a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema

O Mundo Segundo Garp e Um Hotel Muito Louco: O Lado B (bacana) da sociedade estadunidense

Em tempos de recrudescimento do conservadorismo nos Estados Unidos, dois filmes deliciosos e essenciais que retratam o lado alternativo da sociedade estadunidense. Mostram por que este país teve papel fundamental no fortalecimento de diversos movimentos em favor dos direitos humanos. Sobretudo, mostram uma característica muito bacana deste povo , que poderia ser resumida na frase: "e a vida continua!"


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Há muito tempo queria escrever sobre estes dois longas. Mas acabava sempre passando um assunto na frente e postergava . Agora, contudo, com a ascensão de Trump ao Poder nos Estados Unidos, e tudo o que ela representa para um país tido como um dos berços da democracia moderna, parece que a lembrança destes filmes nos ajuda a entender do que a sociedade estadunidense está abrindo mão.

Vale ressaltar que quando um líder político assume a liderança, ele suscita o empoderamento dos grupos sociais que compartilham as suas ideais e os seus valores. E grande parte dos partidários de Trump defendem uma gama de princípios antidemocráticos, que ferem a defesa dos direitos humanos e fomentam atitudes preconceituosas e intolerantes. Assim, essas pessoas ficam mais propensas a expressar suas ideias de forma mais assertiva. Representando, dessa forma, grande retrocesso em diversos avanços sociais conquistados ao longo dos últimos séculos por esta sociedade. Não, não estou sendo dramática; basta dar uma olhada no histórico da defesa dos direitos humanos.

O Mundo Segundo Garp (George Roy Hill, 1982) e Um Hotel Muito Louco - New Hemisphere Hotel - (1984) - são longas essenciais que retratam o lado mais alternativo e de vanguarda da sociedade estadunidense. Ambos foram adaptados de obras de John Irving, um dos escritores que melhor parece captar uma peculiaridade muito positiva deste povo: sua capacidade de seguir a vida adiante, a despeito das dificuldades que se apresentam, dos conflitos pessoais e externos .

Como ambos os filmes são compostos de situações que vão ocorrendo em cima da trama principal, me absterei de contar o desenrolar completo da trama de cada um, para não estragar a deliciosa sensação de cenas delicadas e surpreendentes que estes filmes nos proporcionam. Darei breve sinopse de cada um, com o desejo de deixar o leitor com "o gostinho de quero mais". No caso destes enredos, muito mais. Acreditem!

Filmados na primeira metade da década de 1980, ambos trazem um elenco de jovens atores que mais tarde viriam a se tornar grandes referências do cinema. Ambos adotam um estilo de humor leve, porém, tragicômico. Enquanto a película de Hill adota um clima mais non sense, a de Richardson transpira um humor mais ácido, tornando-se, em alguns momentos bem sombrio.

Dirigido por George Roy Hill (Butch Cassidy and the Sundance Kid), o Mundo Segundo Garp tem como trama central a vida do personagem título - representado brilhantemente por Robin Williams - e sua forte relação com a sua mãe - desempenhada por Glenn Close. Digno de nota também é a atuação brilhante de John Lithgow, (indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por este papel), desempenhando uma transexual, que fica amiga da família de Garp. Um entre os diferentes temas extremamente modernos à época, o transexualismo é tratado com bastante naturalidade.

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Como uma caixinha de guloseimas sortidas, suas cenas foram construídas de forma primorosa, não se limitando apenas a uma narrativa linear. Oferecendo-nos diferentes recursos cinematográficos, para contar uma estória totalmente inusitada.

Aliás, desde agora, temos de ter em mente que "inusitada" é o melhor adjetivo para descrever as tramas de John Irving, e que ambos os diretores em questão conseguiram captar com grande propriedade e traduzir para a tela grande. Uma das características mais interessantes de Irving é justamente mostrar uma sociedade diferente daquela que estamos acostumados a ver nos filmes estadunidenses.

Suas estórias não falam sobre aquele estadunidense "programado" para se adaptar à sociedade. Treinado para usufruir e ser bem sucedido dentro do America Way of Life.

