a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema

Moonlight: a premiação da sutileza no amor

Em forma de um pequeno grande conto (passa tão rápido que nem sentimos sua duração de quase duas horas), Moonlight fala sobre temas sociais complexos de forma honesta e sutil, sem preconceitos. Com grande sensibilidade, mostra uma das cenas mais belas de amor entre homossexuais, sem recorrer a clichets ou sem dotá-la de caráter panfletário. Apenas, tudo isto, dois seres humanos que se amam.


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Quem vai assistir ao longa-metragem vencedor do Oscar deste ano de 2017 buscando ver um cinemão talvez saia decepcionado. Ao contrário de La La Land (queridinho de muitos para receber a estatueta), que celebrava os excessos cinematográficos - com atuações exageradas, cenários grandiosos e figurinos elaborados - ele aposta em cenas econômicas. Apesar de tratar de assuntos polêmicos, Moonlight é um filme aparentemente simples. Muito simples. Porém, reparem bem que o uso do advérbio “aparentemente” não constitui uma decoração nesta frase. As aparências, no caso deste drama, de fato, enganam.

Segundo filme de Barry Jenkins, foi adaptado da peça teatral Moonlight Black Boys Look Blue, de autoria de Tarell Alvin McCraney. Em sua trama, McCraney usa suas próprias memórias e experiências como adolescente homossexual,que teve de ir construindo sua identidade sexual em uma vizinhança violenta.

Apesar de ser dividido em três fases, interpretadas por atores diferentes, algumas características presentes permeiam e conduzem a narrativa como um todo. Em primeiro lugar, a trama está sempre colocando o desenvolvimento do sujeito dentro do meio imediato que o cerca. E aí podemos vislumbrar também uma feliz escolha de Jenkins por não fazer um filme no estilo “show and tell”, explicadinho. Por meio de imagens sutis, sem excessos de diálogos ou contextos explicativos, a densidade das situações é transmitida.

É uma experiência, por vezes, bastante sensorial. Em uma cena de relação de intimidade sexual ocorrida em uma praia, por exemplo, em vez de mostrar partes explicitas do corpo, ele mostra o prazer sexual por meio do contato da mão do personagem com a areia.

Em segundo lugar, apesar das mudanças ocorridas ao longo de sua vida, Chiron parece preservar uma doçura que é inerente à sua personalidade como, também, uma busca constante por uma identidade íntegra, apesar das concessões que acaba fazendo ao longo de sua trajetória.

O seu relacionamento com personagens com quem mantém intensa troca de afeto também é outra constante ao longo da narrativa. Nessas relações, podemos ver a importância das pessoas amadas em sua vida, de como, em determinado momento, elas desempenham papel fundamental em seu crescimento.

O primeiro ato denominado “Little”, é interpretado pelo ótimo ator mirim Alex Hibbert. Nele, é mostrada um recorte de sua infância a partir do encontro com o traficante Juan, que se encanta com o pequeno e calado menino. Uma amizade se desenvolve entre os dois. Este relacionamento de carinho nos mostra como a vida pode ser repleta de situações paradoxais. O mesmo marginal que vende drogas para a mãe de Little, o protege contra os maltratos e abandono aos quais ela submete o menino.

Nesta fase, tem uma belíssima cena na qual Juan ensina Little a boiar, incentivando o desenvolvimento da confiança do menino nele. Uma cena eivada de simbolismos, que muito nos faz lembrar A Árvore da Vida, de Terrence Malick.

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A questão da homossexualidade do personagem principal já aparece nesta fase. Interessante que o questionamento a respeito da opção sexual de Chiron se dá, primeiramente, por parte de sua mãe e do meio que o cerca. Antes mesmo de ele se reconhecer como um "homem que gosta de homens", as pessoas de seu convívio o discriminam pelo fato de ele não ter um comportamento igual aos demais meninos.

