a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Casamento de verdade: Sobre a coragem de darmos às pessoas a quem amamos a chance de mostrar quem realmente são

Como você se sente quando uma mudança em sua vida pode provocar alterações em seus relacionamentos com pessoas a quem ama? Você prefere esconder a mudança? Será que o outro entenderá? E a pergunta que mais nos fazemos, sem que sempre consigamos traduzir : “será que o Outro continuará a me amar"?
O Casamento de Verdade nos oferece uma bela lição quando trabalha o outro lado da história: porque desconfiamos tanto do amor do Outro, desconfiamos tanto que ele não vá nos acolher ?


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Dirigido por Mary Agnes Donoghue, o enredo deste longa tem como narrativa principal a dificuldade de Jenny (Katherine Heigl) em contar para a sua família que ela é homossexual e que pretende se casar com a sua “colega de quarto” , Kitty (Alexis Bledel). Com um elenco de protagonistas sweethearts estadunidenses, esta película passa para muitos como uma leve comédia, sem maiores pretensões. Mas este filme é bem mais do que isso.

Foi neste filme de temática gay aparentemente sem maiores profundidades que ouvi umas das mais sensíveis e sensatas “lições para a vida”, qual seja: confie em quem você ama. Às vezes, escondemos coisas das pessoas por achar que elas não compreenderão, nos rejeitarão. Todavia, quando escondemos coisas de quem amamos, por medo de rejeição, estamos não apenas nos negando a oportunidade de revelar quem realmente somos, como também negando a estas pessoas a oportunidade de nos mostrar quem elas realmente são.

Como você se sente quando uma mudança em sua vida – seja ela simples, seja ela complexa –, pode vir a provocar mudanças em seus relacionamentos com outras pessoas ? Assume de vez ? Vai assumindo aos pouquinhos ?

Foi ao assistir às ponderações do Diplomata e Escritor Alexandre Vidal Porto, no programa Metrópolis: Visibilidade Trans, que comecei a refletir mais sobre a coragem que certas transformações em nossas vidas nos requerem. Convidado para falar sobre o seu último romance à época, Sérgio Y. vai à América, o qual tem como enredo a transsexualidade de seu personagem principal, este autor fala sobre o impacto que assumir uma identidade de gênero ou de orientação sexual pode ter em seus relacionamentos pessoais.

Apesar de seus comentários serem dirigidos a um tema profundo e específico, que é a mudança de orientação de gênero ou sexual, penso que eles suscitam reflexão em diversas mudanças que podemos fazer em nossas vidas. Porto toca em um ponto muito interessante o qual ele chama de “contratos” que realizamos com o Outro. No meu entender, estes contratos dizem respeito aos laços que formamos com as pessoas, em geral.

Laços afetivos, laços profissionais, laços de confiança. Todos eles entrelaçam-se , de forma variada, tecendo os nossos relacionamentos. Eles definem quem somos, quem o outro é, e como o relacionamento ocorrerá.
São formados por aspectos objetivos e subjetivos da interação humana.
Bacana é que tecemos diferentes laços com as diferentes pessoas em nossas vidas. Com cada uma , estabelecemos relacionamentos diferenciados e mostramos, exercitamos, mais determinado aspecto de nossa personalidade ou outro.

Assim, temos aquela amiga/o a quem contamos tudo. Desnudamo-nos. Aquela outra com quem dividimos nossas gargalhadas. Aquela com quem falamos sobre assuntos mais existenciais. Aquela com quem dividimos nossas banalidades. Aquela com quem dividimos vários aspectos de nossa personalidade e assim por diante.

Não penso que devemos falar tudo para todos, ou que somos iguais com todos. São os laços que se estabelecem e que crescem com o tempo que dão a tessitura de cada relacionamento. Mas acredito que os relacionamentos repousam em cima de algumas bases , as quais , quando fazemos mudanças em nossas vidas, temos receio de abalar. E, no meu entender, é sobre isto que Alexandre fala nesta brilhante entrevista.

