a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Amor Materno: Como Sílvia teve de esquecer a filha para sobreviver

Sílvia é uma mulher forte, que já tinha enfrentado a violência duas vezes, em sua família nuclear e, depois já casada, com o marido. Saiu de casa, criou a filha sozinha. Por circunstâncias do destino, agora, vê-se diante da pior forma de violência: a tortura. Para preservar a vida da filha, suporta as piores dores que lhe são infligidas. Para sobreviver, porém, terá de matar seu enorme amor materno.


breakfast-in-bed-mary-cassatt.jpg
Pintura:Breakfast in bed. Mary Cassat

Fechou os olhos e começou a falar.
As vezes, a memória dos fatos vinha com dificuldades, falhava.
Começou a relatar sua infância, sua origem humilde.

Ela era a sexta filha de Maria e Rivelino. Quando Sílvia tinha apenas oito anos, a mãe abandonara o pai, levando a prole de cinco bocas para alimentar, corpos para vestir e mentes para educar.

Seus pais brigavam muito. A mãe, a solteirona que se casou com o bêbado da cidade, não tolerava álcool. Quase todas as brigas tinham início quando o pai chegava em casa depois de uma noitada de bebedeira e “perdição” com os compadres. Silvia perdeu o número das ocasiões em que ficara até tarde da noite esperando ele voltar para casa.

Maria era uma mulher simples e religiosa, que prezava a família acima de tudo. Apesar de muito jovem, a menina sabia que a mãe era boa pessoa, que o pai era o responsável por todos os confrontos. Ela sempre tentava interromper aquelas cenas de horror, só não conseguia entender por que a mãe não se trancava no quarto.

Teimava em esperar o marido!
Insistia em apanhar até não agüentar mais.
Sílvia respeitava e admirava muito sua mãe, mas não entendia seu comportamento.

De qualquer forma, tentava defender a mãe. Assim que percebia que a mãe se preparava para mais uma longa noite de espera, corria para a cozinha e, escondida, agarrava uma xícara de café e a tomava avidamente. Seu corpo pequeno estremecia, excitava-se com a entrada de cafeína na circulação. Com essa overdose de café, conseguia se manter enroscada ao longo do corpo da mãe sem cair no sono, durante longas horas.

Acreditava que tinha o dever de impedir as brigas entre seus pais. Sabia que, no final das contas, sua mãe acabava sofrendo durante dias as dores causadas pelas surras que o pai lhe aplicava, quando transtornado pela bebida, vingava-se de todos as privações e dificuldades que a vida lhe infligia.

Naquelas noites de calvário, os acontecimentos desenrolavam-se inevitavelmente na mesma sequência.

Com o cair das noites, as demais pessoas da casa preparavam-se para dormir.

Primeiro a avó idosa, amparada pela nora, lavava os dentes podres e, com os dedos, retirava o resto de angu que sempre se prendia nos poucos dentes de trás da boca. Depois, ensaboava o rosto ressecado e, por fim, retirava os paninhos que impediam que a urina molhasse suas roupas durante o dia.

Maria gostava de examinar de perto a higiene da sogra. Tinha ojeriza ao fedor que a velha exalava quando deixava a farinha fermentar em sua bochecha ou quando ela esquecia de trocar seus trapos por muitos dias e o mijo impregnava pelo corpo pelancudo.

Sim, sua mãe era boníssima, cuidava de todos da família com muito esmero. Sílvia gostava de assistir aquele ritual, gostava de observar o cuidado que a mãe tinha com o asseio das pessoas de sua casa. Como sua mãe, ela tinha repugnância à sujeira e à preguiça. Desde de muito nova, orgulhava-se da limpeza de sua casa. Era a mais cheirosa da rua.

No seu bairro, as casas vizinhas tinham cheiro de mofo, de roupa que é passada ainda molhada.

Sua casa, sim, era um lugar que se podia chamar de lar!

Colchas de crochê cobriam os dois sofás encardidos e corroídos pela linhagem familiar. A cozinha tinha sempre panos de pratos bordados com motivos alegres. Bonitas fotografias em preto e branco das crianças decoravam a sala.

Ah, sua mãe era esplêndida, conseguia tirar água de pedra.

Balançou a cabeça e saiu de seu devaneio. Devia tudo o que tinha de bom a sua mãe. Especialmente, seu caráter, seu amor pela própria filha.

Voltou a falar sobre as inúmeras brigas dos pais. Naquele momento, sentia incontrolável necessidade de falar sobre este assunto.

Lembrou-se de como ela insistia para que as irmãs também ficassem acordadas, em vigília, esperando pela chegada do pai. Nenhuma delas, contudo, parecia ter tanta perseverança, se preocupar tanto em impedir que, mais uma vez, a mãe fosse surrada.

Heloísa, a mais velha, já havia casado e saído de casa.
Bom para ela, arrumou um marido que não lhe batia. Gerusa preparava-se para fazer o vestibular e não tinha tempo para mais nada. Era a única estudiosa da casa, a única que poderia vir a ser “gente”, como costumava afirmar os tios. Gioconda bem que tentava esperar, tentava deter o inevitável junto com a irmã caçula, mais era epilética, e na maioria das vezes, sentia um sono incontrolável sono.

Luísa e Fabrícia, embora mais velhas do que ela, pareciam dois grandes bebês, dormiam as sete horas da noite, as imprestáveis, pensava a pequena Silvia na época. Já adulta, sentia uma culpa tremenda por ter sido tão burra e ter desejado tantas vezes “que aquelas egoístas, preguiçosas, apodrecessem no inferno”, pelo descaso que ela achava que as irmãs tinham com a mãe.

Quando aprendeu mais sobre abuso, sobre a maldade que pode se esconder dentro de um ser humano (principalmente dentro de homens tomados pela bebida) Sílvia, entendeu, sem nunca precisar tocar no assunto com elas, que na verdade, as irmãs tinham pavor do pai!

Mas, quando meninas, Sílvia ainda não era capaz de reconhecer a verdadeira maldade do pai, como também não sabia porque ela e Gioconda eram as únicas filhas que se dispunham à tormenta da espera e ao terrível desfecho que tinham àquelas noites.

