a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

A Volta ao Mundo de Júlio Bittencourt, do Piscinão de Ramos ao Japão, Parte II

Quem escreve ama as palavras. Quem ama as palavras, deleita-se com o som e a grafia delas. O Ensaio "Plethora" já encanta pelo seu título, e em seu conteúdo, Júlio nos brinda com o verdadeiro significado desta palavra: abundância! Exagero !
Tendo as grandes aglomerações humanas como enredo principal, Plethora se divide em nove sub-histórias, que se desenrolam em oito cidades, espalhadas em três continentes distintos. Alinhadas pelo tema central, elas compõem um belo, triste, angustiante panorama estético de um mundo regido pela dicotomia excesso-escassez.


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Como ressaltado no artigo arterior, a grandiosidade deste projeto me fez ter a vontade de dedicar um artigo em separado só para ele. Não dá para falar sobre ele de forma minimalista, en passant.

Plethora é um trabalho grandioso em todos os aspectos.

Para mim, nele Bittencourt marca sua posição como pesquisador e questionador dos grandes temas contemporâneos. A escolha e o escopo deste projeto evidenciam o desejo do fotógrafo de não apenas produzir Arte, mas também de mostrar sua visão sobre o mundo. Um mundo em constante mudança. De excessos, que não raro, coduzem a privações, é esta a realidade que ele parece nos mostrar.

Júlio escolhe um dos temas transfronteriços de maior impacto na vida humana: as aglomerações de pessoas em grandes metrópoles e os efeitos dela sobre o indivíduo e o meio que o circunda.

Em seu instagram, Bittencourt explica que Plethora fala sobre algumas das implicações de aglomerações urbanas, permeadas por um excesso de informações e estímulos (livre tradução minha).

Enquanto que, em Ramos, Júlio direcionou seu olhar para um universo mais específico, com uma temática mais singularizada, elaborando lindo e impactante estudo sobre diversão e estética corporal nas classes menos abastadas, em Plethora ele literalmente extrapola barreiras regionais.

Tecendo um registro digno das Conferências de População da ONU (com ampla produção criativa de fotografias e vídeos), Bittencourt retrata a malaise do choque entre o excesso de gente e a escassez de boas condições de vida, em diferentes áreas.

Brilhantemente, não se atém a investigar somente um contexto específico, já que isso seria limitar o ilimitado, o excesso.

Abundantemente, ele opta por estudar os efeitos da superpopulação em três continentes, fotografando em oito cidades distintas: São Paulo, São João Del Rei, Nova York, Tóquio, Mumbai, Daying, Pequim e Jacarta.

Nestas cidades, Bittencourt desenvolve suas nove sub-histórias (áreas de pesquisa), tecendo um lindo panorama da dicotomia excesso-escassez.

Suas subtramas são:

1 - Plethora -201 – É composta por 27 retratos de pessoas em acomodações de um Hotel Cápsula, em Ueno, Tokyo, Japão.
Este tipo de hotel foi desenvolvido em Tóquio e possui número elevado de quartos extremamente pequenos (cápsulas). Neste caso, dispostos lado-a-lado, os quais provêm acomodação básica barata para o pernoite, para hóspedes que não requerem instalações mais sofisticadas, ou não possuem meios para arcar com os custos de hotéis convencionais. (tradução livre do instagram do fotógrafo)

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2 - Plethora - Tokyo Subway - Série com 44 fotos tiradas de passageiros dentro de vagões de trens, no mêtro da estação Shinjuku Station em Tóquio, Japão.

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3 - Plethora 43 Hours – Em uma empreitada transfronteriça, Júlio registra, em centenas de fotos e vídeos, o trânsito em cinco diferentes cidades, ao longo de três continentes: São Paulo, Nova York, Tóquio, Pequim, Mumbai e Jakarta.

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Interessante que o título “ 43 horas” vem do número de horas que uma pessoa comum gasta no trânsito a cada mês.

4. Plethora - Locked Up 25 – São João del Rei

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Com quase cinco anos de trabalho, esta sub-história faz parte de uma série de retratos tirados dentro da prisão Associação para a Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), em Minas Gerais, Brazil.

