a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Um brilho no olhar de David Bowie: sua baixista, Gail Ann Dorsey

Todos sabemos que, apesar de lidar com a Criação (uma das habilidades humanas mais sublimes), o mercado artístico é muito competitivo e repleto de culto a Egos inflados. Neste contexto de briga de "cachorros grandes", ter a capacidade de prestigiar outros artistas, e com eles estabelecer fortes vínculos emocionais e criativos, é um dom extraordinário, que somente poucos têm. David Bowie tinha. De sobra. Para continuar a honrar um de seus grandes amores, cito uma frase que ele repetiu com frequência ao longo dos últimos anos: "Com vocês, a adorável, Gail Ann Dorsey!"


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Que o Camaleão tinha (a conjugação do verbo no pretérito perfeito é como um soco no estômago) inúmeras qualidades musicais e pessoais, todos já sabemos. Mas a generosidade com a qual era capaz de tratar um músico em palco, cedendo-lhe o papel de estrela principal (mesmo que desconhecido por muitos), é digna de reverência. Somente grandes músicos se permitem homenagear dessa forma membros de sua banda. Para ter atitudes assim, o frontman tem de se garantir. Tem de ser seguro do seu talento. E tem, também, de ter muita segurança no musicista que ele está prestigiando em cena.

Para o bom observador, o olhar de Bowie para Gail Ann era a maior prova de admiração que poderia dar. Todos sabemos que a forma pela qual olhamos para as coisas e as pessoas dizem muito sobre nós mesmo e sobre a quem se está olhando. Em uma época que clama por demonstrações de amor superlativas, a maior prova de confiança no talento de sua baixista que Bowie poderia dar era a doce e apaixonada (amor de amigos, parceiros) olhada que, volta e meia, ele lhe lançava.

Foi ao assistir a uma destas apresentações de Bowie , que conheci e me encantei por Gail Ann. Apaixonada por Under Pressure, (canção composta e interpretada por Fred Mercury e Bowie), eu adorava a versão que Bowie cantava com Annie Lennox.

Porém, quando deparei com a versão na qual ele divide os microfones com Gail Ann, "um trem me atropelou" ! Fiquei completamente extasiada com os seus encantos:


1. A voz dela é impressionantemente bela; com ampla extensão vocal, que sustenta tons mais agudos de forma límpida, sem o menor sinal de cansaço ou dificuldade;
2. Ela é linda;
3. Acertadamente, Gail não tentou imitar a forma como Freddie Mercury cantava, dando a sua própria contribuição à versão da musica ;
4. É uma excelente baixista;
5. Ela é um charme;
6. A química entre Bowie e Dorsey é fascinante;
7. E será que eu já mencionei que ela é linda e charmosa ?

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Gail Ann nasceu em 1962, no estado da Philadelphia, Estados Unidos.

Em diversas entrevistas, afirma que cantar é sua forma de expressão musical favorita, mas que a guitarra, que toca desde os nove anos de idades é seu instrumento de coração. Ela é autodidata, aprendeu a tocar sozinha, pois sua família não tinha meios para pagar aulas de música. A escolha pelo baixo acabou se dando em função tanto da equação demanda/oferta de baixistas para tocar em bandas quanto pela facilidade com que conseguiu se aprimorar e se destacar neste instrumento. Quando tinha quatorze anos, estava procurando trabalho de guitarrista, mas todas as bandas precisavam de baixista ou baterista, que eram mais raros. Assim, ela pegou um baixo emprestado e começou a tocar. O baixista que mais a influenciou foi Nathan East, um dos mais reconhecidos músicos deste instrumento hoje

Ao longo dos anos, ela tem atuado em três carreiras paralelas na música: compositora, baixista e cantora.

Como baixista, tocou com bandas e artistas famosos tais como Gang Of Four, Louise Goffin, Tears For Fears, The The, The Indigo Girls, a diva vocal Joan Osborne, The B-52s, Michael Hutchence do INXS, Lenny Kravitz , Gwen Stefani e Suzanne Vega. Em vários destes trabalhos, não apenas tocou baixo, mas também cantou como segunda voz ou back vocal.

Sua Parceria com Bowie

Foi em 1995, que o cantor a convidou para tocar em sua banda, na Outside Tour. Ao longo dos anos, vimos inúmeras demonstrações de cumplicidade entre os dois.

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Abraçados, de lado um para o outro, de costas... a cumplicidade era evidente. E Bowie, frequentemente, buscava Gail Ann para um chamêgo no meio do show; mesmo que fosse apenas com um olhar.

Ao contrário de alguns frontmans que preferem brilhar sozinhos no placo, Bowie era generoso e gostava de estabelecer cumplicidade com alguns de seus músicos; dando destaque para eles durante as suas apresentações. Escolhia músicos de qualidade, e sabia valorizá-los.

Esta sua característica de formar laços em pleno palco, já era evidente nos primórdios de sua carreira, quando, por exemplo, tocava com o guitarrista Mick Ronson. Nas apresentações de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, os dois músicos não apenas mostravam forte cumplicidade, como também usavam sua parceria em palco para chocar o publico e promover o álbum, quando Bowie fingia se masturbar na guitarra de Ronson. Era o espetáculo de Bowie na transgressora década de 1970. Afora possíveis intenções mais ligadas ao marketing do showbusiness e a representação de cena, a cumplicidade dos dois era óbvia .

https://www.youtube.com/watch?v=kSmcvGtuWdI

A relação de Bowie com Gail Ann não apenas deixava transparecer sua generosidade, seu desejo de dar destaque para uma musicista em quem ele acreditava, como também parecia que, em certos momentos, recorria a ela em busca de conforto. Sabendo dos problemas de saúde que ele enfrentou ao longo dos últimos anos, a impressão de uma certa fragilidade que eu tinha, parece fazer sentido. Eu tinha a sensação de que, em certos momentos, Gail era seu "porto seguro" no palco.

Em sua carreira como cantora , Gail Ann lançou três álbuns:

1. The Corporate World (1988)

Suas canções tem uma vertente contestatória, falam sobre vários problemas atuais, como destruição ambiental e proliferação de armas nucleares.



2. Rude Blue ( 1992)

Este segundo album traz repertório mais pop , com letras que falam de amor e outros temas cotidianos.

3. I used to be (2004)

Neste álbum, Gail mantém uma linha mais pop, brincando com os sons e mostra todo o seu talento como compositora. As letras são geniais.

E para fechar este artigo, nada melhor do que nos juntarmos à Gail Ann em seu agradecimento a Bowie, quando ele completou 69 anos, dias antes de sua morte, por tudo que este incrível artista transmitiu a várias gerações.

"David, you will always shine like the brightest star, no matter what colour the sky...
Wishing a most spectacular 69th birthday to the man who fell into my life and changed it forever...
With Love, Respect, and Eternal Gratitude..."

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Imagem e foto postada por Gail Ann em seu perfil de Facebook.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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