Lembro-me que quando morei lá, com um filho pequeno, ficava chocada com a palavra que eles usavam para descrever alguns comportamentos que a criança ia aprendendo ao longo de seu desenvolvimento. Em inglês, a criança não apreende a tomar mamadeira ou a usar o pinico; não. A palavra usada é trained. Ela é bottle trained ou poty trained. Estes exemplos nos mostram um lado dos estadunidenses que espera pouca subjetividade do indivíduo. Ele é treinado para se adaptar à sociedade. Muitos acabam acreditando que este esteriótipo define todos os estadunidenses. Ledo engano, todavia. Basta lembrarmos da tradição de ativismo de variados grupos socioculturais e políticos que se iniciaram ou ganharam projeção atuando naquele país.

Os personagens de Irving nos mostram o lado receptivo e tolerante da sociedade estadunidense. Um povo que, apesar de todas as suas idiossincrasias, tem forte histórico de recebimento e acolhimento de imigrantes, luta pela democracia e pelos direitos civis, propriamente ditos. Assim, seus personagens principais são pessoas dispostas a experimentar a vida. Indivíduos que não se limitam a viver de acordo com as convenções sociais. Que transgridem, em nome de sua individualidade.

Glenn Close faz o papel de Jenny Fields, uma enfermeira durante a Segunda Guerra Mundial, que desejava ter um filho, mas que não queria se casar. Em certa ocasião, depara com um paciente que estava em estado crítico. Apesar de inconsciente, mantinha uma ereção. Então, ela vai lá e faz sexo com ele. Que logo morre. Foi assim, como ela explica a seus pais horrorizados, que Garp foi concebido.

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Ela dá ao filho o nome de seu pai. Porém, a única informação que tinha do homem era que ele era aviador e que o nome que constava em seu prontuário era T.S.Garp, Sargento Técnico Garp.

Jenny escreve um livro sobre a sua vida e se torna um ícone feminista. Nas palavras de seu editor, um manifesto político. Nele, expõe também a vida do filho, que se sente oprimido pela forte personalidade da mãe. Apesar de ele ser um escritor talentoso, fica conhecido como "o filho bastardo de Jenny ".

O filme trata com muita delicadeza e leveza diversos tabus sociais, como o homossexualismo, transexualismo, adultério e perdas distintas. Mostra que a vida se desenrola apesar de seus percalços, ou melhor, utilizando os imprevistos e infortúnios como fonte de crescimento e união familiar.

Já em Um Hotel Muito Louco, dirigido por Tony Richardson, podemos ver Jodie Foster, Nastassja Kinski e Rob Lowe no início de suas carreiras. A trama principal gira em torno de uma família, que procura um hotel para morar e administrar.

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Ao longo da trama, diferentes questionamentos e tabus humanos são tratados, como o incesto, o suicídio, o homossexualismo, o estupro e suas conseqüências e o questionamento a padrões reverenciados de beleza. Assim como o enredo de Garp, este filme trata temas espinhosos de forma quase que catártica. Como se o autor quisesse mostrar que mesmo os extremos de todas as situações que parecem nos ameaçar - real ou imaginariamente -, podem ocorrer sem nos aniquilar.

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Na foto acima, Natassja Kinski faz a personagem Susie, uma moça que se acha feia, e se veste de urso.

Retratando uma miríade de assuntos tidos como tabu, sem contudo levantar bandeiras de defesa de um movimento social especifico, estas tramas mostram que eles podem fazer parte da vida cotidiana de todos nós. Os personagens vivem experiências de perda, de quebra de preconceitos sociais profundos, como o caso do incesto, e continuam com suas vidas.

Como se o escritor quisesse mostrar que não se precisa temer o que é humano. Que as pessoas podem entrar em contato com seus sentimentos e problemas e continuar com suas vidas. Que o ser humano é mais forte do que seus temores interiores, do que o preconceito com o desconhecido. Que não precisamos ser hostis com grupos sociais diferentes e pessoas que não compartilham com os valores sociais tradicionais. Há espaço para todos. Todos podem dialogar de forma pacífica.

Em tempos de ódios arraigados, estes dois longas parecem um convite à paz e à tolerância. Uma voz do passado que nos lembra que o futuro pode ser melhor do que o clima de hostilidade em vários locais do mundo.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, trabalhei em cinema .
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