a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema

A fotografia relacional de Júlio Bittencourt, Parte I

Este artigo inaugura uma série de artigos que irei publicar sobre fotógrafos brasileiros . O aspecto que mais chama a atenção no trabalho de Bittencourt é a sua capacidade de brincar com a representação de suas imagens de forma complexa; não se contentando em fotografar apenas uma dimensão dos sujeitos retratados. Suas lentes parecem captar a essência daquelas pessoas. Suas fotografias, todavia, não se limitam à intimidade dos indivíduos. Elas buscam revelar a interação deles com o ambiente.


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Devido à especificidade e a complexidade dos projetos de Bittencourt, optei por dedicar dois artigos ao trabalho deste fotógrafo.

Este primeiro traz breve introdução sobre a sua carreira e um de seus projetos mais interessantes que recebeu o título de Numa janela do Edifício Prestes Maia 911.

Quem entra em contato com o trabalho de Bittencourt se surpreende com a expressividade que transmite. Suas fotos parecem contar a atmosfera que se estabelece entre as pessoas e o espaço em que vivem; e convivem. Em diversas entrevistas, ele assinala seu profundo interesse em mostrar questões/situações que normalmente não são tema de destaque. Suas fotos evidenciam a sua atração em desvelar assuntos que, geralmente, não recebem o foco da grande Mídia.

São, em geral, projetos repletos de conteúdo sociopsicológico. Interessante que as fotos de Júlio nos transmitem uma sensação que vai bem além da simples estética do comportamento humano. Elas parecem captar o cerne da relação que cada indivíduo estabelece com o seu entorno, seja em suas residências, seja em espaços públicos.

Apesar de mostrar um olhar externo sobre os indivíduos, os retratos apresentados por este fotógrafo são diferentes dos de um voyeur. Enquanto o voyeur procura espiar/retratar uma imagem externa das pessoas, Júlio parece querer entrar dentro das pessoas e mostrar como elas se sentem, se comportam. O que as move nos ambientes mais variados. Como se sentem pessoas que frequentam/habitam lugares que estão fora do foco da Mídia mainstream.

A formação dessa profunda curiosidade em pesquisar culturas e hábitos distintos certamente deve ter sido influenciada pelo fato de ele ter morado em Nova York alguns anos em sua adolescência. Nada como a Grande Maça para nos mostrar como o mundo é diverso, como os tipos humanos são complexos e variados. Nada como esta cidade para nos mostrar como a ocupação dos espaços urbanos ocorre de forma diferente, com diversas peculiaridades de acordo com o contexto socioeconomicocultural na qual este se insere. Aliás, Nova York bem que poderia se chamar a Grande Fruta do Conde, como uma analogia aos suas diversas influências/gomos.

Evidenciando os aspectos mágicos de como a Arte captura as pessoas, Júlio começou a fotografar meio por acaso, quando trabalhou na editoria de fotografia do jornal Valor Econômico, onde ele fazia de tudo. Incentivado pelos fotógrafos da equipe , começou a fotografar e foi se apaixonando por esta atividade. Convidado para trabalhar na África, morou um tempo também em Maputo, onde trabalhou na única empresa de comunicação independente a época.

A beleza poeticamente opressora do projeto Edifício Prestes Maia 911

Um dos seus projetos mais interessantes é a série de retratos que fez de moradores em suas janelas em um edifício em São Paulo, publicada no livro Numa janela do Edifício Prestes Maia 911. Neste trabalho, pode-se apreciar o “olhar bimedimensional” deste fotógrafo com toda a sua intensidade. Por um lado, ele parece buscar mostrar como aquelas pessoas retratadas sentem as suas vidas. Por outro lado, ele mostra como elas se relacionam com o mundo exterior. O resultado é uma coletânea de fotos que nos emocionam, seja pela dureza das vidas retratadas, seja bela poesia de suas imagens. Predominatemente em tons puxados para o marrom, as fotos nos encantam e nos oprimem, ao mesmo tempo.

Júlio conta que o seu interesse por janelas despertou na infância, quando morou em um prédio em São Paulo (com dois blocos de 28 andares), no qual os moradores tinham por hábito se comunicar pelas janelas.

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O cenário deste projeto é de uma intensidade sociológica profunda, a qual se encaixa perfeitamente com o intuito deste fotógrafo em mostrar situações com pouca exposição nos meios de comunicação tradicionais.

Abandonada desde o decênio de 1980, esta construção de dois blocos abriga quase 1.500 pessoas, divididas em aproximadamente 460 famílias/ 364 janelas em estado de extrema vulnerabilidade socioeconômica. É a segunda maior ocupação vertical da América Latina , apenas a Torre de David, na Venezuela, tem mais ocupantes.

É por meio de suas inúmeras janelas que Bittencourt traça um panorama da vida deste grupo de pessoas em situação de pobreza em pleno coração da cidade de São Paulo. Se a proposta deste trabalho lembra muito a do longa-metragem Edifício Master, de Eduardo Coutinho, o resultado difere substancialmente. Enquanto este último dá voz aos “seus personagens”, o projeto de Júlio dá cor às janelas, conduzindo-nos à uma viagem indutiva na vida de cada um daqueles lares e de seus habitantes.

Como ele queria mostrar a comunicação entre o lar (o íntimo) – e o exterior ( espaço social), Júlio optou por chegar o mais próximo possível de cada janela; Para isso, ele escolheu tirar fotos a partir das janelas do outro bloco. Sempre em linha reta, o que facilitaria, também, montar uma imagem do prédio todo , com suas diversas janelas. Bittencourt diz que “Fotografar do edifício adjacente permitiu-me mostrar as histórias e as relações de comunidade que sobrevoam a cacofonia e a forte densidade urbana”.

Este projeto levou dois anos e meio para ser concluído, já que o método de fotografar de janela à janela necessitava da aquiescência e da disponibilidade de horário de duas famílias ao mesmo tempo. Todas as fotos foram “dirigidas”, como salienta ele. Esse fato retira a espontaneidade e o caráter documental deste projeto ? Penso que não, dado que o fotógrafo trabalhou longo período de tempo neste complexo habitacional, no qual interagiu com os moradores, e conseguiu captar a essência e a dinâmica de interação entre mundo doméstico/mundo externo das pessoas/janelas.

Por este trabalho, Júlio recebeu diversas distinções, como o prêmios Leica Oskar Barnack 2007 (Alemanha), Portfolio Pick Review Aperture 2007 (EUA) e Fundação Conrado Wessel de Arte 2006 (Brasil).

Abaixo, reproduzo mais fotos deste edifício que fala pelas janelas. No próximo artigo sobre Júlio Bittencourt, falarei acerca de seu interessantíssimo projeto Ramos, que mostra o “ piscinão de Ramos”, no Rio de Janeiro e sobre alguns outros trabalhos deste notável e instigante fotógrafo.

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Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema .
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