a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema

Noite: Uma incursão agridoce na poesia

Em sua primeira coletânea de poesias, o jovem escritor Pedro Karam nos convida a um passeio pela Noite, com seus mistérios, descobertas e paixões. Oferece as mãos ao leitor, para, com gentileza e força, nos conduzir a uma vivência de deslumbre e agonias retratados em seus 62 poemas. Apesar de, por vezes, muito dolorosas, a sensação predominante que fica é a de que entramos em contato com algo forte e profundo, que, sem piedade, nos propõe uma reflexão sobre grandes questões da existência humana.


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Diferentemente da prosa, a poesia é uma obra em fazimento ... cada partícula de sua matéria-prima se entrelaça para compor o seu todo. Ou melhor, cada partícula é unidade e conjunto, ao mesmo tempo. Cada palavra, cada pontuação, cada grafia, carrega em si uma sensação, um significado próprio, que contribui para a composição final.

Uma boa poesia prende o leitor em cada uma de suas palavras, faz que ele tema o seu desfecho final. Que queira permanecer ali, no êxtase daquela emoção. E, quando chega ao fim, ele percebe que algo em si mudou. Como se tivesse, de fato, passado por uma experiência emocional.

É este tipo de sentimento que as poesias de Karam nos oferecem. Recorro a um de suas poesias para começar a apresentar este poeta a vocês e falar sobre uma de suas características surpreendentes: sua maturidade poética.

Noção de tempo é psicologia básica – precisamos ser velhos desde jovens caso contrário, jamais chegaremos a envelhecer.

Pedro começou a escrever bastante jovem. Entretanto, sua obra (sim, já podemos falar nesta palavra, pois que ele já tem vasto volume de produção), não possui o frescor da juventude apresentado por outros poetas de sua geração. Suas poesias são densas, e pesadas. Em geral, falam de questões existenciais profundas e contraditórias, com um entendimento de vida que poucas vezes alcançamos, mesmo em idade já mais avançada.

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Hoje, ele tem 25 anos, dois livros publicados (pela Editora Multifoco) e mais um pronto, aguardando publicação. Tem poesias publicadas em duas antologias: O Reflexivisível, publicado na Antologia Gritos Contidos e Último Recurso, na Antologia Universos. Trabalha como crítico no Observatório do Cinema, site vinculado ao Portal Uol. Seu amor pela Arte se estende à música: ele toca violão, canta e tem algumas canções compostas e já gravadas.

Pode-se perceber que ele é uma destas pessoas com a Arte encrustada na pele, como revela em mais um de seus poemas, que, para mim, pode ter como inspiração uma pessoa (amada) ou a Arte, em si:

A Arte Transforma

tatuo-te da cabeça aos pés
– em tamanho real –
por todo o meu corpo

que é para provar que,
por você,
troco até a minha identidade:

seria este o teu conforto?

Em março de 2015, publicou seu primeiro livro Célebres Ninguéns, que traz ensaios versando sobre temas da contemporaneidade e sobre suas experiências. Interessante que nestes ensaios, conseguimos perceber a juventude deste escritor. Como eles guardam grande proximidade com suas experiências, eles revelam o mundo “real” deste rapaz.

Já em Noite, a poesia é baseada em um plano diferente da existência humana. Ela vem da alma, dos sentimentos. No caso de Pedro, suas poesias demonstram um rico mundo interno, que vão muito além de sua experiência pessoal. Falam sobre sentimentos profundos, amedrontadores, e , por vezes, contraditórios.

Versatilidade é outro atributo recorrente na obra e na vida deste poeta. Não apenas escreve com paixão e propriedade sobre temas diversos como amor, morte, ódio, vida , como também suas poesias não obedecem a uma forma única. Pelo contrário. Usa elementos comuns à estrutura poética, como a rima, mas também foge deles, tecendo imagens mentais, que vão se entrelaçando, sem necessidade deste recurso de estilo poético. Ora suas poesias são curtas e cirúrgicas (vide as acima transcritas) – como uma intervenção lacaniana –, ora são longas, aprofundando, fazendo nossos estômagos e emoções revirarem a cada verso, como em:

Por um tanto de(s)encanto

Haverá um dia em que o menino não hesitará ao sair de casa.
Haverá choro porque para ele as coisas acontecem assim:
lamentações e puro desencanto, como se a vida só se fizesse presente no pesar.
Será?