Completamente absorta em suas lembranças, Sílvia assustou-se com a voz que lhe mandava ir direto ao assunto .... sem mais rodeios! Aquele “lenga lenga”, frisavam seus interlocutores, não tinha nada a ver com o quê eles queriam saber.

Ela sorriu resignada e continuou na sua arrastada narrativa.

Naquela noite, no dia 8 Junho de1955....

Novamente foi lembrada de que suas memórias não interessavam a ninguém. Deveria responder ao que lhe havia sido perguntado, e nada mais.

Ela não sabia exatamente por quê, mas naquele momento sentia enorme desejo de relembrar o passado, não era algo que fizesse deliberadamente; apenas não conseguia parar de pensar no sofrimento de sua mãe, de como abdicou de si própria, de seu bem estar, para preservar suas filhas.

Ignorando a advertência recebida, prosseguiu em tom monocórdio. A pior noite de todas acontecera naquela data. Como de costume, as 21:30 a avó já tinha ido dormir, a mãe terminou seus afazeres, sentou-se no banquinho da varanda e pôs-se a lastimar pela demora do marido. Sílvia correu para cozinha e engoliu uma xícara de café, queria acompanhar a mãe em seu martírio. Naquela noite, Gioconda também resolveu esperar.

O Pai chegou de madrugada. Chegou de mansinho. Empurrou a porta devagar, cuidando para que não rangesse muito. Deu o primeiro passo dentro de casa, tropeçou e caiu, derrubando a mesinha da sala. Assustada, Gioconda despertou e começou a gritar, parecia o início de um surto epiléptico. Nessa hora, Sílvia intuiu, pela primeira vez, os motivos que levavam sua mãe a esperá-lo, quando chegava de suas bebedeiras.

Antes, considerava a atitude da mãe uma idiossincrasia em seu caráter. Era estranho, mas ela que gostava de apanhar, não sabia evitar ser espancada. Suas irmãs mais velhas, há muito haviam aprendido a se trancar no quarto.

A infeliz da mãe, no entanto, tinha que chacoalhar o marido, até que ele, exaurido pelo brutal esforço dos muros, pontapés e mordidas que raivosamente desferia contra a mulher, caísse no chão e dormisse no meio da própria urina.

Depois que ele desmoronava no concreto, ela lhe futucava as costas, certificando-se de que ele não tinha condições para se levantar daquela deplorável posição. Somente então, e aos poucos, ela tentava recuperar-se física e mentalmente das agressões sofridas.

Primeiro, ia ao banheiro e tomava um bom banho. Em seguida, cuidava de seus ferimentos. Em uma ocasião, Dona Maria confessou à filha caçula que seu corpo se regenerava com facilidade.

Inegavelmente, ela tinha boa saúde, o que lhe permitia passar por aquelas provações sem maiores danos. Seu coração e sua alma, no entanto, guardavam profundas cicatrizes que sangravam constantemente, purgando o veneno, o ódio e a revolta que sentia do marido, da pobreza, da falta de oportunidades que teve ao longo de sua vida e, até mesmo, de Deus, a quem ela idolatrava, mas que lhe reservava apenas miséria e tristeza.

Naquele dia, porém, os acontecimentos ocorreram de forma distinta. Ao ouvir os gritos de Gioconda, que já havia tombado no chão se contorcendo, a mãe correu para acode-la. Vendo a mulher acocorada no chão, com as mãos ocupadas segurando a filha que se debatia, o marido pegou a pequena mesa que havia chutado e bateu em sua cabeça. Ela desmaiou. Sílvia gritava horrorizada. O pai avançou em sua direção, mas, subitamente, mudou de ideia e, trôpego, rumou para o quarto das outras meninas.

Ela suspirou aliviada, sem entender, contudo, o que ele ia fazer.

Ele tomou impulso e lançou-se de encontro à frágil porta do quarto das adolescentes. Horrorizadas, Gerusa, Luísa e Fabrícia encolheram-se em suas camas. Descontrolado, o homem ria de nervoso e bradava que ninguém nunca mais o impediria de tomar para si o que ele, como provedor da casa e chefe da família, tinha o direito de usufruir.

Suspendeu Gerusa pelos cabelos e a imobilizou. Com a boca, rasgou sua camisa. Arfante, começou a lamber seus seios. Nesse momento, sentiu uma pontada nas costas. A faca penetrou-lhe, primeiro na região torácica, depois na lombar, e por fim, na cocha. O bêbado estatelou-se de rosto no chão, no meio de uma enorme poça de sangue.

Sem perder tempo, Maria reuniu suas filhas e fugiu de casa. Sílvia nunca mais viu seu pai. Ela e suas irmãs não sabiam se ele estava vivo ou morto. Que sobrevivera a facada, elas sabiam. Sua mãe era muito católica, não suportaria viver sem saber se tinha ou não matado alguém.

Novamente, Sílvia foi interrompida. Dessa vez, foi tratada de forma mais áspera. Ordenavam-lhe que parasse com toda aquela baboseira e fosse direto ao que interessava.

Ela não era dada à introspecção. Era inteligente, porém, muito prática. Não era do tipo de pessoa que se preocupa em entender o porquê de suas atitudes, mas naquele momento entendeu o caráter nobre de sua mãe, os sacrifícios que havia feito por causa das filhas.

Recomeçou a falar : quando fugimos da Paraíba, viemos para o Rio de Janeiro. Minha mãe tinha parentes aqui...

O rapaz que estava sentado ao seu lado pegou em seu braço violentamente advertindo-lhe que ela estava lá para falar da filha e não de si própria.

Heloísa era uma menina de ouro, que só lhe dava alegrias.

Ela não tinha pai. Como sua mãe, Sílvia casara-se com um alcoólico. Ao contrário de sua mãe, porém, logo, logo, descobriu o verdadeiro caráter do marido.

Ainda grávida, saiu de casa. Por mais que amasse seu marido, nunca deixaria que fizesse com a filha o que seu pai havia feito com suas irmãs. Sim, ela fugiu de casa, sem deixar rastro.

Seu marido sequer soube que estava esperando um bebê. Sacrificou seu amor, mas livrou a filha dos perigos que aquele homem representava. Apesar de acreditar que seu marido era um bom homem, que tinha um bom coração, que era respeitador e digno de confiança, não podia arriscar.

Por sua filha, ela daria o mundo. O mundo todinho. Daria o fígado. E, mais do que nunca, tinha a certeza que daria os dois rins . Sim, os dois rins...

