a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Mania de dizer a verdade ou a nossa (per) versão da verdade do Outro

Somos criados sob o dogma de que devemos dizer a verdade em todas as circunstâncias. Como se dizer a verdade fosse uma confirmação de que o caráter e as intenções da pessoa são bons. Como se a verdade fosse sempre ajudar ao próximo. Como se ela fosse a única. Mas será mesmo? Na minha experiência o mundo é repleto de histórias, sabores , cheiros... A nossa versão é apenas uma versão ...



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Grafite: Os Gêmeos. Imagem divulgada na internet.

Vivemos em uma sociedade erigida sobre os preceitos Cristãos, a qual confere à verdade um status quase Santo. Somos ensinados desde pequenos que devemos contar a verdade sempre.

Há um tempo atrás, meu filho de nove anos (então) me perguntou se ele deveria sempre contar a verdade. Eu respondi, muito sinceramente, que não. Uma amiga muito religiosa que participava do papo argumentou que mentir era pecado. Que eu não deveria ensinar isto para o meu filho. Disse, também, que se eu ensinasse a ele tal linha de pensamento, nunca saberia se ele estava dizendo a verdade ou não.

Em relação à sua ponderação do comportamento correto a ser adotado, que a atitude Cristã, é sempre dizer a verdade, mesmo que ela fira aos sentimentos dos outros, eu contra argumentei com uma situação real que havia ocorrido comigo e que sempre uso para refutar esse credo cego de que a verdade é sempre usada para ajudar o outro.

Contei a ela que há uns anos atrás fui a maternidade visitar o bebê recém nascido de uma amiga.

O menininho era muito, muito feiozinho. Sim , leitores, bebês podem ser muito feios. Eu olhei para ele e levei um susto. Eu o achei feio demais. Hoje, ele é um garotinho lindo! Mas quando nasceu, era horroroso. E olha que eu amo bebês. Fiquei sem palavras. Tomei ar. Ensaiei uma cara de admiração e proclamei para aquela mãezinha encantada com o seu rebento :
- Que lindinho !

Ela ficou felicíssima. E a “mentirosa” aqui também.
Esse é um caso extremo, no qual acredito que 99,99% das pessoas mentiriam. Ele bem ilustra o que os estadunidenses chamam de “White lies” , que são as mentiras que dizemos para não ferir os sentimentos alheios. Sim, podemos proferir inverdades como uma verdadeira demonstração de amor.

No presente artigo, todavia, falarei sobre mentiras que falamos, ou pretensas verdades que calamos, porque temos o respeito suficiente pela vida do outro, porque nos devemos saber limitados. Devemos ter a consciência de que não somos donos da verdade. Dado que avaliamos que a “nossa verdade” em nada acrescentará a vida da outra pessoa. Pelo contrário, até mesmo uma verdade bem intencionada pode vir a prejudicar, em muito, a vida das outras pessoas.

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O episódio “Strangers on a Treadmill” ( Estranhos numa esteira de corrida) da série estadunidense Modern Family dá um belo exemplo de uma situação na qual devemos calar a nossa real opinião por sabermos que ela não é absoluta. Neste episódio, Phil (Ty Burell) irá ser o anfitrião de um banquete de corretores de imóveis. Sua mulher Claire (Julie Bowen) ao ver ele ensaiar as piadas que pretende dizer no dia do evento fica apavorada de ele passar vergonha, pois acha o seu senso de humor péssimo, e esconde as fichas onde ele fez suas anotações. No dia, Phil não encontra seus registros e faz sua apresentação de piadas de improviso. Para surpresa de Claire, a audiência adora as piadas. Ela se dá conta de como ela estava errada. De que no mundo profissional dele, aquele era o senso de humor apreciado.

Este episódio aparentemente simples nos mostra uma verdade muito sofisticada sobre nossa compulsão a dizer a verdade, sobre a face de generosidade que opiniões não verdadeiras podem ter. Nestes casos, omitirmos nossa opinião verdadeira evidencia a nossa capacidade de sermos empáticos, de entendermos a realidade do Outro. De sairmos da posição de donos da verdade.
Mas, então, porque simplesmente não nos calamos? Porque, em muitas ocasiões, aqueles a quem amamos realmente querem a nossa opinião. Querem compartilhar conosco momentos que são importantes para eles. Querem que nós repartamos com eles as suas alegrias, suas conquistas. Então, devemos nos lembrar que o mais importante é sabermos avaliar a importância que aquilo tem na vida das pessoas e o bem que lhes faz.

É fácil ?

Não, não é fácil!
Sobretudo, porque temos de abandonar a nossa prepotência de nos acharmos conhecedores da realidade, da verdade do que é bom ou não. De reconhecermos que há inúmeras realidades possíveis. Diversas formas e caminhos de felicidade. De abandonarmos a nossa mania de querer colonizar a vida alheia.

Neste sentido, nossa devoção à verdade muito se assemelha à antiga crença que o colonizador tinha de que deveria levar civilização aos povos de sociedades “menos civilizadas", que deveria carregar “o fardo do homem branco” .

Na verdade, o grande desafio que temos é o de nos colonizar, de domarmos nosso enorme ego, de sabermos que a vida do Outro pode ser bem diferente da nossa. De sabermos vibrar por ele, e com ele, em seu mundo.

Assim, nos tornamos astronautas, mesmo sem termos saído da terra: essa viagem mágica se chama empatia.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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