Na sala de estar os móveis continuarão passivos, decorados e inférteis,
como o corpo da mulher que, uma vez, fez-se mundo, para depois se calar.
E no canto de sua boca haverá uma boca de mulher, que preenche com veneno
o vazio de sua falta do que falar.

Entristece, curva-se: a dor impõe respeito.

Haverá o perdão também, porém este há de ser duvidoso.
Porque as marcas impressas no olhar queimam a pele de quem olha
e de quem cala – mas não consente – transbordando em suor sua mágoa
intermitente.

É que a alegria só se vê do lado de fora da gente.

Haverá uma incerteza pairando sobre o menino e cada uma de suas ações.
Não poderia ser diferente, afinal, haver em si é algo novo para quem mal nasceu
e já quer ir em frente.

Busca, o menino sabe e saberá até o fim, que é eterna.
Mas nada há de impedi-lo em sua procura, seja ela qual for
– porque o menino sabe e saberá chegar a si
quando faltar amor.

E este é o momento em que é preciso parar, como se o caminho percorrido até aqui já bastasse por si só:

Vale a pena arriscar-se por deixar um mundo para trás?
E fisgar ou almejar tocar o futuro com mãos suaves para depois sangrar e constatar
a incapacidade de ser menino adulto?

O vulto, tumulto, um insulto: voltar? Jamais.
Provar imagens tanto doces, quanto cruéis, através de
lábios trêmulos
– junto ao cais?

O menino haverá de pensar um pouco mais, ou talvez deixar para depois.

Nas madrugadas, seu romance com a palavra é uma vida a dois.

Quem sabe um dia ele ainda escreva um livro, quem sabe este livro será lido,
e tudo o que o menino já questionou
quem sabe descobrirá as respostas
pelo caminho...

– e que o caminho saiba por que vias perambular para que o quem sabe possa
eternamente
durar.

“ter dúvidas também é fugir de onde se está”,
pensa o menino.

Haverá uma vez que se proclamará a primeira.
Da vez enquanto for possível ser inédita
virá o deslumbre, a poesia,
a face incrédula.

E toda a emancipação que ferveu por dentro durante anos
para então se fazer fonte de inspiração, como a maré das ondas
do mar que se chocam e juntas criam o novo
– espuma espalma o nascer,
ah!

Louvo a quem possa escutar a prece deste menino.

Haverá uma noite em que o silêncio ressoará
como um uivo de solidão e amargura.
Esta noite será a noite em que o menino
se confundirá com as sombras
de sua própria alma.

E a imagem refletida na lama da rua da esquina
do fim do caminho
revelará a silhueta deformada de um homem
na busca por ser sozinho.

“você foge, você inexiste, você procura, você encontra.
Você é quem não queria ser. Tarde demais,
por que parou para se ver?”

Por isso, por enquanto, por um tanto de(s)encanto
o menino segue em sua bicicleta, firme, atento,
desafiado pela força do vento
que vai de encontro à sua face
– na calada da noite.

O passeio noturno lhe traz um pouco de vigor.
De volta a si, quando chega em casa, pensa apenas
em dormir.
E dorme, no colo da noite, ainda sob o efeito da brisa do vento,
pleno em sonhos e anseios.

Haverá um dia em que este menino abrirá os olhos.
Haverá nos olhos um pouco mais de cor.
E haverá na cor o tom da música da manhã:
é a mãe que canta baixinho, ou o rádio, ou a melodia do tempo
anunciando um novo despertar.

Haverá um dia em que tudo isto será música.
Tudo será o mesmo, uma só nota,
doce lembrança.

Pois que por enquanto ainda é tortura
– que dança.

Haverá um dia em que dançar será bonito para o menino.
Haverá uma dança a dois, um beijo seco, áspero, sem trilha sonora.
E no caminho de volta o menino haverá de tocar os lábios,
uma, duas, infinitas vezes para senti-los com a apatia de quem não está preparado
para tê-los violado.

Não haverá de ser o primeiro, mas o último beijo antes de partir
– se pôr inteiro.

