a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

A Volta ao Mundo de Júlio Bittencourt, do Piscinão de Ramos ao Japão, Parte I

Inicialmente, havia me programado para dedicar dois artigos ao trabalho de Júlio Bittencourt. Porém, quando estudei melhor seu último projeto (PLETHORA), me encantei com ele, e decidi que deveria dedicar um texto somente para este trabalho, não apenas pela beleza de suas fotos, mas também pela importância de seu conteúdo.
Ramos e PLETHORA intensificam a pesquisa/produção fotográfica em temas de profunda densidade social. Cada um,do seu jeito, mostra temática contemporânea de grande importância, na qual se pode ver a relação entre o indivíduo e seu meio, de que forma os fatores externos moldam as subjetividades humanas.


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Neste projeto, Bittencourt opta por mais um tema social alternativo, e volta suas lentes para um local de lazer de forte interesse social, no subúrbio carioca.

O Parque Ambiental da Praia de Ramos Carlos Roberto de Oliveira Dicró, conhecido como Piscinão de Ramos é uma praia artificial construída no início da década de 2000, com 26.414 metros quadrados e 30 milhões de litros de água, no bairro da Maré.

Esta obra dividiu a opinião pública. Por uma lado, há aqueles que teceram críticas severas, por acreditarem se tratar de um projeto elitista, com o intuito de mater os moradores dos subúrbios cariocas longe das praias da Zona Sul. Por outro lado, há os que defendem que se construiu uma área legítima de lazer no subúrbio carioca, tão carente de áreas de recreação popular.

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Fato é que o Piscinão tornou-se opção de lazer da população local, chegando a receber, em um único final de semana, aproximadamente 60.000 pessoas.

O projeto fotográfico de Bittencourt foi realizado ao longo de quatro verões e capta, com grande sensibilidade, algumas peculiaridades da sociologia urbana deste local. A realidade, por ele mostrada, é bem distinta daquela que se costuma observar nas areias da Zona Sul carioca. Diferente das matérias que divulgam as praias cariocas no exterior, que apresentam somente uma faceta elitizada e reducionaista da sociedade desta cidade.

Em primeiro lugar, podemos perceber que a forma de se comportar dos frequentadores do piscinão é muito mais espontânea. Longe das pressões sociais pautadas por regras que impõem comportamento refinado – que, não raro, tolhe a naturalidade dos indivíduos -, as fotografias de Júlio nos mostram pessoas se divertindo, sem se preocuparem com regras de etiquetas tão prezadas no litoral da Zona Sul carioca. Esta é uma das diferenças bastante visível que o olhar deste fotógrafo captou.

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Outra singularidade é a forma como as pessoas lidam com os seus corpos. Diversos estudiosos de estética corporal já sublinharam como as diferentes classes sociais constroem a sua imagem corporal.

Segundo eles, os membros das classes socioeconômicas mais privilegiadas possuem maior preocupação (e mais recursos econômicos) em adequar seus corpos a um ideal de beleza socialmente reverenciado. Para quem se interessar em aprofundar este assunto, há inúmeros estudos interessantes que discorrem sobre a construção do corpo ideal nas diferentes camadas sociais.

Ao mesmo tempo em que retrata de forma fidedigna ambas as características acima descritas, o olhar de Bittencourt evidencia a posição de um observador externo àquele ambiente, que consegue perceber as sutilezas e os “exageros” comportamentais dos banhistas.

Assim, uma mulher empapuçada de um produto de descoloração de pêlos bem ilustra uma cena que dificilmente ocorreria nas comportadas e reprimidas areias de Ipanema, por exemplo. Bem como a mulher que consome um prato abarrotado de comida também seria algo impensável nas playas cariocas da Zona Sul.
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Mas o ensaio de Júlio também capta, com grande beleza, algumas cenas universais, como o beijo apaixonado entre um casal.

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E a determinação do indivíduo em busca do ganho de força e potência corporal.

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Ademais, mostra o trabalho criativo deste fotógrafo em busca de imagens que transmitam a beleza deste cenário tão rico de influências e interações humanas. Mais uma vez, Bittencourt usa o estilo foto/Arte, trabalhando cada uma de suas imagens como verdadeiras telas pintadas.

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Usando o azul como tom predominante em Ramos, ele brinca com o colorido de suas fotos, conferindo-lhes maior dramaticidade, e imprimindo sua assinatura neste projeto. Lembremos que em Numa janela do Edifício Prestes Maia 911, projeto comentado no primeiro artigo, ele utilizou tons puxados para o marrom, que conferiam um efeito mais primitivo e sufocante ás fotografias.

Um cenário que foge aos preceitos de etiqueta socialmente impostos e idealizados, e que deixa entrever pessoas se divertindo de forma mais livre. Que nos faz refletir sobre o quanto nos castramos em prol de regras de um "comportamento refinado".

Em Ramos, mais uma vez, Bittencourt trabalha com um universo de pouca exposição na Mídia tradicional. Além do valor artístico deste projeto, ele contribui para mostrar a grande diversidade sociocultural que compõem a sociedade carioca.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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