça nos arranca. Nos extrai, brutalmente!

Contudo, a extração é feita de forma carinhosa. Se fosse para descrever o espetáculo em uma única palavra, escolheria: Amor. Desde a entrada à sala, até a calorosa despedida, quando Beth Goulart presenteia sua platéia com um papo delicioso.

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O cenário é todo clean, com poucos objetos em palco. Predomina o branco, tanto na decoração, quanto nas cortinas, que compõem o fundo do palco, e que são aproveitadas em algumas cenas; para projeção de um vídeo, por exemplo.

A sensação que se tem é a de que estamos entrando na casa de alguém, que estava nos aguardando e que fica feliz com a nossa chegada.

Antes do início, entra a voz do locutor, que lê a ficha técnica toda da peça. Para o amante do teatro, este "singelo detalhe " faz toda a diferença. Não somente porque os espectadores nerds teatrais saciam sua fome de informações sobre quem fez o que, mas porque neste exato instante temos a certeza de que estamos adentrando um "ESPETÁCULO" teatral, não um mero show de celebridades.

Pois, todos sabemos que o verdadeiro teatro repousa na participação de todos os profissionais envolvidos.
No caso em questão, uma ficha técnica de causar arrepios, com diversos profissionais magníficos, como Maneco Quinderé (Iluminação), Beth Filipecki (Figurino) e a própria Beth Goulart na direção.

Agora, devo descrever o encontro fatal. Sim, uma fatalidade ocorrerá! Se você não tem coragem de assassinar imagens estagnadas em sua mente, aconselho que não vá! Não assista a esta peça! É um espetáculo que irá exigir de você alta dose de resiliência. Você será forçado a abrir mão daquela Clarice tão adorada que está dentro de você.

Lispector é uma escritora que provoca sensações bastante peculiares. Talvez, nenhum outro autor tenha conseguido despertar sentimentos tão profundos em seus leitores como ela. Ao lermos sua obras , não ficamos tentando imaginar como são seus personagens. Não, isto não passa pela cabeça de ninguém! Definitivamente, não!
Nós nos tornamos seus personagens.

Cada trecho que lemos mexe tanto com nosso ser, que identificamos partes de nossa entranhas que estavam ali, adormecidas, e que aquelas palavras fazem emergir. Seus textos conseguem prantear o choro que tínhamos sufocado; vocalizar o amor, quando ainda nem o tínhamos reconhecido dentro de nós; nos fazem ser algo que não sabíamos que éramos, que descobrimos por meio do contato com suas verdades.

O choque que sofremos quando assistimos a esta montagem é, na verdade, o de realizarmos que aquelas palavras, e a enxurrada de sentimentos ensimesmados que provocam, podem ganhar uma forma. E esta forma é diferente da que nós supúnhamos. Não porque é uma Clarice incorporada por Beth Goulart. Mas porque agora vemos as palavras em alguém distinto de nós.


Entrevista de Clarice Lispector, ao Programa Panorama, da Tv Cultura, em 01/02/1977.


Na verdade, quem já teve a oportunidade de ver imagens da própria Clarice já se surpreendeu. Já a renegou ! Já protestou com toda a energia: "Pôxa, mas esta não é a Clarice , a Joana, a Macabéa, a G.H …!!! "

E vou lhe dizer como eu interpreto este estranhamento. Primeiro, pelo fato de ela ser bastante diferente do que grande parte dos leitores em geral imaginam.

Clarice era uma mulher bem mais simples do que eu supunha. Sempre a fantasiava uma mulher chique e um pouco afetada (com uma escrita tão sofisticada; estrangeira; casada com um diplomata…) Imaginava-a como uma daquelas personagens super inteligentes e neuróticas do Woody Allen, que falam 350 mil palavras por minuto. Prolixas.

A primeira vez que assisti a sua entrevista, foi uma surpresa. Meu mundo caiu diante daquela IMPOSTORA ! Como podia Clarice se fazer passar pela "Minha Clarice" !?

Mas ela é simples. Com uma fala pausada. É concisa.

Segundo, porque nossas fantasias ganham formas. Assim, nosso choque primeiro é deparamos com a materialização da própria Clarice. Só que uma Clarice diferente da nossa fantasia. Que não podemos esculpir, de acordo com os nossos desejos. Ela tem vida.

Interpretada por Beth Goulart, ela é a sua invenção.

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O monólogo de Beth Goulart é composto por dois grupos de narrativas que se intercalam: em alguns trechos, ela faz o papel de Clarice, em outros, desempenha personagens criadas pela escritora. Em ambos os casos, representa com perfeição. Ela é uma destas atrizes que realmente honram a sua linhagem. Tem o Teatro correndo em suas veias. Destas raras hoje em dia, que conquistaram seu espaço e brilham muito além dos 15 minutos de Warhol.

E nós notamos isto nos mínimos detalhes com os quais ela compõe seus papéis e nos diversos mimos que ela oferece a seu público. Trata a sua profissão e o seu público com um respeito e um carinho comoventes.

Ela é uma atriz genial, com vasto repertório de recursos dramáticos. Muda de um papel para o outro, em plena cena. Na frente da plateia, inventa e reinventa várias Clarices; dá forma àquelas vozes que existiam em nossas mentes !

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Neste aspecto, temos de fazer uma menção ao inteligente e requintado figurino de Beth Filipeck, que marca a troca de personagens de uma forma muito leve, ágil, com roupas lindas. Vale mencionar também a iluminação de Quinderé, que não apenas compõe o clima das cenas, como também incide no rosto da atriz, transformando-o como instrumento complementar à maquiagem, contribuindo para que as feições de Beth fiquem muito parecidas às de Clarice.

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No final do espetáculo, a atriz presenteia o público com um lindo discurso, no qual fala sobre Clarice, sobre a importância do público. Sobre como é importante a Arte desempenhar um papel ético na sociedade.

Nossa! Nossa! Nossa! Foi aí que percebi que, se muito angustiada no início por ver as Minhas Clarices esvaírem-se pelos gestos de Beth Goulart, ao final, fiquei deslumbrada por constatar a força dos textos de Clarice. Ver que, mesmo frequentemente repletos de angústias e dúvidas, eles conseguem se multiplicar em várias formas de amor !

E amor é conseguir enxergar o Outro ! É diversidade ! Somente mediante o encontro com as diferenças dos outros, é que nós saímos do nosso mundinho, e crescemos. Assim, salve as Clarices de Goulart, que nos mostram diferentes facetas dessa escritora tão talentosa e cheia de nuances.

Aos leitores, eu aconselho: "Rendam-se, como eu me rendi ! "

Rendam-se, como a temível primeira dama da crítica teatral, Barbara Heliodora, se rendeu! Em suas palavras:

"A fim de alcançar seu objetivo, Beth Goulart não só costurou com muita habilidade os depoimentos e as citações, compondo uma espécie de ampla revelação de vida e processo criativo, como trabalhou, com visagismo e figurinos, a figurada escritora, seu porte e seu gestual (elaborados por Márcia Rubin). Mais ainda, foi adotado o pessoal modo de falar de Clarice, justificando plenamente assim o título do espetáculo. A seleção dos textos literários foi cuidadosa, toda ela pensada em termos desse objetivo de dar vida à imagem da escritora, com atenção para aqueles que melhor parecem ilustrar o que ela diz de sua obra quando fala em sua própria pessoa. Um trabalho exemplar. "
(Trecho crítica da Bárbara Heliodora, publicada em O Globo, 19 de junho de 2013)

Obrigada à Beth Goulart e à sua equipe maravilhosa por desconstruírem "minha Clarice" e sua onipotência!

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Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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