a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Reflexões sobre a paternidade na música: Cat Stevens, Johnny Cash, Harry Chapin, CSN & Young e Volbeat

Da melódica canção folk rock Cat´s in the Cradle (uma contundente advertência sobre a necessidade de uma boa paternagem ), de Harry Chapin, ao dilacerante urro de rock pesado Fallen (uma das mais belas e doloridas declarações de amor filial), da banda Volbeat, este texto selecionou quatro músicas que falam sobre as dores e delícias das relações entre pais e filhos.


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Foto: Leon Levinstein

Ao longo da história, o papel de principal cuidador e educador dos filhos foi primordialmente conferido às mulheres. As relações entre pais e filhos, foram durante muito tempo, relegadas a segundo plano, consideradas de menor importância para a formação das crianças.

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Este artigo fala sobre quatro canções (compostas e cantadas por homens) que propõem interessantes reflexões sobre o relacionamento entre pais e filhos. Enquanto as primeiras mostram um momento de virada, na qual houve profundas transformações nos papéis sociais de gênero, a última já se insere no momento atual, no qual é amplamente reconhecida a necessidade - e a vontade - de maior participação dos pais na vida de seus filhos.

As três primeira músicas foram lançadas na década de 1970, em um contexto de revolução sociocultural, no qual os papéis sociais foram profundamente questionados. Fazem parte do fortalecimento de um movimento social que buscou romper com os padrões da família tradicional, que tinha o homem como chefe de família, ao qual os filhos deviam obediência econômica e afetiva. O movimento feminista havia ganho maior peso, e o papel da mulher como dona de casa e como a principal responsável pelos cuidados diários com os filhos foi sendo reformulado. Clamou-se, então, por mudanças profundas no comportamento masculino na dinâmica familiar, por maior igualdade nas relações entre marido e mulher, pela maior envolvimento masculino na criação dos filhos.



1. Harry Chapin, Cat´s in the Cradle; Album: Veirities E Balderdash, 1974.


Cat's in the Cradle faz parte de uma tendência de canções deste período que contavam longas histórias. O curioso é que muitos acreditam que este folk rock é intepretado por Cat Stevens, devido à grande similaridade entre o estilo de música e de voz destes dois singer-songwriters. Atenção, se vocês Googlarem o título desta canção, provavelmente irão encontrar links que a reputam a Cat Stevens. Não percam seu tempo. É engano.


O início da letra foi escrito pela mulher de Chapin (em forma de poema), que se inspirou na relação distante e fria de seu primeiro marido com o pai dele. Chapin completou a letra e a musicou, dizendo que ela tinha muito a ver também com a sua própria relação com Joshua, seu filho.

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Harry Chapin e Joshua, seu filho.

Como recurso para ilustrar seus pontos de vista, a letra utiliza diálogos entre seus personagens principais (refletindo a grande importância que os grupos sociais alternativos passaram a conferir às trocas interpessoais como instrumento de transformação dos relacionamentos). Tecendo crítica apurada ao papel masculino na família, narra o relacionamento entre um pai assoberbado com trabalho e afazeres e o filho, que vive lhe pedindo atenção e carinho. Pintando, com sua letra cruel, um quadro realista, retrata, com maestria, a típica ausência física e afetiva dos pais daquela época, ao longo do crescimento dos filhos.

A letra adota dois refrãos como fio condutor, os quais são repetidos sempre que o pai se recusa a interagir com o filho. Enumerando seus compromissos, o pai diz que não tem tempo para o filho, mas que depois, quando estiver livre, se divertirá com ele.

O menino, por sua vez, deslumbrado com a forte e inacessível figura paterna, sempre repete que, quando crescer, será igual ao pai.

Com o passar do tempo, a situação se inverte: o pai passa a solicitar a atenção do filho. O filho, entrando na fase adulta, incorpora o papel de homem mais velho, colocando os relacionamentos familiares em segundo plano, dando prioridade às atividades sociais, externas à família, ao ¨mundo dos homens maduros¨.

E, no final da canção, é o pai quem constata que o filho cumpriu o que profetizava desde pequeno: refeltindo, com perfeição, a imagem fria e distante do pai. Ele afirma " meu garoto cresceu extamente como eu" .

Brilhantemente, esta canção serve de alerta para triste reprodução de padrões familiares perversos. A este respeito, Chapin comentou que: ¨esta canção me apavora¨!

2. Cat Stevens, Father and Son. Album: Tea for the Tillerman, 1970.

Esta canção, sim, foi composta e interpretada por Cat Stevens.

Como a anterior, a letra é estruturada em um diálogo direto entre pai e filho. Ambas as vozes são feitas pelo cantor, que usa tom mais grave quando faz a voz paterna. Conferindo, assim, peso e autoridade adicional ao personagem do pai.

Foi escrita para fazer parte de um musical intitulado Revolussia, que acabou não sendo concluído. Esse musical inacabado tinha como tema o desejo de um jovem de lutar em uma revolução, e o pai, por sua vez, o aconselhava a desistir.

No contexto geral, esta música ilustrou a contestação geracional característica de uma época em que os jovens eram fortemente oprimidos pelas gerações mais velhas.