Haverá um momento em que tudo parecerá fugaz.
O tempo, as coisas, os lugares, os amigos
(e tudo o mais).

Haverá uma lágrima, solitária e conformada, traçando um caminho tortuoso
por entre os poros da pele ácida do menino.
E no auge do trajeto da lágrima, haverá uma busca por textura, por fertilidade, vontade de nascimento.
Quem sabe até...

felicidade:

fugidia, tola por ser simples e esguia
– ela vai-se embora, toda ela,
num só dia.

Mas há de se esperar um pouco de beleza no olhar de quem já foi feliz,
ao menos por breves segundos, incertos mundos
de viver por um triz.

E isto às vezes basta.

Haverá um dia em que se bastar não será suficiente.
E o menino terá que contar com a existência de uma vida
além da sua mente.

Travará consigo batalhas em vias de conquistar o direito de ser carente
– de resposta.
Ser gente, perder a aposta, sem sentir-se mal ao vislumbrar
o rosto faminto da incapacidade
espreitando à sua porta.

Haverá um dia em que crer apenas no que há
se tornará inviável para o menino.
Em outras fontes, além da casa, do terreno, dos gostos, dos serenos,
o menino haverá de encontrar um pedaço de alma.
Sua, do outro, um pedaço para ter fora de si um pouco do mundo
que ele (ainda) não pôde ver.

E que este menino ouse enxergar – quando puder ver – e não apenas registrar imagens condenadas a permanecer para sempre trancadas no porão da memória.

Não.

Imagem que viaja aos olhos é experiência,
e não deve partir em vão.

(...)

Haverá um dia em que o menino não hesitará ao sair de casa.
Haverá choro porque para ele as coisas acontecem assim:
lamentações e puro desencanto, como se a vida só se fizesse presente no pesar.
Será?

O lado de fora é ainda mais bonito.
As luzes cintilam pelos arredores da mente
– dentro.

Sua visão alcança a entrega infinita
e ele se entrega, em busca do futuro:
viver!

Haverá um tempo em que este momento
chegará a ver.

E haverá um dia em que este menino
haverá de ser...

eu.


Se você leu este poema todo com calma e se emocionou, como eu fiquei emocionada a primeira vez que o li, e todas as vezes em que o releio, percebeu outra característica marcante de Karam: diferentemente de grande parte de sua geração, não tem medo nem de entrar em contato com suas emoções – seja por meio de confissões pessoais, seja por meio da exposição de seus Eus literários -, nem de fazer poesias longas. Não busca a brevidade e a superficialidade tão comuns hoje em dia. Como dito anteriormente, ele domina tão bem a técnica de poesias mais extensas, como a de curtas.

Pedro diz que sempre escreveu. Que a escrita é vital em sua vida. “ Escrever é como um grito de ave de rapina” , já diria Clarice Lispector, uma de suas maiores fontes de inspiração, em Um Sopro de Vida. Aliás, foi após ler este livro que Pedro decidiu, de vez, que iria escrever.

Interessante que Karam desenvolveu um estilo poético de interiorização que muito nos lembra Clarice. Certa feita, Caio Fernando Abreu escreveu que ao encontrar Clarice Lispector, e passar a noite inteira conversando com ela, sentiu-se extenuado; tamanha era a sua compreensão doída do mundo. E é isto mesmo que sentimos: uma profunda dor gostosa ao ler Clarice.

Assim como na obra desta escritora, os poemas de Pedro nos arremessam em um estado reflexivo profundo. Porém, diferentemente das obras de Clarice, que nos faz sentirmos muito sós – para o bem ou para o mal –, as poesias de Karam parecem que nos convidam a um passeio acompanhado pelo escritor. Por uma busca interior, que entramos com muita força, cujo o desfecho, mesmo quando acaba de forma pertubadora , gera uma sensação de bem-estar, de expurgo. Há uma sensação de que entramos com força emocional em um tema que nos aflige, mas com o qual conseguimos duelar.

Mas estas são apenas algumas das impressões e sensações que tenho quando leio as poesias de Karam. Como o mundo poético é extremamente subjetivo e pessoal, vale você conferir o trabalho deste poeta e ver como ele o afeta.



Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema .
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