Quando vamos fazer uma mudança que consideramos importante em nossas vidas, tendemos a pensar qual será a reação das pessoas que amamos, como elas nos tratarão ? Uma mudança de orientação sexual é uma questão que, em geral, desperta reações fortes. Devido a convenções sociais acerca da sexualidade – hoje já mais questionadas – tendemos a achar que uma pessoa é heterossexual. E , nem sei muito ao certo o porquê, a opção sexual de uma pessoa querida pode afetar as demais. Talvez, por que ela suscita o questionamento a respeito da própria sexualidade. Esta é a única resposta a que consigo chegar quando me questiono por que a opção sexual de um indivíduo pode incomodar tanto ao outro.

Em o Casamento de Verdade, uma cena muito bonita ocorre quando ela conta a seu irmão que é gay, e ele responde que já sabia. Ela pergunta por que ele nunca havia mencionado nada a este respeito, e ele responde que ela nunca havia dado a ele espaço para ele lhe mostrar quem Ele era. E isso é um grande ensinamento que este “pequeno” filme nos dá: porque desconfiamos tanto que as pessoas a quem amamos não serão capaz de absorver nossas transformações ?

Por que não damos a elas a oportunidade de nos mostrar quem elas são, de nos mostrar que nos amam ? Este pequeno diálogo nos faz refletir sobre o medo que temos. Se nós consideramos “ correta” a mudança que estamos fazendo , por que quem amamos também não consideraria? Penso que muito de nosso medo passa também pelo receio que temos de constatar que as pessoas que amamos podem nos decepcionar ao não nos aceitarem. Podemos descobrir, por exemplo, que esta pessoa é preconceituosa.

Nem todos os relacionamentos de nossas vidas suportam mudanças de nossas personalidades. Há transformações que realmente abalam de forma abrupta as relações. Em relação à mudança de orientação sexual, por exemplo, o livro Alexis ou O Tratado do Vão Combate -, fala sobre a impossibilidade de um homem continuar casado com sua mulher por ser homossexual. Um dos romances epistolares mais bonitos da literatura mundial , neste livro o protagonista assume em uma carta sua homossexualidade para a sua mulher.
No parágrafo final, ele diz :

“Não tendo podido viver segundo os preceitos da moral estabelecida, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha própria. No momento em que decidimos renegar todos os princípios, é conveniente que conservemos, no mínimo, os escrúpulos. Assumi para contigo compromissos imprudentes que deveria ter mantido por toda a vida.

Peço-te humildemente, o mais humildemente possível, perdão. Não por te deixar, mas por ter ficado por tanto tempo.”

Marguerite Youcenar publicou esta preciosidade de romance em 1929, aos 24 anos. Completamente a frente de seu tempo, com uma maturidade impressionante. Fala de um relacionamento amoroso que terminava, e para o qual, o personagem principal não via outros caminhos.

Neste caso, o temor dele passava muito também em assumir a sua orientação sexual para si próprio. O rompimento foi o único caminho por ele vislumbrado.
Mas Casamento de Verdade versa sobre a dificuldade da personagem principal em revelar a sua orientação sexual para a sua família, pessoas a quem ela ema e com quem continuará a se relacionar. Daí, eu penso, reside o maior desafio, que consiste em promovermos mudanças em nossas vidas e em nossos relacionamentos.
Mudança ! Palavra tão simples e tão complexa. Que, em muitos casos, exige muito maior comprometimento do que rompimentos. Mudar relacionamentos consiste em ser capaz de lidar com o " velho" e o "novo" ao mesmo tempo.

No caso da trama em questão, a mudança de Jenny catalisa uma mudança nas pessoas em seu relacionamento imediato. A sua opção por assumir a sua verdade, incentiva os demais e buscarem relacionamentos mais verdadeiros. Mostra que o Outro pode, sim, estar à nossa altura.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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