Perdendo a paciência o homem magro e com voz estridente ordenou, novamente, que parasse de falar de si própria. Suas lembranças não eram nem um pouco relevantes.

Agarrando os pulsos de Sílvia, perguntou-lhe se ela tinha a menor ideia do que estava acontecendo ou se de fato era uma mulher muito tapada, que achava que os poderia enganar com sua choradeira.

Os outros quatro homens pediram que ele se acalmasse. O mais alto dos cinco observou que a mulher parecia estar em transe. Em sua opinião, ela já tinha percebido muito bem a gravidade da situação e, apavorada, tinha entrado em choque.

Chorando, Sílvia murmurou que não saberia separar a história de sua filha dos acontecimentos de sua própria vida. Se desejavam que ela contasse todos os detalhes do cotidiano de Heloísa, ela teria que evocar os fatos da própria existência.

O chefe do grupo, que, até então, mantivera-se calado, entediado no canto da sala, concordou que a mulher prosseguisse, advertindo-a que a ouviria até a manhã do dia seguinte. Era tarimbado naqueles assuntos. Sabia que certas pessoas careciam de pensamento linear. Talvez, se permitissem que ela narrasse os acontecimentos de seu próprio jeito, poderiam descobrir detalhes que sobre pressão provavelmente não lembraria.

Mesmo assim, vociferou, ela não deveria abusar de sua paciência: ela tinha um prazo para falar; ele tinha obrigações para cumprir. Até o amanhecer do dia, ela deveria desembuchar o que eles precisavam saber, ai , então, ele estaria pronto para agir, para acabar com a ameaça que assombrava os negócios de seu protetor.

Era um homem paciente. Vira muita gente se perder na vida por imprudência. Quando jovem, também fora muito impaciente, imprecavido. Seus descuidos, sua premência de conseguir alcançar seus objetivos rapidamente e com pouco esforço lhe renderam dois anos de reclusão forçada.

Além do mais, ponderava, ali estava uma mulher simples, que , como suponha, tinha apenas um amor na vida: a filha.

O amor materno era um inimigo ameaçador, aquele que remove montanhas, que morre de fome, que se deixa matar para que sua cria sobreviva. Já havia visto muitas mães de marginais morrerem por causa de seus filhos bandidos. Essa mãe, certamente, não cederia. Deixaria que a trucidassem por carinho a sua preciosa filha.

A informação que necessitava era muito valiosa. Para obtê-la, estava determinado a agir com cautela, aturar horas de conversa fiada ...

Demais a mais, a menina não havia feito nada de errado. Ele sabia que a informação de que eles necessitavam não era uma delação de algum passo errado que a moça havia dado.

Pelo contrário, ela era muito responsável, bom caráter e muito, muito bonita. Era, de fato, uma preciosidade. Esses, contudo, eram detalhes insignificantes para ele. Mesmo assim, temia perder o controle quando estivesse frente a frente com àquela deusa. Nunca se envolvia com pessoas relacionadas a seu trabalho. Agia sempre com o sangue frio, calculando todos os fatores e variáveis envolvidos em seus atos.

Em sua opinião, o sexo era um elemento que tirava o sujeito de seu prumo, que o tornava inábil.

Assim, o relato continuava. Ora de forma encadeada, compreensível, ora desordenadamente.

Após sair de casa, Sílvia trabalhou durante alguns anos como empregada doméstica na casa de um advogado. Depois, de três anos, ele a contratou para ser sua secretária.

Este emprego permitiu que proporcionasse boa educação para a filha. Desde o Jardim da infância, a filha estudara em colégios particulares. Naquele tempo, elas moravam em um quitinete no Grajaú. Um lugar muito bom. Pequeno, no entanto, bem limpo. O fundo de suas panelas pareciam espelhos, não tinham nenhum resquício de gordura.

O homem magrelo encheu-se de cólera. Para ele, aquela mulher era muito esperta e estava conseguindo enganá-los direitinho. Ele argumentava que, apesar de eles terem até o dia seguinte para dar um jeito no doutorzinho, desejava acabar aquele trabalho e ir para casa, tomar um banho, se organizar para o próximo trabalho.
Há dois dias que estavam sem dormir, sem comer uma comidinha caseira e sem se lavar. O chefe refletiu e concordou que os procedimentos deveriam ser apressados. Não queria extenuar demais seus homens.

Enquanto os quatro homens a rodearam, o Chefe começou a gritar com ela, perguntando-lhe quais locais sua filha costumava frequentar com o “doutorzinho”.

A mulher abriu os olhos, e começou a chorar. Até o momento não tinha sentido medo, era como se estivesse apenas rememorando acontecimentos passados. Agora, porém, queriam que entregasse sua filha. Ela emudeceu. Nada nesse mundo iria forçá-la a falar sobre Heloísa.

Há dois meses que elas não se encontravam. Desde de que Mário havia condenado o chefe do tráfico da Zona Sul há vinte e cinco anos de prisão, ele e sua noiva estavam escondidos sob proteção da Polícia Federal. Dois parentes do doutorzinho já haviam sido mortos, o pai e o irmão mais velho.

Sílvia não tinha a menor idéia do paradeiro deles, contudo, estava disposta a calar-se, a não falar nada que pudesse comprometer a segurança da filha.

O homem careca começou a acariciar Sílvia. Com rispidez, o Chefe, lembrou-lhe que estupro ou qualquer outro tipo de perversão sexual eram meios banidos de seus métodos de trabalho.

O careca se irritou, bufou e abotoou a calça.

Seu desejo de violência cresceu. Ele agarrou a mão de Sílvia e quebrou seu dedo indicador. Ela não imitiu sequer um gemido. A cada cinco minutos de interrogatório mal sucedido, ele atacava um novo dedo da mulher.

Bravamente, ela se calava. Agora era guerra! Ela decidiu que não iria falar mais uma única frase, nem sobre seu passado, nem sobre a filha ou seu noivo. Como a mãe, Sílvia era uma guerreira que faria de tudo pra proteger seu rebento.

Após ter quebrado todos os seus dedos, eles amarraram-na a um pau de arara. Ela desmaiou. Deitaram-na no chão e jogaram gasolina em seu corpo. O magrela acendeu um fósforo e ameaçou incendiá-la.

