a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Você é capaz de responder, sem maniqueísmos, o que é o Snowden - Herói ou traidor ?

Apesar do título propor uma pergunta ao público, Stone impõe ao roteiro um ponto de vista que justifica somente uma interpretação de Snowden: um jovem prodígio, que supostamente vê seus ideais serem massacrados pela cruel Ética de Estado, a qual justifica ações nefastas em benefício de um bem–comum. E, é neste aspecto, que o filme se torna mais uma estória de heróis naive, para agradar ao senso comum, do que uma obra que visa a refletir, de fato, acerca dos serviços de inteligência dos Estados, seus prós e contras.



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Até onde o Estado pode agir para garantir a segurança (em um mundo repleto de ameaças reais e imaginárias) e a prosperidade de seus cidadãos (em um mundo regido pela competição em diferentes âmbitos) ? Podem os interesses do Estado suplantar o interesses dos cidadãos ? Podem os Estados prescindir de serviços de inteligência ?

A trama de Snowden - Herói ou Traidor induz o telespectador mais atento a duas reflexões básicas, que convergem para o mesmo questionamento: até onde os Estados têm o direito de intervir , de violar os direitos básicos dos cidadãos , em nome da manutenção da liderança, da segurança e do bem-estar social ?

No fim da sessão, ficamos tentados a condenar, de forma veemente, os sistemas de inteligência do Estado. Afinal de contas, quem é que gosta de ser vigiado e manipulado?

Gostamos de acreditar que somos livres. Gostamos de acreditar que temos o direito de escolher nossos destinos. Gostamos de acreditar que temos direito à nossa privacidade. Mas também gostamos de acreditar que vivemos em um lugar seguro, no qual uma organização maior nos garante estes direitos. Que este ente, que denominamos de Estado, zela para que a interação entre os indivíduos sob sua tutela ocorra da forma mais harmoniosa e cooperativa possível.

Gostamos de acreditar que estas coisas nos são garantidas mediante um preço que é por nós conhecido e aceito.

Pagamos nossos tributos. Respeitamos às leis. Isto deveria ser o suficiente, não ?

Esses são os custos que o cidadão comum acha que paga para o seu bem-estar e para a harmonia social.
Mas e se lhe disserem que isto não é o suficiente?
Que o Estado necessita de mais do que a sua cooperação financeira e Legal ?

É, justamente, desta ilusão que o filme nos arranca. Ele desfaz o matrix do Estado moral e ético. Mostra que, mesmo em situações que deveriam ser conduzidas pela harmonia e cooperação, há forte intervenção e vigilância dos órgãos de inteligência e de polícia do Estado. O binômio vigilância e controle adotado pelas agências de inteligência utilizado para garantir a SUA SEGURANÇA é também amplamente empregado em solo domestico. Descobrir que os estadunidenses também são amplamente vigiados é algo que deixa Snowden muito chocado.

Com um estilo menos pesado do que alguns de seus outros filmes (como Platoon e Nascido em Quatro de Julho), o novo longa de Oliver Stone conta a estória verídica de Edward Snowden, um estadunidense patriota, que impossibilitado de trabalhar no serviço militar, devido a um acidente sofrido, acaba indo trabalhar na Central de Inteligência dos Estados Unidos. Autodidata em TI, logo evidencia suas habilidades excepcionais neste ramo e ganha a confiança de suas chefias. Teve a oportunidade de trabalhar em diversos projetos especiais, em locais distintos, como, por exemplo, Genebra e Hawaii.

Apesar do título propor uma pergunta ao público, Stone impõe ao roteiro um ponto de vista que justifica somente o lado de Snowden: o jovem prodígio, que vê seus ideais serem massacrados pela cruel Ética de Estado, a qual justifica ações nefastas em benefício de um bem –comum. E, é neste aspecto, que o filme se torna mais uma estória de heróis adolescentes ou para agradar o senso comum, do que uma obra que visa a refletir, de fato, acerca dos serviços de inteligência dos Estados, seus prós e contras.

A caracterização de Snowden como um jovem em conflito com o que vê é um pouco naive. Após trabalhar muitos anos nesse ramo, ele parece ainda surpreso com o que presencia; como se fosse um novato. Qualquer pessoa que tenha tido o mínimo de contato com temas e atividades afeitas a Serviços de Inteligência sabe que eles seguem uma ótica e uma moral distintas. Qualquer um sabe que um semestre trabalhando em um órgão de Inteligência é suficiente para entender como ele funciona; para ver que o Serviço de inteligência constitui um Poder paralelo ao do Estado.

