a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Atraiçoados: a maldade do preconceito racial em estado bruto

Com uma narrativa sobre um grupo de supremacia branca, Costa Gravas nos leva a refletir acerca da seguinte pergunta: o quanto de maldade humana você está disposto a suportar nos Outros, e em você ? Mas preste atenção: muito cuidado com a sua resposta... O ódio e a indiferença são feras ávidas por alimento, e fazem política de terra arrasada. Destruindo tudo a sua volta, e, dentro de você.



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Todos conhecemos a frase de Hobbes , no qual ele adverte que “o homem é o lobo do homem”. Ela dispensa muitas explicações, não é? Para este filósofo, os indivíduos agiriam sempre no intuito de potencializar os seus ganhos, em um comportamento hedonista, que desconsideraria o bem-estar dos demais. Mas para podermos viver em sociedade, é necessário fazermos concessões, de domar este dragão ávido por satisfazer seus desejos e necessidades.

Em Atraiçoados, longa metragem de 1988, o brilhante cineasta político Costa Gravas propõe uma visão multifacetada sobre o tema preconceito e violência. O enredo conta a história de Catherine (Debra Winger) uma agente do FBI que, para investigar o assassinato de um radialista judeu, se infiltra em uma comunidade de uma cidadezinha no Iowa, nos Estados Unidos. Lá , ela conhece Gary (Tom Berenger), um dos suspeitos na investigação, que é um fazendeiro viúvo, com cara de bom moço e um casal de filinhos.

Interessante que Costa Gravas nos oferece duas perspectivas distintas acerca do racismo. Sob o ponto de vista de Catherine, podemos refletir acerca dos segredos e maldades que conseguimos tolerar nas pessoas a que amamos. Será que podemos relevar pequenos delitos? Mas e as grandes falhas de caráter, será que dá para se conviver com elas ?

A agente do FBI se apaixona pelo charmoso fazendeiro e acaba relevando os primeiros indícios de sua personalidade preconceituosa. Aqui, gostaria de ponderar que o filme é da década de 80, e que, muito diferentemente do que ocorre hoje em dia, piadas racistas ainda eram vistas com certa leniência. Infelizmente, não posso fazer esta distinção e dizer que tais chistes desumanas foram banidas da sociedade brasileira e da estadunidense. Apesar de já termos caminhado muito em termos da defesa dos direitos humanos, a o fortalecimento de grupos sociais de pressão conservadores excludentes racistas em ambos países evidencia como diversas formas de preconceito ainda teimam em persistir e contaminar as relações sociais.

Do ponto de vista da sociedade, Atraiçoados mostra como determinados grupos se utilizam do preconceito contra outros para justificar suas dificuldades socioeconômicas. Dentro desta dinâmica perversa, o Outro é culpado por nossos fracassos e tragédias. Para os supremacistas brancos desta história, os negros e judeus eram responsáveis pelos problemas econômicos e sociais de seu país e deveriam ser eliminados, literalmente.

Mostra, também, o lado mais perverso do preconceito. Nele, o Outro é visto como uma ameaça que deve ser aniquilada. Ele vira um objeto a ser derrotado, abatido. Ao jogar com o contraste entre a aparente normalidade da família estadunidense padrão, com seu chefe de família bonito e de boa colocação na sociedade local, e a monstruosidade de seu comportamento racista, este diretor nos faz ver como não existem pequenas maldades. Que não se deve tolerar “pequenos desvios de crueldade” contra outros seres humanos, pois eles não apenas violentam a quem eles atingem, como também tornam seus praticantes verdadeiros monstros. Sem limites. Destituídos de amor, ao próximo, e a si próprios.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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