Ela resistiu. Sabia que aquilo era um blefe. Era esperta. No escritório de advocacia onde trabalhava, escutava falar das formas de coerção que os bandidos usavam para intimidar suas vítimas. Sabia que necessitavam dela viva. Não entregaria sua filha por nada nesse mundo; mais uma vez, lembrou-se da mãe, de seu carinho, de como seu mundo resumia-se a felicidade das filhas.

O Chefe, que até então se mantivera no canto do barraco apenas observando os acontecimentos, caminhou em sua direção, meteu as mãos numa sacola de lona que estava perto da janela, e pegou um pedaço de madeira cravejado de pregos. Se aquela mulher tinha a seu lado a força de uma leoa defendendo sua cria, ele tinha a seu favor o indescritível prazer que sentia em causar sofrimento, em presenciar a transformação de seres humanos em vermes rastejantes, que imploravam por um pequeno gole de água retirada da latrina para beber depois de horas a seco.

Bateu com a ponta dos pregos nas costas de Sílvia , o sangue jorrou por suas pernas. Nesse momento, ela urrou de dor, e, propositadamente, começou a falar enlouquecidamente sobre a filha. Acreditava que nada do que dissesse iria delatar o paradeiro de Heloísa, o qual, realmente, desconhecia totalmente.

A filha era ótima menina, boa, boa, boa ... Garota de ouro mesmo.

Desde os 16 anos, que ela se sustentava por conta própria, chegou, até mesmo, a ter dois trabalhos diferentes. Comprava suas roupas. Pagava seu plano de saúde. Ajudava nas contas da casa.

O Chefe pigarreou contrariado e aplicou-lhe um soco no estomago.

Sim, a filha era gerente de uma confecção paulista de roupa. Mário a conheceu quando foi comprar um presente para sua mãe em uma das lojas que Sílvia supervisionava. As boutiques eram especializadas em roupas para gordinhas. A mãe de Mário era muito obesa, vivia de dieta, mas não adiantava, ela não conseguia se controlar, assaltava a geladeira de noite.... Vivia mais tempo em Spas do que na própria casa,

O cassetete novamente acertou Sílvia, desta vez, quebrou-lhe os dentes superiores da frente. Chorando, ela tentou continuar a falar. Mas novas cacetadas acertaram-lhe o rosto.

O chefe tornou-se mais violento. Pegou o revólver e atirou em seus joelhos. Riu de contentamento. Já sabia o que desejava. Como eles podiam ter deixado de procurar em um lugar tão óbvio. Seu patrão não tinha prática em investigar a vida das pessoas. Mas o “Chefe” era esperto demais, profundo estudioso do comportamento humano. Gostava de intuir as qualidades e fraquezas de cada pessoa.

Pela sua experiência em trabalhos anteriores, sabia que ao fugir, ao esconder-se para proteger suas vidas, os indivíduos buscavam lugares familiares. Nessas situações, eles já estão aterrorizados, insones e, muitas vezes, famintos.

Desejam encontrar soluções fáceis. Um refúgio que lhes transmita o mínimo de segurança. Um abrigo conhecido. Um porto seguro.

Não há como se sentir a salvo em um local totalmente novo. O pavor já é suficientemente grande, o sujeito não consegue assimilar as peculiaridades de um lugar em que se chega pela primeira vez, de conviver com a ameaça de perigos desconhecidos. A exaustão dos fugitivos é a melhor aliada de seus perseguidores.

Ele poderia até estar errado, mas naquele momento apostava todas as suas fichas nos SPAs de luxo da cidade, de preferência, aqueles em que Dona Maria do Carmo já tivesse se hospedado.

Além do mais, desejava acabar logo com aquele interrogatório. Tinha a certeza de que, conscientemente, aquela infeliz não trairia a sua filinha.

Depois que a excitação da vitória havia passado, descarregada numa explosão de violência, já ansiava por comprovar sua tese. Ordenou que seus homens investigassem os SPAs de todo o Estado do Rio de Janeiro e deu mais quatro tiros na mulher.

Testemunha boa, é testemunha morta! Pensou.

Partiu no início da madrugada.

Três dias depois, Sílvia acordou na Unidade de Tratamento Intensivo de um Hospital particular em Ipanema. Uma enfermeira massageava a sola de seu pé direito. Abriu os olhos e deparou com o namorado em pé, ao lado de sua maca. Sílvia estava ainda completamente tonta. Mesmo assim, no momento em que cruzou seu olhar com o de Gilberto, soube o que tinha acontecido.

No meio de sua confusão mental, teve um breve momento de lucidez, e sentiu toda a dor do mundo. A aflição de seus piores pesadelos foi condensada em uma horrível sensação de morte, de perda. Sílvia desmaiou.

Os médicos sentiam-se inaptos a traçar um prognóstico do estado da paciente. Não sabiam se ela iria resistir aos terríveis ferimentos e, sobretudo, à perda da filha única.

Ninguém sabia informar se ela estava em coma profundo ou se conseguia entender o que acontecia a seu redor. Em algumas ocasiões, seu rosto se retorcia, seu corpo era tomado por espasmos ela dava gritos guturais, dando a impressão nítida de que ela experimentava profundo desconforto físico e psicológico. Já em outros momentos, permanecia calma, seu rosto parecia relaxado, sereno.

Foi com esta expressão no semblante que recobrou a consciência, quatro meses depois da tragédia. Ao ver que a namorada recobrava os sentidos, Gilberto ficou apreensivo. Chamou o médico. Ao abrir os olhos, Sílvia sorriu para as pessoas que estavam a sua volta. Estava calma. Ainda sentia algumas dores, mas estava bem melhor.

A equipe médica fez-lhe algumas perguntas acerca de seu estado e de seu conhecimento sobre o que havia ocorrido. Sílvia respondeu que sabia que havia sofrido, sofrido muito. No momento, contudo, estava aliviada por ter recobrado a lucidez.

Ela não tinha lembrança de sua filha. Os médicos disseram que provavelmente ela recobraria a memória em alguns meses. Aconselharam a família a retirar de sua casa objetos que pudessem lembrar a filha. A amnésia deveria passar por conta própria, ninguém deveria força-la a lembrar nem dos fatos, nem da filha.