Dois fatos que merecem destaque nesta sub-história: Em primeiro lugar, a perspicácia de Bittencourt em escolher inserir o tema Presídio no projeto Plethora. Apesar dos sujeitos retratados estarem em um ambiente fechado (e em condições, em geral, melhores do que as de um presídio comum), a superpopulação urbana e seus excessos, certamente, contribui para que o indivíduo se coloque em situações de atrito com a lei. E o encarcerado sofre com as condições de presídios superlotados.

Em segundo lugar, apesar de ter um tema coletivo como ponto focal de seu trabalho, as lentes - e o coração- de Júlio mantiveram a sensibilidade para olhar para as vicissitudes individuais. Em sua conta do instagram, este fotógrafo relata o drama do preso na fotografia abaixo, cujo o pai não o permite ver a própria irmã.

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5 - Plethora Laudromat 16 – Série composta por 30 fotos tiradas em lavanderias automáticas, em Nova York.

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6 – Plethora 9-5 – Série composta por sessenta fotos, tiradas em escritórios corporativos, em São Paulo.

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7- Dead Sea - Daying – China

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8 – Plethora Co2 – China – Série com 240 fotos ( até o momento ) retratando os efeitos da poluição no ar.

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Como se pode observar, as fotos desta série mostram uma plêiade de conjunturas variadas do cotidiano dos grandes centros urbanos mundiais.
Elas evidenciam a opressão e a contenção a qual o indivíduo está sujeito em locais urbanos com grandes densidades populacionais. O estado de natureza do homem é sobrepujado por um ambiente que lhe impõe regras de contenção em grande parte de sua existência.


A impressão que se tem é a de uma total impossibilidade do sujeito de fugir dos desígnios que o meio lhe impõe. Na prisão, evidentemente, o preso tem de se encaixar ao espaço que lhe é imposto, nos hotéis capsulas também.

Pasmem, contudo! Júlio nos mostra que mesmo a diversão pode ter aspecto massificado em locais com grandes aglomerações.

Reparem a expressão dos banhistas na série "Dead Sea". A alegria se mistura a sorrisos contidos, constritos a uma diversão limitada, contida. Sofrida pelo excesso de iguais.

Ele documenta o corpo que é toldado e moldado em uma representação muito aquém se suas possibilidades

9 – Plethora Untouchables - Mumbai – Índia

Esta subtrama ainda está sendo gestada.

Em todas as circunstâncias retratadas nesta série, o indivíduo parece alheio à própria individualidade.

Interessante o contraste entre dois projetos apresentados nesta série de artigos. Ambos de caráter investigativo social. Em Ramos, vemos o indivíduo em toda a sua espontaneidade. Apesar da pobreza e das vicissitudes inerentes a ela, as pessoas aparentam felicidade.

Já em Plethora, o clima prevalecente é tenso. Como se os limites externos sufocassem a espontaneidade, reduzindo o ser humano à única opção de se enquadrar aos designios da sociedade.

Apesar de tratar de temas, frequentemente, muito áridos, as fotografias de Júlio possuem uma expressão doce. Como se ele tentassem dar um sentido suportável para o que fotografa. Elas nos transmitem uma tristeza poética, que nos possibilita apreciar a beleza, mesmo em situações bastante traumáticas, como as fotografias dos encarcerados.
É como se ele buscasse resgatar a humanidade e a dignidade daqueles sujeitos em sofrimento. Mostrar o resquício de “calor humano” que resta ao indivíduo massacrado por circunstâncias adversas.

Ao invés de nos chocar, nos causando asco, ou repulsa com as situações, as fotos de Bittencourt parecem nos convidar a uma reflexão possível sobre a sociedade que o ser humano está criando para si próprio. Sua criação fotográfica é de grande beleza e suavidade, com espectros de cor, em geral, mais suaves.

Ao longo dos três artigos sobre este fotógrafo, optei por falar de três de seus projetos que mais me cativam. Porém, vale conferir seus outros trabalhos de igual beleza e profundidade como Citizen X e Some Things.

Todos os projetos citados se encontram expostos no website do fotógrafo www.juliobittencourt.com .


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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