O filme peca por não mostrar os profundos e paradoxais dilemas envolvidos nas atividades de Inteligência. Atividade considerada essencial à segurança dos Estados, os serviços de inteligência devem atuar em áreas que são, em geral, consideradas às margens da Lei. Seus agentes não são escolhidos de forma democrática. Visam, grosso modo, a assegurar a segurança do Estado e garantir sua competitividade no cenário internacional.

No mundo ideal, estes serviços deveriam ser realizados de acordo com preceitos éticos e morais. Mas, infelizmente, ao longo da história, muitos desvios de condutas leves e gravíssimos foram cometidos com o intuito de defender os interesses dos Estados. Não é necessário ser um expert para saber disso. A indústria do entretenimento oferece diversos exemplos fictícios de como funcionam as atividades de inteligência.

A tradicional franquia 007, mostra o espião de uma forma glamourizada. Como uma atividade cool . O público acaba digerindo a espionagem como uma forma de entretenimento. Mas se pararmos para refletir, podemos observar o número de violações dos direitos humanos, de violência e de comportamentos imorais que são praticados pelos agentes do fictício Serviço Secreto inglês, no caso.

Já a atual série de tv The Americans tem como trama principal a vida de um casal de espiões russos de operações, que vivem disfarçados de estadunidenses, em solo americano. Para manter a sua "cobertura" o mais verídica possível, eles chegam mesmo a ter filhos. Tendo o contexto de Guerra Fria como pano de fundo, esta série nos mostra todo o lado mais obscuro das atividades de inteligência, tanto russo quanto estadunidense.


O roteiro de Stone também peca em não ressaltar o trauma sofrido pelos serviços secretos dos EUA, por não terem conseguido prever os ataques terroristas de 2001. Como salientam alguns analistas internacionais, os serviços de inteligência estadunidenses não haviam se preparado para o mundo pós-Guerra Fria. Não haviam muitos experts da Inteligência, por exemplo, especialistas em Oriente Médio, capazes de entender a importância que aquela região e o seu povo representavam. Assim, no contexto pós atentados de 9/11 retratado neste longa, os serviços de inteligência estadunidenses encontravam-se impelidos a investir maciçamente em aprimorar não apenas seu pessoal como também sua tecnologia de vigilância e espionagem.

Como nos mostram os estudos dos serviços de inteligência, a espionagem tem sido uma constante ao longo da História. Os meios de controle e de monitoramento da sociedade é que divergem de acordo com os recursos financeiros, tecnológicos e de pessoal de cada Estado. Até hoje, não tive o conhecimento de nenhum serviço de inteligência que paute as suas atividades em respeito às regras democráticas. Até mesmo porque, dado à necessidade de sigilo intrínseca às suas atividades, eles se caracterizam mais como órgãos de atuação nebulosa, do que como exemplos de transparência.

Um fator inegavelmente diferencial retratado no filme são os avanços tecnológicos demonstrados. A Internet tem possibilitado um grau de vigilância dos indivíduos jamais imaginado. E este fato é realmente assustador.

Outro aspecto a ser avaliado quando nos aventuramos a responder a pergunta proposta pelo tema é como uma pessoa, tão incomodada com a vigilância de cidadãos, se contenta em viver na Rússia, país que, assim como os EUA, possui grande tradição em espionagem e em violação dos direitos individuais, com a justificativa de produzir “inteligência”. Fico intrigada em saber como reagiria o governo russo em relação a um agente de sua inteligência que resolvesse "abrir o bico " ? Seria ele perdoado? Teria ele o mesmo tratamento que o Snowden - "delator" estadunidense- recebeu do governo russo ?

Neste ponto, vale retomar a indagação inicial e nos questionarmos até onde o Estado pode intervir na vida das pessoas, violando seus direitos individuais, em nome da defesa e da segurança. Em um mundo no qual as ameaças à segurança são difusas, será que os Estados Unidos realizou atividades que outros Estados já não fazem?

Com isso, não pretendo aqui exculpar a odiosa vigilância retratada no filme. Pretendo, apenas, apontar para a zona cinzenta que permeia as ações de inteligência, na qual é muito difícil se distinguir entre vilões e heróis. Certamente, as razões e objetivos que pautaram tanto o serviço de inteligência estadunidense como o comportamento de Snowden são muito mais complexos do que o filme retrata.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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