a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema

Novo show de George Israel “Agora” mostra o amadurecimento jovial deste músico

O show “Agora”, de George Israel – lançado em 4/07, no Theatro Net Rio - é uma celebração à carreira deste versátil e mega carismático músico. Nele também fica evidente a sua assombrosa capacidade de transitar entre diferentes influências. George possui o dom raro de conseguir, ao mesmo tempo, fazer o público se sentir embalado por sucessos antigos, e botar a plateia para pular com hits ainda inéditos ao público, feito bastante raro.



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Foto: Leana Manhâes

Além da produção de beleza estética (em suas variadas áreas), outra qualidade essencial da produção artística é que ela incentiva a criação, não apenas em quem faz Arte, mas também em quem entra em contato com ela. A criação artística – desde a Arte amadora até a profissional - é uma atividade que possibilita ao indivíduo extrapolar a realidade na qual ele está inserido, conhecer experiências sensoriais e intelectuais diferentes das suas, que não se limitam aos padrões e regras pré-estabelecidos. Vimos que, ao longo da História, não raro um movimento artístico catalisou mudanças importantes, servindo como ruptura em estruturas sociais profundas – como foi o caso da Semana de Arte Moderna no Rio de Janeiro.

A criação artística, todavia, é uma atividade que exige esforço e capacidade de renovação pessoal. Exige um olhar curioso para o meio em que nos inserimos. Um inquietar-se constante. Uma capacidade de troca permanente, de perceber as influências de cada tempo. De abraça-las, e saber que o indivíduo está em mudança contínua, enquanto vivo está.

Apesar de parecer simples, sabemos que há uma tendência muito grande do ser humano em se restringir ao que já conhece. Assim, conforme vamos nos tornando adultos, vamos construindo nossa personalidade de acordo com o que acreditamos seguro. Naquilo em que acreditamos que somos bons. Infelizmente, não raro, nos acomodamos. Ficamos "com preguiça" mental e emocional de sairmos de nossas zonas de conforto.

O grande barato da criação é que ela nos possibilita estarmos sempre aberto ao novo. É ter a coragem de se reconhecer “naive” , e avançar no desconhecido. Para pessoas mais velhas, é a humildade de reconhecer que o mais novato dos garotos pode lhe transmitir algo novo e interessante, naquilo em que já se é proficiente.

George Israel tem esta coragem e consegue conciliar um amadurecimento jovial à sua música. Transita entre o passado, o presente e o futuro, com grande habilidade.

Ao longo das últimas quatro décadas, o instrumentista tem exercitado - com garra, carisma e competência – uma qualidade essencial para os bons artistas: a habilidade de reinventar o seu som, em sintonia com as influências temporais recebidas. Em “ Agora”, o veterano músico realiza uma celebração à música de “suas épocas”, por meio de sucessos antigos e composições ainda inéditas, promovendo verdadeiras parcerias entre gerações distintas no palco.

Muito bonito de se ver, ouvir e sentir.

Um caso ilustrativo de como a Arte pode atuar na vida das pessoas como meio de constante renovação.

Um caso ilustrativo de como as pessoas podem atuar na Arte como um meio de constante renovação.

Além de ser um instrumentista excepcional, Jorge Israel tem demonstrado capacidade ímpar de estar sempre criando e se renovando. Membro de uma das bandas ícones da explosão do rock nacional no decênio de 1980 – a Kid Abelha e os Abóboras Selvagens – ele tem uma produção musical profícua e variada, na qual tem a tradição de fazer parcerias produtivas com diversos músicos de gerações distintas.

Com Paula Toller, cantora da Kid Abelha, possui aproximadamente cinquenta canções gravadas. Entre elas, hits como Nada sei, Te amo pra sempre e Eu tive um sonho. São 15 discos gravados com esta banda.

Parceria marcante também foi realizada com Cazuza, com quem, entre outras, compôs a canção Brasil que virou um hino de protesto contra as mazelas sociais e políticas do País. Em seu terceiro Cd solo, 13 Parcerias com Cazuza, podemos ver a importância de seu trabalho de compositor no legado de Cazuza.

Além destes nomes já citados, tocou com outros músicos e bandas de sucesso, como por exemplo, Os Paralamas do Sucesso, Léo Jaime e Biquini Cavadão.

Começou sua carreira solo no início da década de 2000, e teve seu primeiro Cd, 4 letras, lançado em 2004. Três anos depois, lançou Distorções do meu jardim . Em 2010, lançou a citada coletânea de composições com Cazuza.

Antes de falar dos músicos com que tem realizado parceria , cabe um comentário que não apenas li em vários artigos sobre este músico, como também ouvi de amigos que o conhecem pessoalmente: George é completamente entusiasta do que faz. Faz com amor. Carinho. Muita garra. E um pique impressionante para qualquer um. Em se tratando de alguém de sua geração, então, posso falar que ele nos deixa de boca aberta diante de tamanha disposição e preparo físico.

No lançamento de Agora não foi diferente. George cantou. Sua voz é bonita e cheia de estilo. Apesar de não apresentar grande extensão, ele sabe usá-la de forma bem adequada, sem se aventurar a fazer grandes floreios.

Tocou alguns instrumentos, entre saxofone, violão e guitarra. É um instrumentista exímio. Sendo que fez tudo isso aos pulos, se aventurando no meio da plateia, sem perder o pique um só instante. Falou muito. Estabeleceu um contato bem próximo com o seu público, o que, muitas vezes, é difícil de se realizar em espetáculos realizados em teatros. Chorou, emocionado por estar lançando um novo trabalho.

Assim, quando se fala que ele já fez mais de duzentas apresentações em sua carreira solo, com diferentes músicos, não nos assustamos. George é um músico que privilegia bons parceiros de banda, reconhecido por tocar com músicos de alta qualidade como os que compõem sua banda atual Kadu Menezes (bateria), Gê Fonseca (teclados), Federico Puppi (violoncelo), Guilherme Schwab (violão e guitarra) e Leo Israel- seu filho - (piano e acordeom).

Além destes nomes, o show contou com a participação de diversos outros convidados como Leoni, Hyldon (fiquei em êxtase ao ver ao vivo e a cores o "arquiteto" da Casinha de Sapê de minha infância) e Toni Garrido.

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Fotos: Leana Manhães

Este último, com quem George vem desenvolvendo uma parceria criativa super profícua, merece um (ou vários) comentários à parte . A química entre os dois é combustiva. O show parece um playground musical dos dois. E o deleite deles é compartilhado com o público.

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Fotos: Leana Manhães

Em termos musicais, acredito que pelo menos um grande sucesso eles já compuseram. O meu palpite é de que a canção Olha ela – de composição desta dupla - lançada nas plataformas digitais no início de julho, será um grande hit. Acho que poucas vezes vi uma música inédita contagiar a plateia com tamanha intensidade. E esta é apenas uma entre outras que eles compuseram até agora.

Interessante é que ela evidencia a sintonia de George com as influências atuais: tem uma pegada muito mais eletrônica (MARAVILHOSA) e será lançada diretamente em plataformas digitais.

Se você for assistir ao novo espetáculo de George Israel em busca de um climão nostálgico, irá se decepcionar. Apesar de tocar inúmeros sucessos antigos, ele não se presta a ficar alimentando saudosismos. Não é uma exaltação aos bons tempos passados. Não! O Show deve sempre continuar ! A Arte é criação! É aqui e Agora!


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema .
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