Apesar de a música adotar um tom sereno, sem escalar para um conflito explícito, as acusações do filho deixam transparecer sua revolta quanto ao tratamento autoritário que era dispensado aos jovens naquele contexto. Como no trecho em que diz:
¨Como posso tentar explicar, se quando tento, ele vai embora novamente, e é sempre, a mesma velha história¨.

Arremata com a mais forte e sútil crítica realizada nesta letra, a qual explicita a extrema opressão que os mais velhos exerciam sobre os mais novos à época, dizendo : ¨desde quando eu aprendi a falar, me mandaram escutar¨.

Em entrevista à Revista Rolling Stones, o cantor disse que seu pai não era autoritário, mas que seu avô, sim. Este detalhe talvez explique o fato do tom do Pai na canção ser compreensivo e conciliador . Porém, as respostas revoltadas do filho são dirigidas às vozes de diversas gerações opressoras de antepassados, que "se expressavam" por meio de seu pai.



3. Johnny Cash e Rosie Nix Adams
, enteada dele, em sua comovente versão (de Father and Son), Father and Daughter .

Apesar de ser uma versão da anterior, achei interessante mostrar esta canção, pois este tema universal cativa a todos, e é muito significante que Cash tenha escolhido justamente a sua enteada como parceira nesta música. Além disso, esta releitura da música é linda e, como quase todas as canções interpretadas por este genial cantor country, conhecido no meio musical como ¨God¨, merece ser ouvida.




4. Crosby, Still, Nash and Young - Teach Your Children. Album: Déjà Vu, 1970.

Composta por John Nash. Ao contrário das duas anteriores, dirige-se igualmente às mães. Nela, adultos e crianças são humanizados, com direito a medos e coragem. Em um contexto de vários conflitos internacionais, assume a forma de manifesto à paz.

Faz uma apologia a um relacionamento construtivo entre pais e filhos, sem autoritarismo; mais liberal, com maior amor e respeito.

Além disto, ressalta, com grande sensibilidade, o lado dinâmico do relacionamento entre pais e filhos, no qual, um influencia e é influenciado pelo outro.

Ensina como a construção de uma relação positiva entre eles pode, até mesmo, contribuir para dissipar os demônios passados dos pais, ajudando-os a superar os traumas de sua infancia.

Com um pensamento de grande sabedoria, mostra como se pode mudar o passado, com o amor presente; interrompendo-se, assim, a transmissão de "maldições" familiares ao longo de várias gerações. Em um de seus trechos de maior beleza, ela aconselha :
¨ torne-se em você mesmo, pois o passado, é somente um Adeus.¨

5. Volbeat, Fallen. Album: Beyond Hell, Above Heaven, 2010.

Mas é no novo milênio que uma das mais belas letras de amor entre pai e filho foi composta, nada mais, nada menos, do que por uma banda dinamarquesa de rock pesado, a Volbeat. Tendo como compositor e cantor Michael Poulsen, um rockeiro coberto de tatuagens. Contrariando, assim, o antigo preconceito de que o rock é um estilo musical marginal, degenerado (como diria Frank Sinatra), Paulsen faz uma ode à importância do relacionamento Pai-e-filho.

Mudou o relacionamento entre pais e filhos. Mudou a música. Mudou o mundo. Mas fiquem de olhos e ouvidos abertos. A banda Volbeat chegou para ficar.


Com uma das vozes mais marcantes do heavy metal atual (muito grave e muito doce, ao mesmo tempo), Michael Poulsen, frontman e principal compositor da banda, compôs Fallen em homenagem ao pai, morto. Nela, urra a lacerante dor de sua perda, gritando:

"Ouça-me gritar, veja-me sangrar, porque os dias não são mais os mesmos sem você.¨


Enaltece a força que o pai lhe transmitiu, mostrando que a altivez paterna, quando transmitida com amor, é essencial para o desenvolvimento da criança.

Expressando sensatez e agradecimento, o filho diz:

"Obeservando-me com olhos de águia, você me deu liberdade para uma vida, na qual os sonhos nascem e se tornam verdadeiramente reais.¨

E , sim, é justamente uma banda de um gênero musical - rock pesado - considerado, até recentemente, como ¨marginal e transgressor¨, que nos oferece uma das melhores sínteses de como pode ser construída uma relação saudável de amor paterno: por meio do equilíbrio entre a imposição de limites e a concessão de liberdade.

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Michael Poulsen , frontman e principal compositor da Volbeat.

Um equilíbrio dificílimo de ser alcançado, porém, muito enriquecedor para o crescimento de uma criança.

Não consigo pensar em nada mais bonito que possamos desejar a um filho, do que ele ter liberdade e sabedoria para escolher sonhos que consiga concretizar. O Amor incentiva os filhos a sonharem. Os limites transmitem a confiança e a consciência necessária para que se escolha sonhos que possam ser, efetivamente, conquistados.

Sonhos delirantes, não levam a lugar nenhum. Sonhos medíocres também não. Sem o estabelecimento de parâmetros confiáveis, a criança fica à deriva. Devemos tentar transmitir a nossos filhos a segurança que reforce a sua autoconfiança e os princípios que os habilitem a fazer boas escolhas em suas vidas. E esta é a comovente dica sobre criação de filhos que Poulsen vigorosamente nos urra, em Fallen.

Nada mais mais transgressor do que um bom relacionamento entre pais e filhos; nada mais Rock & Roll !


Eduarda Amaral

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