No dia em que voltou para casa, Sílvia estava radiante. Afinal, estava viva. Em sua mente, havia enormes lacunas que a incomodavam, por mais que se esforçasse, não as conseguia preencher; mas sentia felicidade por ter sobrevivido. Foi esse o sentimento que a acompanhou pelo resto de sua vida.


Fechou os olhos e começou a falar.
As vezes, a memória dos fatos vinha com dificuldades, falhava.
Começou a relatar sua infância, sua origem humilde.

Ela era a sexta filha de Maria e Rivelino. Quando Sílvia tinha apenas oito anos, a mãe abandonara o pai, levando a prole de cinco bocas para alimentar, corpos para vestir e mentes para educar.

Seus pais brigavam muito. A mãe, a solteirona que se casou com o bêbado da cidade, não tolerava álcool. Quase todas as brigas tinham início quando o pai chegava em casa depois de uma noitada de bebedeira e “perdição” com os compadres. Silvia perdeu o número das ocasiões em que ficara até tarde da noite esperando ele voltar para casa.

Maria era uma mulher simples e religiosa, que prezava a família acima de tudo. Apesar de muito jovem, a menina sabia que a mãe era boa pessoa, que o pai era o responsável por todos os confrontos. Ela sempre tentava interromper aquelas cenas de horror, só não conseguia entender por que a mãe não se trancava no quarto.

Teimava em esperar o marido!
Insistia em apanhar até não agüentar mais.
Sílvia respeitava e admirava muito sua mãe, mas não entendia seu comportamento.

De qualquer forma, tentava defender a mãe. Assim que percebia que a mãe se preparava para mais uma longa noite de espera, corria para a cozinha e, escondida, agarrava uma xícara de café e a tomava avidamente. Seu corpo pequeno estremecia, excitava-se com a entrada de cafeína na circulação. Com essa overdose de café, conseguia se manter enroscada ao longo do corpo da mãe sem cair no sono, durante longas horas.

Acreditava que tinha o dever de impedir as brigas entre seus pais. Sabia que, no final das contas, sua mãe acabava sofrendo durante dias as dores causadas pelas surras que o pai lhe aplicava, quando transtornado pela bebida, vingava-se de todos as privações e dificuldades que a vida lhe infligia.

Naquelas noites de calvário, os acontecimentos desenrolavam-se inevitavelmente na mesma sequência.

Com o cair das noites, as demais pessoas da casa preparavam-se para dormir.

Primeiro a avó idosa, amparada pela nora, lavava os dentes podres e, com os dedos, retirava o resto de angu que sempre se prendia nos poucos dentes de trás da boca. Depois, ensaboava o rosto ressecado e, por fim, retirava os paninhos que impediam que a urina molhasse suas roupas durante o dia.

Maria gostava de examinar de perto a higiene da sogra. Tinha ojeriza ao fedor que a velha exalava quando deixava a farinha fermentar em sua bochecha ou quando ela esquecia de trocar seus trapos por muitos dias e o mijo impregnava pelo corpo pelancudo.

Sim, sua mãe era boníssima, cuidava de todos da família com muito esmero. Sílvia gostava de assistir aquele ritual, gostava de observar o cuidado que a mãe tinha com o asseio das pessoas de sua casa. Como sua mãe, ela tinha repugnância à sujeira e à preguiça. Desde de muito nova, orgulhava-se da limpeza de sua casa. Era a mais cheirosa da rua.

No seu bairro, as casas vizinhas tinham cheiro de mofo, de roupa que é passada ainda molhada.

Sua casa, sim, era um lugar que se podia chamar de lar!

Colchas de crochê cobriam os dois sofás encardidos e corroídos pela linhagem familiar. A cozinha tinha sempre panos de pratos bordados com motivos alegres. Bonitas fotografias em preto e branco das crianças decoravam a sala.

Ah, sua mãe era esplêndida, conseguia tirar água de pedra.

Balançou a cabeça e saiu de seu devaneio. Devia tudo o que tinha de bom a sua mãe. Especialmente, seu caráter, seu amor pela própria filha.

Voltou a falar sobre as inúmeras brigas dos pais. Naquele momento, sentia incontrolável necessidade de falar sobre este assunto.

Lembrou-se de como ela insistia para que as irmãs também ficassem acordadas, em vigília, esperando pela chegada do pai. Nenhuma delas, contudo, parecia ter tanta perseverança, se preocupar tanto em impedir que, mais uma vez, a mãe fosse surrada.

Heloísa, a mais velha, já havia casado e saído de casa.
Bom para ela, arrumou um marido que não lhe batia. Gerusa preparava-se para fazer o vestibular e não tinha tempo para mais nada. Era a única estudiosa da casa, a única que poderia vir a ser “gente”, como costumava afirmar os tios. Gioconda bem que tentava esperar, tentava deter o inevitável junto com a irmã caçula, mais era epilética, e na maioria das vezes, sentia um sono incontrolável.

Luísa e Fabrícia, embora mais velhas do que ela, pareciam dois grandes bebês, dormiam as sete horas da noite, as imprestáveis, pensava a pequena Silvia na época. Já adulta, sentia uma culpa tremenda por ter sido tão burra e ter desejado tantas vezes “que aquelas egoístas, preguiçosas, apodrecessem no inferno”, pelo descaso que ela achava que as irmãs tinham com a mãe.

Quando aprendeu mais sobre abuso, sobre a maldade que pode se esconder dentro de um ser humano (principalmente dentro de homens tomados pela bebida) Sílvia, entendeu, sem nunca precisar tocar no assunto com elas, que na verdade, as irmãs tinham pavor do pai!

Mas, quando meninas, Sílvia ainda não era capaz de reconhecer a verdadeira maldade do pai, como também não sabia porque ela e Gioconda eram as únicas filhas que se dispunham à tormenta da espera e ao terrível desfecho que tinham àquelas noites.

Completamente absorta em suas lembranças, Sílvia assustou-se com a voz que lhe mandava ir direto ao assunto .... sem mais rodeios! Aquele “lenga lenga”, frisavam seus interlocutores, não tinha nada a ver com o quê eles queriam saber.

Ela sorriu resignada e continuou na sua arrastada narrativa.

Naquela noite, no dia 8 Junho de1955....

