a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema

Como permitimos sermos amados quando achamos que temos pouco a oferecer: O Artista e Leonard Cohen

Uma dificuldade, pela qual muitos de nós já passou, é permitirmos nos entregar a um parceiro quando nos julgamos, de alguma forma, não-dignos do afeto do Outro. Afinal, estamos acostumados a nos apaixonar pelas qualidades positivas do Outro, e queremos que ele se apaixone também pelas nossas, não é? Especialmente, em tempos tão imagéticos, e consumistas como os que estamos vivendo.


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O enamoramento costuma acontecer baseado em uma série de fatores, os quais não conseguimos detectar ou explicar, de forma clara. O amor verdadeiro (aqui uso esta expressão para diferenciar de relacionamentos calcados unicamente por interesses) é inexplicável.

Muitos já tentaram estabelecer fórmulas que elucidem quais são os fatores responsáveis por este sentimento. Desde teorias mais banais, como frases do tipo “ os opostos se atraem", passando por explicações de cunho mais psicológicos, até as que reputam este sentimento a interações químicas.

Uma vez, um psicólogo amigo me perguntou “se eu havia casado com o meu pai ou com a minha mãe..."
Como assim, respondi?
"Sim, porque você se apaixona por aquilo que já conhece!" Disse-me ele.

Já uma amiga professora de canto me falou, apaixonadamente, por horas a fio sobre como os registros sonoros são importantes na ligação amorosa. Um amigo químico me descreveu as interações químicas que regem o amor, quase como um entorpecente. Fato é que não há justificativas que deem conta de um assunto tão complexo, tão humano.

Um desejo comum o qual pude observar que perpassa grande parte dos relacionamentos amorosos é o desejo de admirar e de ser admirado pelo ser amado. Aqui, falarei sobre a necessidade que temos de nos sentir admirados. De acharmos que temos qualidades positivas que nos fazem dignos deste amor.

Normalmente, vemos os relacionamentos como uma relação de troca, não é? Agora é a hora que muitos gritam, sim, claro! Queremos receber amor, carinho e etc... ! Quem não quer?

Mas é o momento também de vermos que temos também a necessidade de dar, amor, carinho e algo menos perceptível nesta equação, mas de igual importância, temos a imensa necessidade de sentir que acrescentamos algo na vida do Outro.

Queremos ser diferentes. Essenciais. Únicos.

Temos a tendência de reputar o amor do Outro às nossas qualidades positivas, que nos distinguem dos demais. Elas podem variar em uma miríade de elementos (de acordo com aquilo que valorizamos mais), como beleza, inteligência, senso de humor, situação profissional e financeira, cheiro e etc ....

Em Suzanne, uma das mais belas canções de Leonard Cohen, o cantor e poeta define brilhantemente em um refrão a necessidade que temos de dar algo admirável para o nosso amante. O Eu lírico da canção fala que justamente quando ele pensa em falar para Suzanne que não tem amor para lhe dar, ela deixa o rio lhe responder que ele sempre foi seu amante. E ele, então, se deixa ser amado.

Foi uma amiga, que dia destes, me sublinhou a força dessa música. Ela me perguntou, “percebe a beleza e força disto, de se deixar ser amado quando não temos nada a oferecer ” ?

Sim, isto requer muita coragem mesmo! Para mim, toda a entrega amorosa demanda boa dose de coragem. É quando nós colocamos grande parte de nossa satisfação, nossos desejos, nossos planos nas mãos do Outro ( e ele na nossa). Por mais que queiramos, nada garante o amor; apenas ele mesmo. No amor, a única garantia que se tem, é o amor. Mas, então, quando acaba, acaba a sua garantia... é isso aí mesmo!

Agora, imagina quando pensamos que não temos nada (ou temos de menos) a oferecer. Se entrar em uma parceria amorosa quando reconhecemos nossas boas qualidades já é um ato de bravura, imagina quando achamos que não temos muito a oferecer? Imagina reconhecermos que o pouco que temos já é o suficiente para o Outro nos amar? Será que conseguimos nos deixar amar?

E este sentimento de menos valia pode ocorrer em qualquer momento da relação. E ele pode se alterar ao longo do relacionamento. O filme O Artista (dirigido por Michel Hazanavicius, 2012) tem como trama principal a decadência de um famoso ator de cinema mudo quando o cinema falado ganha peso. Mostra os problemas profissionais que a modernização pode acarretar.

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Para mim, contudo, ele fala mais sobre a dificuldade de se deixar ser amado quando se “está por baixo”. No enredo, enquanto o galã do cinema mudo vê sua carreira desmoronando, sua ex-fã e atual amante Peppy Miller torna-se uma estrela do cinema sonoro. A dinâmica da relação entre eles inverte-se, e ele fica se sentindo diminuído. Não aceita a ajuda da namorada. Se recusa a se mostrar frágil e vai se afundando por não aceitar o auxílio de Peppy.

Há uma forte cena que, para evidenciar de forma explicita o alto grau de orgulho e narcisismno deste personagem, faz uma linda e pesada alusão ao romance o Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. O personagem entra em um cômodo fechado de sua casa, com todos os móveis e objetos cobertos. Nele, descobre um grande retrato de si próprio. Desvelando, assim, o orgulho e narcisismo que estava encoberto por sua recusa em receber ajuda.

Ele é um monstro de orgulho? Sim; e não! Se pensarmos bem, muitas vezes, é mais fácil darmos ajuda para a pessoa amada do que pedirmos, do que nos sentirmos vulneráveis. Queremos ser heróis, bonitos, inteligentes e engraçados diante dos olhos do ser amado. Essa necessidade de estar sempre bem ao olhar de quem amamos é muito bem retratada no romance A Bela do Senhor (de Albert Cohen), no qual a personagem principal só queria aparecer impecável diante do amante.

Interessante associação me ocorre agora (uma ideia para outro texto) de que talvez, no cerne deste desejo de se sentir “superior”/”admirado”/”independente” para o ser amado, resida a necessidade de se afastar do tipo de amor filial, no qual somos vistos como seres a serem cuidados. Admitir que necessitamos de “cuidados” extras, ou de que não temos letreiros luminosos em nossas vidas ou medalhas atestando nossas conquistas, ou que não somos modelos de revistas, é admitir que o Outro veja as nossas “faltas” e que mesmo, assim, nos ame.

Em um tempo que valoriza tanto a imagem, como hoje, admitir “deficiências” é coisa para os mais bravos dos corajosos, já que sempre poderá haver um Outro, mais “bonito” , mas “inteligente”, com mais “sucesso na sua vida profissional”....

O amor, todavia, nada tem a ver com equações de ganhos e perdas. Para mim, o amor não tem nada a ver com aquilo que o Outro, de fato, possui; mas, sim, com o que desperta em nós. São aquelas pessoas que nos fazem nos sentir melhores em relação a nós mesmos.

Assim, muitas vezes, acreditamos estarmos entrando em um relacionamento em “desvantagem”, mas na verdade estamos dando algo muito valioso para aquela pessoa que nos escolheu. Sim, é uma escolha. Uma escolha inexplicável. Apesar de várias áreas do conhecimento humano já terem tentado capturar este enigma. Mas como na música de Cohen, devemos ter a coragem de confiar na escolha do Outro, quando ela vem de encontro à nossa. Se podemos escolher aquela pessoa para amar, ela também pode nos escolher. Devemos ter a coragem de confiar no amor, mesmo considerando-nos despidos de "efeitos especiais".


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema .
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