a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema

Metais Pesados: um sopro de rock

Ocupando as ruas com … Som. Muito som. O movimento neofanfarrista no Rio de Janeiro tem como um de seus objetivos levar a música ao público. E, para isto, nada mais apropriado do que ir aonde o povo está. Nos espaços públicos. Com ele dividir as dores e as delícias da cidade.


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Festival de música e cultura de rua de Bangú. Foto de Euter Mangia

A primeira apresentação a que assisti da fanfarra de rock “Metais Pesados” ocorreu dessa forma:

Locação: Noturna. Praia do Arpoador.
Suave brisa cortando o ar, refrescando o que tinha tudo para ser mais uma escaldante noite do Verão carioca. Umas duzentas pessoas. A maioria, provavelmente, moradores da Zona Sul carioca.

Calma, leitor! Espere um minuto. Espere eu terminar. Não imagine que o show da Metais Pesados foi um espetáculo elitista. Não foi! O próprio conceito neofanfarrista carioca não o é !

Trilha sonora: Metallica, Rage Against the Machine, Alice in Chains, Twisted Sister, Iron Maiden, Motorhead, Black Sabbath, AC/DC, entre outras.

Coreografia: Além dos estilosos movimentos de corpo que os músicos faziam, girando para um lado e outro, com seus instrumentos no maior suingue, à frente da banda, um morador de rua tomava conta da “imaginária boca de palco” , que se delineava naquele pedacinho da praia. A harmonia e interação entre ele e os membros da banda eram tão grandes que eu e outras pessoas do público ficamos a nos perguntar se aquele rapaz era um dançarino contratado pela banda. Não era. Apenas estava ali, curtindo pra caramba. Um som de ótima qualidade, pertinho dos músicos, totalmente, 0800.

Este descontração na apresentação da Metais Pesados é bem caraterística do movimento neofanfarrista carioca, que muito se distancia da origem da formação das fanfarras, na França do século XIX.

Composta por sopros e metais, as fanfarras têm seu surgimento associado às bandas marciais. Como o seu som tem grande potência, ela é um tipo de formação musical apropriada para grandes espaços.

Porém, com o passar do tempo, as fanfarras foram alargando o seu escopo, ganhando roupagens mais descontraídas, passando de um estilo mais tradicional, dirigido a um público restrito, para um mais democrático, não apenas no que diz respeito ao repertorio adotado, mas também ao público que visa a atingir. Como assinala o pesquisador Micael Herschmann, esta transformação foi ocorrendo progressivamente nos meios universitários europeus, mudando as feições sisudas das fanfarras, aplicando-lhes sopros e batidas de descontração e de inclusão.

No Brasil, ao pensarmos em fanfarras, geralmente lembramos daquelas bandinhas que tocam em eventos públicos cívicos, em paradas militares e em apresentações de colégios. Os músicos tocam de forma mais comportada e formal, com a projeção de instrumentos pesados prendendo a atenção de todos. Como em várias outras modalidades de apresentação, o público vai até o local do evento para escutar o repertório escolhido .
O movimento neofanfarrista, que ganhou força no Rio ao longo das duas últimas décadas, todavia, tem sabido aproveitar as características mais populares que este estilo de banda pode oferecer.

Como vimos na apresentação do Metais Pesados nas areias de Ipanema, acima descrita, as bandas associadas ao movimento neofanfarrista buscam romper literalmente com esta barreira do som, entre músicos e público.

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Vinculadas ao renascimento dos blocos de carnaval na primeira metade do decênio de 2000, as fanfarras ganham espaço como um movimento musical que pretende não apenas apresentar sua música para o público, mas também possui marcado conteúdo social.
No Rio de Janeiro, o movimento neofanfarrista tem como cunho comum aos seus integrantes o intuito de disseminar a ocupação dos espaços públicos. De incentivar o povo a usufruir dos espaços coletivos da cidade de uma forma criativa e prazerosa. De levar música gratuita a quem se dispuser a dar uma paradinha para escutar.

Ao meu entender, duas peculiaridades explicam a vocação democrática deste tipo de formação musical. Em primeiro lugar, como dito antes, a potência sonora destes instrumentos faz que seu som seja propagado sem a necessidade de amplificadores. Assim, eles se adaptam muito bem tanto a shows fixos, como em apresentações com deslocamentos. Estas últimas são feitas com frequência pela Metais Pesados. Em muitas ocasiões , seus integrantes chegam em determinados espaços públicos, de repente, levando música para quem está por lá passando.

Outra característica importante para o seu caráter democrático é que seus instrumentos de percussão são de fácil acesso, manipulação e executam marcação de ritmos simples. E, aí, tem um aspecto muito interessante das fanfarras cariocas: seus integrantes não necessariamente têm de ser músicos experientes. Mesmo amadores, com pouco tempo de prática e boa vontade, conseguem se sair bem. Esta mistura entre músicos amadores e profissionais pode ser muito interessante, pois traz diversidade de experiências, que contribui para enriquecer o repertório musical e criativo da banda.
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Foto: Euter Mangia

A fanfarra Metais Pesados foi formada em 2014, por um grupo de pessoas que tocavam na Orquestra Voadora. É composta por uma miscelânea entre musicistas de formação e músicos amadores.

Durante o Carnaval, fizeram o Bloco to be Wild, que em parceria com a Heyho Brass Band, juntou um público de centenas de foliões, dançando ao som de um rock acarnavalzado ou um carnaval rockeado.

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Fato é que constitui mais um estilo de música a animar o Carnaval carioca, oferecendo, assim, uma atração para aqueles que gostam de pular Carnaval de rua, e, também, para quem não curte as músicas de Carnaval.

Apesar de ter sua origem e seu desenvolvimento ligado ao ressurgimento do Carnaval de rua, o movimento neofanfarrista tem um escopo muito mais amplo, e suas bandas, em geral, tem projetos ao longo do ano todo, não se restringindo ao período carnavalesco. A Metais Pesados realiza, com frequência , o que eles chamam de ataques ou bombardeios musicais nas ruas, e também em lugares fechados. Mas, em comum, tem o fato da animação desta banda ser contagiante e despojada.

Muitos torcem o nariz para músicas em lugares públicos. Alegam que os espaços públicos requerem ordem. Silêncio. Assepsia.

Outros, simplesmente, não se interessam devido à pressa cotidiana. Por considerarem que se tem algum artista se apresentando na rua é por que não é bom. Há alguns anos, o Jornal The Washington post divulgou uma experiência qual Joshua Bell, famoso violinistas, ficou tocando em uma estação de metrô durante algum tempo sem ser devidamente identificado.

Tristemente, quase ninguém parou. Imagina quantas destas pessoas não pagariam uma grana alta para ver uma apresentação deste musicista?

E ele estava bem ali. De graça. Pertinho delas.
Este vídeo me fez ver as coisas de maneira diferente. Agora, sempre que tenho um tempinho extra , tento parar e conferir a Arte que está sendo ofertada nas ruas. E minha conferência da Metais Pesados me trouxe grata surpresa e me despertou a curiosidade para outras bandas de rua.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema .
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