Novamente foi lembrada de que suas memórias não interessavam a ninguém. Deveria responder ao que lhe havia sido perguntado, e nada mais.

Ela não sabia exatamente por quê, mas naquele momento sentia enorme desejo de relembrar o passado, não era algo que fizesse deliberadamente; apenas não conseguia parar de pensar no sofrimento de sua mãe, de como abdicou de si própria, de seu bem estar, para preservar suas filhas.

Ignorando a advertência recebida, prosseguiu em tom monocórdio. A pior noite de todas acontecera naquela data. Como de costume, as 21:30 a avó já tinha ido dormir, a mãe terminou seus afazeres, sentou-se no banquinho da varanda e pôs-se a lastimar pela demora do marido. Sílvia correu para cozinha e engoliu uma xícara de café, queria acompanhar a mãe em seu martírio. Naquela noite, Gioconda também resolveu esperar.

O Pai chegou de madrugada. Chegou de mansinho. Empurrou a porta devagar, cuidando para que não rangesse muito. Deu o primeiro passo dentro de casa, tropeçou e caiu, derrubando a mesinha da sala. Assustada, Gioconda despertou e começou a gritar, parecia o início de um surto epiléptico. Nessa hora, Sílvia intuiu, pela primeira vez, os motivos que levavam sua mãe a esperá-lo, quando chegava de suas bebedeiras.

Antes, considerava a atitude da mãe uma idiossincrasia em seu caráter. Era estranho, mas ela que gostava de apanhar, não sabia evitar ser espancada. Suas irmãs mais velhas, há muito haviam aprendido a se trancar no quarto.

A infeliz da mãe, no entanto, tinha que chacoalhar o marido, até que ele, exaurido pelo brutal esforço dos muros, pontapés e mordidas que raivosamente desferia contra a mulher, caísse no chão e dormisse no meio da própria urina.

Depois que ele desmoronava no concreto, ela lhe futucava as costas, certificando-se de que ele não tinha condições para se levantar daquela deplorável posição. Somente então, e aos poucos, ela tentava recuperar-se física e mentalmente das agressões sofridas.

Primeiro, ia ao banheiro e tomava um bom banho. Em seguida, cuidava de seus ferimentos. Em uma ocasião, Dona Maria confessou à filha caçula que seu corpo se regenerava com facilidade.

Inegavelmente, ela tinha boa saúde, o que lhe permitia passar por aquelas provações sem maiores danos. Seu coração e sua alma, no entanto, guardavam profundas cicatrizes que sangravam constantemente, purgando o veneno, o ódio e a revolta que sentia do marido, da pobreza, da falta de oportunidades que teve ao longo de sua vida e, até mesmo, de Deus, a quem ela idolatrava, mas que lhe reservava apenas miséria e tristeza.

Naquele dia, porém, os acontecimentos ocorreram de forma distinta. Ao ouvir os gritos de Gioconda, que já havia tombado no chão se contorcendo, a mãe correu para acode-la. Vendo a mulher acocorada no chão, com as mãos ocupadas segurando a filha que se debatia, o marido pegou a pequena mesa que havia chutado e bateu em sua cabeça. Ela desmaiou. Sílvia gritava horrorizada. O pai avançou em sua direção, mas, subitamente, mudou de ideia e, trôpego, rumou para o quarto das outras meninas.

Ela suspirou aliviada, sem entender, contudo, o que ele ia fazer.

Ele tomou impulso e lançou-se de encontro à frágil porta do quarto das adolescentes. Horrorizadas, Gerusa, Luísa e Fabrícia encolheram-se em suas camas. Descontrolado, o homem ria de nervoso e bradava que ninguém nunca mais o impediria de tomar para si o que ele, como provedor da casa e chefe da família, tinha o direito de usufruir.

Suspendeu Gerusa pelos cabelos e a imobilizou. Com a boca, rasgou sua camisa. Arfante, começou a lamber seus seios. Nesse momento, sentiu uma pontada nas costas. A faca penetrou-lhe, primeiro na região torácica, depois na lombar, e por fim, na cocha. O bêbado estatelou-se de rosto no chão, no meio de uma enorme poça de sangue.

Sem perder tempo, Maria reuniu suas filhas e fugiu de casa. Sílvia nunca mais viu seu pai. Ela e suas irmãs não sabiam se ele estava vivo ou morto. Que sobrevivera a facada, elas sabiam. Sua mãe era muito católica, não suportaria viver sem saber se tinha ou não matado alguém.

Novamente, Sílvia foi interrompida. Dessa vez, foi tratada de forma mais áspera. Ordenavam-lhe que parasse com toda aquela baboseira e fosse direto ao que interessava.

Ela não era dada à introspecção. Era inteligente, porém, muito prática. Não era do tipo de pessoa que se preocupa em entender o porquê de suas atitudes, mas naquele momento entendeu o caráter nobre de sua mãe, os sacrifícios que havia feito por causa das filhas.

Recomeçou a falar : quando fugimos da Paraíba, viemos para o Rio de Janeiro. Minha mãe tinha parentes aqui...

O rapaz que estava sentado ao seu lado pegou em seu braço violentamente advertindo-lhe que ela estava lá para falar da filha e não de si própria.

Heloísa era uma menina de ouro, que só lhe dava alegrias.

Ela não tinha pai. Como sua mãe, Sílvia casara-se com um alcoólico. Ao contrário de sua mãe, porém, logo, logo, descobriu o verdadeiro caráter do marido.

Ainda grávida, saiu de casa. Por mais que amasse seu marido, nunca deixaria que fizesse com a filha o que seu pai havia feito com suas irmãs. Sim, ela fugiu de casa, sem deixar rastro.

Seu marido sequer soube que estava esperando um bebê. Sacrificou seu amor, mas livrou a filha dos perigos que aquele homem representava. Apesar de acreditar que seu marido era um bom homem, que tinha um bom coração, que era respeitador e digno de confiança, não podia arriscar.

Por sua filha, ela daria o mundo. O mundo todinho. Daria o fígado. E, mais do que nunca, tinha a certeza que daria os dois rins . Sim, os dois rins...

Perdendo a paciência o homem magro e com voz estridente ordenou, novamente, que parasse de falar de si própria. Suas lembranças não eram nem um pouco relevantes.