O segundo ato, o qual aborda um período de sua adolescência, é o único que recebe, de fato, o nome do personagem. É quando as grandes questões de sua existência ganham contornos mais fortes, levando a um maior autoconhecimento.
Nesta idade, o Ashton Senders interpreta o personagem principal, deixando transparecer toda a complexidade de uma personalidade profundamente delicada e forte, ao mesmo tempo.

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Após a morte do traficante Juan, que havia se tornado o seu protetor, Chiron vê seus problemas com a mãe crescerem. A perseguição na escola também cresce. O amor entre ele e o colega de infância Kevin adquire víeis sexual.

São as grandes transformações da adolescência.

Chiron mostra, então, que ele é o protagonista de sua vida, não apenas uma criança vulnerável negligenciada pela mãe adicta. Cabe mencionar que apesar de Juan ter morrido, sua mulher, Teresa (interpretada pela talentosa atriz, cantora e compositora Janelle Monáe), continua ajudando Chiron, e desempenhando importante alicerce de segurança e amor em sua vida.

O último ato mostra o personagem principal já adulto, na casa dos trinta, e é intitulado “ Black”.

Após passar um tempo na prisão, Chiron, que é então encarnado pelo atlético Trevante Rhodes, apresenta profunda modificação corporal, na qual ele ganha massa muscular, e aparece muito mais forte. Para completar sua imagem de durão, ele ainda usa uma dentadura dourada capeando os dentes. Está formada, dessa forma, a carapaça que passa a lhe defender do mundo.

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A trama deste bloco de encerramento gira em torno do reencontro de Black com o seu passado. Nele, é mostrada toda a beleza deste enredo e a maestria de Jenkins na construção da personalidade de seu personagem principal.

Outro nome para este capítulo poderia ser “reencontros com o passado”. De uma perspectiva extremamente realista,o personagem principal se reaproxima das duas pessoas chaves em sua vida (sua mãe e Kevin) que o haviam machucado no passado. E, neste aspecto, mais uma vez, podemos perceber o aspecto extremamente humano do filme. Não seria mais coerente ele se afastar destas pessoas. Ou, nutrir sentimentos ruins em relação a elas? Penso que não. Ele conhecia o seu meio. Sabia como as pessoas atuavam nele, os problemas que elas enfrentavam. Ele mesmo não havia se tornado nenhum santo. Assim, a aceitação dos defeitos alheios ao invés de demonstrar um lado raso deste enredo, mostra seu lado humano. Desmasiadamente, humano.

São as cenas finais deste longa que nos presenteiam com uma das interpretações amorosas mais lindas já vistas no cinema. É quando Chiron reencontra Kevin, a quem não via a aproximadamente uma década, que se mostra toda a integridade do amor deste personagem.

Apesar da enorme diferença física entre este ator e o esquálido Chiron adolescente, o olhar apaixonado do personagem para Kevin continua o mesmo. Se, nestas cenas, fôssemos nos focar apenas no que os olhos nos transmitem, diríamos que era o mesmo ator. Palmas para parceria entre Jenkins e Trevante Rhodes, que conseguem explorar com sutileza e força, ao mesmo tempo, as diferenças e as igualdades entre as duas fases do personagem/dos dois atores.

Este detalhe aparentemente insignificante do olhar de Rhodes nas cenas finais do longa é a marca distintiva deste filme. Ele nos mostra como se pode contar uma linda estória de amor por meio de um detalhe sutil, sem ter de se recorrer a cenas melodramáticas, ou mais tórridas. Ele nos mostra como a essência das pessoas pode ser preservada, apesar de todos os infortúnios que ela pode atravessar.

Assim como o centauro Chiron da mitologia grega, o personagem de Jenkins luta contra adversidades externas profundas e sai vitorioso, preservando o bem em si.

Um filme de Arte, destes que nos dá vontade de ver e rever, várias vezes. Mas que, certamente, irá nos causar o mesmo olhar de enamoramento em todas as ocasiões.

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Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema .
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