a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Altinho: um lazer com polêmicas elevadas

Um jogo democrático, saudável, ambientalmente amigável e inclusivo, o Altinho ( ou Altinha) é uma atividade apaixonante. Ele, porém, suscita forte polêmica em torno do uso do espaço público. Afinal, todos querem desfrutar das áreas comuns (em geral as praias) de forma saudável e segura.


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Em um final de semana de outono carioca, uma cena encantadora chama a atenção dos banhistas: a alta concentração de rodinhas de Altinho nas praias da Zona Sul desde muito cedo. É comum que em dias assim com pouco calor, as areias se encontrem praticamente desertas. Neste final de semana, todavia, vários grupos de altinho se espalhavam pela beira do mar.

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Acredita-se que a prática do Altinho, ou Altinha, tenha tido início nas areias cariocas no decênio de 1960. Há relatos que as primeiras rodinhas de praia deste jogo foram proibidas pela polícia durante o Regime Militar. Seus praticantes teriam continuado, então, sua prática em outros lugares.

Hoje, o Altinho é amplamente difundido nas praias cariocas. Bastante democrático e acessível, é um jogo que exige apenas uma bola de futebol de praia como equipamento necessário. Bem mais simples do que o futebol, o Altinho requer apenas dois jogadores, para que possa ser jogado. Não possui muitas regras estabelecidas. Seu objetivo maior é que os jogadores mantenham a bola no ar o tempo mais longo possível. Para isso, vale quase todos os movimentos do corpo, menos usar as mãos, braços e ante braços.

Assim, trabalha-se diversas partes diferentes do corpo, como os glúteos, as panturrilhas, o abdômen e panturrilha, quadríceps e a cabeça. Como é jogado na areia e com o mínimo de regras, os movimentos podem ser os mais variados possíveis, valendo desde a bonita e estilosa bicicleta do futebol até passes realizados com os traseiros. Muito interessante de se assistir, e oferece fotografias e estudos os mais variados dos movimentos humanos.

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Uma característica fascinante desta atividade é que ela não é competitiva, é extremamente lúdica. Os jogadores todos procuram se ajudar, para que o jogo possa dar certo. Neste aspecto, lembra muito o frescobol. A respeito deste esporte de raquetes, vale citar a crônica Relacionamentos Tênis e Futebol, de Rubem Alves, na qual reproduzirei um trecho um pouco mais longo aqui, mas que vale super à pena para se entender o aspecto lúdico do frescobol e do Altinho:

"Frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra. O erro de um, no frescobol, é um acidente lamentável que não deveria ter acontecido. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho prá lá, sonho prá cá....
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão.. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração.

O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres ao vento. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha, para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para
que o jogo nunca tenha fim..."

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Para mim, o Altinho vai ainda além, já que ele integra maior número de pessoas. Pratica-se a cooperação e o espírito de equipe. Exercita-se o respeito ás potencialidades e às deficiências do Outro. É claro que como em tudo na vida, há, não raro, uma ou outra pessoa que procura ser a estrela do jogo e aparecer mais do que os demais. Esta pessoa, porém, logo descobre que mesmo para brilhar ela depende que o outro lhe ajude. Se não, fica, literalmente, de bola baixa.

Como outros jogos que são executados em praias públicas, o Altinho também possui a interessante característica de ser uma atividade democrática e agregadora. Diversos estudiosos das áreas humanas acreditam que por ser um lugar totalmente despojado, as praias suscitam maior integração entre os frequentadores. Tenho um tio avô que jogou vôlei durante vinte anos em uma rede em Ipanema e relata que um dos jogadores mais prestigiados de sua equipe era um dos caras mais duros, enquanto o que tinha mais dinheiro era sempre escolhido por último.

Nas rodas de Altinho, pode-se ver claramente a transformação que têm passado as atividades baseadas na distinção de gêneros sexuais. E isto é muito bacana nesta atividade. Se a divisão entre gêneros sexuais é marcada em diversos esportes, no Altinho a mistura é fato corriqueiro. Mulheres e homens jogam de igual para igual. Em cooperação. Deixando de lado, totalmente, os ultrapassados e chatos "clubinhos de Bolinhas e Luluzinhas".

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E não é só estas as divisões que caem por terra... Pelos ares vão-se também preconceitos entre gerações. Frequentemente, vemos rodinhas de Altinho formados por jovens adultos, crianças e idosos, cada um respeitando as habilidades e os limites do Outro e torcendo pelo êxito comum de não deixar a peteca (ups, a bola) cair !

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Mas nem tudo são nuvens de algodão no Altinho. A convivência harmoniosa no espaço público não é uma tarefa simples. Há leis que regulam horários e espaços permitidos para esta atividade. A sua prática nas porções mais próximas da linha do mar é proibida nos picos horários de maior movimento do dia. Assim como o frescobol, as rodinhas de altinho não apenas disputam espaços com os banhistas, como também podem ocasionar acidentes. Uma bolada pode causar machucados severos. O vigor de seus movimentos pode acabar ocasionando chutes e cotoveladas, por exemplo, em banhistas próximos. E, nestas circunstâncias , bem como o frescobol, o Altinho deixa de ser um jogo de inclusão, para ser um motivo de disputa de espaço público. Assim, como todos os campos de convivência pública, acredito que deva, sim, haver uma intermediação , uma regularização, que torne o uso da praia agradável para todos.

Em nosso balneário carioca, na prática, contudo, estas normas são frequentemente flexibilizadas não apenas pelos praticantes deste jogo (a exemplo de outras atividades reguladas praticadas em espaços públicos), como também pelas próprias autoridades fiscalizadoras.

Penso que esta flexibilização não é por si só nem boa, nem ruim. Sou favorável há normas que regulem os espaços públicos. Mas acredito que, acima de tudo, o discernimento social das pessoas deveria ser um fator de constante auto-reflexão quando se atua em espaços coletivos. Da mesma forma que uma bolada de Altinho ou de futebol pode machucar uma pessoa, um jogo inocente de crianças com petecas, por exemplo, também pode causar razoável estrago. Crianças correndo pela praia e jogando areia para todos os lados é outra atividade que pode tirar a paz de muitos banhistas. Jogos infantis com bolas oferecem, de igual modo, riscos de machucar quem está por perto.

O ideal seria que as pessoas tivessem o cuidado de verificar se o que estão fazendo em espaço público está incomodando as demais. Neste final de semana de outono, por exemplo, as diversas rodas de Altinho na praia mais esvaziada dava uma sensação gostosa, de um lugar lúdico. Tinha espaço para todos. Parecia um cenário totalmente distinto das lotadas praias de verão, com as frequentes ameaças de arrastões.

Pairando no ar, apenas a camaradagem de uma atividade bacana, praticada em uma das praias mais bonitas do mundo. Fez-me sonhar que um dia a minha cidade natal irá voltar a ser um balneário atrativo e seguro para todos, no qual, para se divertir, precisa-se de pouco. Muito pouco.

O muito que nos é dado pela generosidade e exuberância da natureza carioca.

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Obs: Todas as fotografias foram tiradas do meu arquivo pessoal de clicks.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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