Agarrando os pulsos de Sílvia, perguntou-lhe se ela tinha a menor ideia do que estava acontecendo ou se de fato era uma mulher muito tapada, que achava que os poderia enganar com sua choradeira.

Os outros quatro homens pediram que ele se acalmasse. O mais alto dos cinco observou que a mulher parecia estar em transe. Em sua opinião, ela já tinha percebido muito bem a gravidade da situação e, apavorada, tinha entrado em choque.

Chorando, Sílvia murmurou que não saberia separar a história de sua filha dos acontecimentos de sua própria vida. Se desejavam que ela contasse todos os detalhes do cotidiano de Heloísa, ela teria que evocar os fatos da própria existência.

O chefe do grupo, que, até então, mantivera-se calado, entediado no canto da sala, concordou que a mulher prosseguisse, advertindo-a que a ouviria até a manhã do dia seguinte. Era tarimbado naqueles assuntos. Sabia que certas pessoas careciam de pensamento linear. Talvez, se permitissem que ela narrasse os acontecimentos de seu próprio jeito, poderiam descobrir detalhes que sobre pressão provavelmente não lembraria.

Mesmo assim, vociferou, ela não deveria abusar de sua paciência: ela tinha um prazo para falar; ele tinha obrigações para cumprir. Até o amanhecer do dia, ela deveria desembuchar o que eles precisavam saber, ai , então, ele estaria pronto para agir, para acabar com a ameaça que assombrava os negócios de seu protetor.

Era um homem paciente. Vira muita gente se perder na vida por imprudência. Quando jovem, também fora muito impaciente, imprecavido. Seus descuidos, sua premência de conseguir alcançar seus objetivos rapidamente e com pouco esforço lhe renderam dois anos de reclusão forçada.

Além do mais, ponderava, ali estava uma mulher simples, que , como suponha, tinha apenas um amor na vida: a filha.

O amor materno era um inimigo ameaçador, aquele que remove montanhas, que morre de fome, que se deixa matar para que sua cria sobreviva. Já havia visto muitas mães de marginais morrerem por causa de seus filhos bandidos. Essa mãe, certamente, não cederia. Deixaria que a trucidassem por carinho a sua preciosa filha.

A informação que necessitava era muito valiosa. Para obtê-la, estava determinado a agir com cautela, aturar horas de conversa fiada ...

Demais a mais, a menina não havia feito nada de errado. Ele sabia que a informação de que eles necessitavam não era uma delação de algum passo errado que a moça havia dado.

Pelo contrário, ela era muito responsável, bom caráter e muito, muito bonita. Era, de fato, uma preciosidade. Esses, contudo, eram detalhes insignificantes para ele. Mesmo assim, temia perder o controle quando estivesse frente a frente com àquela deusa. Nunca se envolvia com pessoas relacionadas a seu trabalho. Agia sempre com o sangue frio, calculando todos os fatores e variáveis envolvidos em seus atos.

Em sua opinião, o sexo era um elemento que tirava o sujeito de seu prumo, que o tornava inábil.

Assim, o relato continuava. Ora de forma encadeada, compreensível, ora desordenadamente.

Após sair de casa, Sílvia trabalhou durante alguns anos como empregada doméstica na casa de um advogado. Depois, de três anos, ele a contratou para ser sua secretária.

Este emprego permitiu que proporcionasse boa educação para a filha. Desde o Jardim da infância, a filha estudara em colégios particulares. Naquele tempo, elas moravam em um quitinete no Grajaú. Um lugar muito bom. Pequeno, no entanto, bem limpo. O fundo de suas panelas pareciam espelhos, não tinham nenhum resquício de gordura.

O homem magrelo encheu-se de cólera. Para ele, aquela mulher era muito esperta e estava conseguindo enganá-los direitinho. Ele argumentava que, apesar de eles terem até o dia seguinte para dar um jeito no doutorzinho, desejava acabar aquele trabalho e ir para casa, tomar um banho, se organizar para o próximo trabalho.
Há dois dias que estavam sem dormir, sem comer uma comidinha caseira e sem se lavar. O chefe refletiu e concordou que os procedimentos deveriam ser apressados. Não queria extenuar demais seus homens.

Enquanto os quatro homens a rodearam, o Chefe começou a gritar com ela, perguntando-lhe quais locais sua filha costumava frequentar com o “doutorzinho”.

A mulher abriu os olhos, e começou a chorar. Até o momento não tinha sentido medo, era como se estivesse apenas rememorando acontecimentos passados. Agora, porém, queriam que entregasse sua filha. Ela emudeceu. Nada nesse mundo iria forçá-la a falar sobre Heloísa.

Há dois meses que elas não se encontravam. Desde de que Mário havia condenado o chefe do tráfico da Zona Sul há vinte e cinco anos de prisão, ele e sua noiva estavam escondidos sob proteção da Polícia Federal. Dois parentes do doutorzinho já haviam sido mortos, o pai e o irmão mais velho.

Sílvia não tinha a menor ideia do paradeiro deles, contudo, estava disposta a calar-se, a não falar nada que pudesse comprometer a segurança da filha.

O homem careca começou a acariciar Sílvia. Com rispidez, o Chefe, lembrou-lhe que estupro ou qualquer outro tipo de perversão sexual eram meios banidos de seus métodos de trabalho.

O careca se irritou, bufou e abotoou a calça.

Seu desejo de violência cresceu. Ele agarrou a mão de Sílvia e quebrou seu dedo indicador. Ela não imitiu sequer um gemido. A cada cinco minutos de interrogatório mal sucedido, ele atacava um novo dedo da mulher.

Bravamente, ela se calava. Agora era guerra! Ela decidiu que não iria falar mais uma única frase, nem sobre seu passado, nem sobre a filha ou seu noivo. Como a mãe, Sílvia era uma guerreira que faria de tudo pra proteger seu rebento.

Após ter quebrado todos os seus dedos, eles amarraram-na a um pau de arara. Ela desmaiou. Deitaram-na no chão e jogaram gasolina em seu corpo. O magrela acendeu um fósforo e ameaçou incendiá-la.

Ela resistiu. Sabia que aquilo era um blefe. Era esperta. No escritório de advocacia onde trabalhava, escutava falar das formas de coerção que os bandidos usavam para intimidar suas vítimas. Sabia que necessitavam dela viva. Não entregaria sua filha por nada nesse mundo; mais uma vez, lembrou-se da mãe, de seu carinho, de como seu mundo resumia-se a felicidade das filhas.

O Chefe, que até então se mantivera no canto do barraco apenas observando os acontecimentos, caminhou em sua direção, meteu as mãos numa sacola de lona que estava perto da janela, e pegou um pedaço de madeira cravejado de pregos. Se aquela mulher tinha a seu lado a força de uma leoa defendendo sua cria, ele tinha a seu favor o indescritível prazer que sentia em causar sofrimento, em presenciar a transformação de seres humanos em vermes rastejantes, que imploravam por um pequeno gole de água retirada da latrina para beber depois de horas a seco.

Bateu com a ponta dos pregos nas costas de Sílvia , o sangue jorrou por suas pernas. Nesse momento, ela urrou de dor, e, propositadamente, começou a falar enlouquecidamente sobre a filha. Acreditava que nada do que dissesse iria delatar o paradeiro de Heloísa, o qual, realmente, desconhecia totalmente.

A filha era ótima menina, boa, boa, boa ... Garota de ouro mesmo.

Desde os 16 anos, que ela se sustentava por conta própria, chegou, até mesmo, a ter dois trabalhos diferentes. Comprava suas roupas. Pagava seu plano de saúde. Ajudava nas contas da casa.

O Chefe pigarreou contrariado e aplicou-lhe um soco no estomago.

Sim, a filha era gerente de uma confecção paulista de roupa. Mário a conheceu quando foi comprar um presente para sua mãe em uma das lojas que Heloísa supervisionava. As boutiques eram especializadas em roupas para gordinhas. A mãe de Mário era muito obesa, vivia de dieta, mas não adiantava, ela não conseguia se controlar, assaltava a geladeira de noite.... Vivia mais tempo em Spas do que na própria casa,

O cassetete novamente acertou Sílvia, desta vez, quebrou-lhe os dentes superiores da frente. Chorando, ela tentou continuar a falar. Mas novas cacetadas acertaram-lhe o rosto.

O chefe tornou-se mais violento. Pegou o revólver e atirou em seus joelhos. Riu de contentamento. Já sabia o que desejava. Como eles podiam ter deixado de procurar em um lugar tão óbvio. Seu patrão não tinha prática em investigar a vida das pessoas. Mas o “Chefe” era esperto demais, profundo estudioso do comportamento humano. Gostava de intuir as qualidades e fraquezas de cada pessoa.

Pela sua experiência em trabalhos anteriores, sabia que ao fugir, ao esconder-se para proteger suas vidas, os indivíduos buscavam lugares familiares. Nessas situações, eles já estão aterrorizados, insones e, muitas vezes, famintos.

Desejam encontrar soluções fáceis. Um refúgio que lhes transmita o mínimo de segurança. Um abrigo conhecido. Um porto seguro.

Não há como se sentir a salvo em um local totalmente novo. O pavor já é suficientemente grande, o sujeito não consegue assimilar as peculiaridades de um lugar em que se chega pela primeira vez, de conviver com a ameaça de perigos desconhecidos. A exaustão dos fugitivos é a melhor aliada de seus perseguidores.

Ele poderia até estar errado, mas naquele momento apostava todas as suas fichas nos SPAs de luxo da cidade, de preferência, aqueles em que Dona Maria do Carmo já tivesse se hospedado.

Além do mais, desejava acabar logo com aquele interrogatório. Tinha a certeza de que, conscientemente, aquela infeliz não trairia a sua filinha.

Depois que a excitação da vitória havia passado, descarregada numa explosão de violência, já ansiava por comprovar sua tese. Ordenou que seus homens investigassem os SPAs de todo o Estado do Rio de Janeiro e deu mais quatro tiros na mulher.

Testemunha boa, é testemunha morta! Pensou.

Partiu no início da madrugada.

Três dias depois, Sílvia acordou na Unidade de Tratamento Intensivo de um Hospital particular em Ipanema. Uma enfermeira massageava a sola de seu pé direito. Abriu os olhos e deparou com o namorado em pé, ao lado de sua maca. Sílvia estava ainda completamente tonta. Mesmo assim, no momento em que cruzou seu olhar com o de Gilberto, soube o que tinha acontecido.

No meio de sua confusão mental, teve um breve momento de lucidez, e sentiu toda a dor do mundo. A aflição de seus piores pesadelos foi condensada em uma horrível sensação de morte, de perda. Sílvia desmaiou.

Os médicos sentiam-se inaptos a traçar um prognóstico do estado da paciente. Não sabiam se ela iria resistir aos terríveis ferimentos e, sobretudo, à perda da filha única.

Ninguém sabia informar se ela estava em coma profundo ou se conseguia entender o que acontecia a seu redor. Em algumas ocasiões, seu rosto se retorcia, seu corpo era tomado por espasmos ela dava gritos guturais, dando a impressão nítida de que ela experimentava profundo desconforto físico e psicológico. Já em outros momentos, permanecia calma, seu rosto parecia relaxado, sereno.

Foi com esta expressão no semblante que recobrou a consciência, quatro meses depois da tragédia. Ao ver que a namorada recobrava os sentidos, Gilberto ficou apreensivo. Chamou o médico. Ao abrir os olhos, Sílvia sorriu para as pessoas que estavam a sua volta. Estava calma. Ainda sentia algumas dores, mas estava bem melhor.

A equipe médica fez-lhe algumas perguntas acerca de seu estado e de seu conhecimento sobre o que havia ocorrido. Sílvia respondeu que sabia que havia sofrido, sofrido muito. No momento, contudo, estava aliviada por ter recobrado a lucidez.

Ela não tinha lembrança de sua filha. Os médicos disseram que provavelmente recobraria a memória em alguns meses. Aconselharam a família a retirar de sua casa objetos que pudessem lembrar a filha. A amnésia deveria passar por conta própria, ninguém deveria força-la a lembrar nem dos fatos, nem da filha.

No dia em que voltou para casa, Sílvia estava radiante. Afinal, estava viva.

Em sua mente, havia enormes lacunas que a incomodavam, por mais que se esforçasse, não as conseguia preencher; mas sentia felicidade por ter sobrevivido. Foi esse o sentimento que a acompanhou pelo resto de sua vida.

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Foto: Eduarda Amaral


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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