a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Era uma vez em ... Hollywood: um Tarantino que percorre a escala entre o sensacional e o sensacionalismo cruel

Pode um longa metragem ser excepcional e muito ruim ao mesmo tempo?
A última história de Tarantino parece nos indicar que sim.
Para mim, o problema de Era uma vez em....Hollywood não é trazer o excesso de violência para um conto de fadas mas, sim, de tentar transformar o macabro em um conto de fadas.



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A você leitor, peço as minhas desculpas desde agora. Não conseguirei fazer um artigo para todos, os que viram e os que ainda não assistiram o filme. Se você não quer spoilers, nem comece a ler este artigo. Veja primeiro o filme, e depois me dê a sua opinião.

Tecidas estas considerações, proponho dois resumos distintos para este longa:

O ponto de vista sensacional, tem como linha condutora a carreira artística de Rick Dalton (Leonardo Di Caprio), um ator Hollywoodiano que luta para sobreviver na complexa indústria cinematográfica no final da década de 1960. Como enredo paralelo, há a forte amizade entre o ator e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt) .

É este enredo que nos move por um conto mágico, que brinca com os aspectos positivos e negativos dos anos dourados de Hollywood. Vimos os bastidores dos estúdios das cidades dos anjos, com suas belezas e seus diabos. Vemos um Di Caprio fazer cenas arrasadoras na pele de seu personagem, e ficamos enlouquecidos torcendo para que um personagem elogie o personagem que o Rick Dalton está desempenhando.

Mostrando a marca já registrada em seus filmes, Tarantino realiza crítica social, neste caso à máquina cinematográfica que consume e depois cospe os seus astros. Evidencia, de igual modo, as disparidades socioeconômicas existentes na sedutora Indústria Cinematográfica. Enquanto Dalton é o ator conhecido, que mora em uma bela casa Hollywoodiana, e desfruta das benesses e do glamour do sonho da Indústria do Entretenimento, Boof é o seu fiel escudeiro que durante o dia goza do sonho das estrelas hollywoodianas, e, durante a noite, dorme na dura realidade de sua vida sem dinheiro, morrando em um trailer, se alimentando a base de macarrão instantâneo.

Porém, o filme tem outra perspectiva mesmo nobre , ao meu ver, que parte de uma tragédia real para uma história de completo mau gosto, que flerta direto com o sensacionalismo mais cruel: o assassinato da jovem atriz Sharon Tate, então grávida de oito meses, por membros da seita liderada por Charles Manson.

Retornando a uma perspectiva de impor uma revanche ficcional a um fato histórico real (como já realizado de forma brilhante em longas como Os Bastardos Inglórios e Django Livre (críticas contundentes ao nazismo e ao racismo, respectivamente), Tarantino propõe desfecho diferente para o macabro assassinato da jovem atriz e de seus amigos presentes em sua casa, no fatídico dia.

Do meu ponto de vista, todavia, Tarantino cruza uma barreira inédita em sua trajetória, e escolhe retratar de forma quase anedótica um dos crimes mais bárbaros da história de Hollywood. A leveza da condução da trama principal da história – as vitórias e os dissabores da carreira e vida de Dalton – quase que embala uma tragédia pessoal num clima de fábula.

O grau de loucura e de doença da Família Manson fica banalizado pelo humor de violência e personagens bizarros (mas não maus o suficiente) de Tarantino. No filme, parece um grupo de hippies meio piradinhos – aliás, não menos pirados do que o próprio Boof, que os confronta no rancho onde estão morrando. Todavia, os seguidores de Manson eram pessoas (muito jovens) fanáticas, as quais direcionavam seu ódio contra uma sociedade da qual se julgavam apartadas.

Se Bastardos Inglórios e Django Livre são enredos que nos propõem, de fato, um certo sentido de justiça, de transformação social possível, o novo drama de Tarantino parece ser apenas uma história que visa a lucrar explorando uma tragédia real, para a qual não há mais justiça; não há nada que aplaque a terrível realidade de que Sharon Tate foi assassinada brutalmente grávida de oito meses. Não há nada que justifique a triste realidade de moças e rapazes jovens que sofreram lavagem cerebral por um fanático religioso desajustado.

Para mim, o problema de Era uma vez....em Hollywood não é trazer o excesso de violência para um conto de fadas, mas sim de tentar tornar o macabro em um conto de fadas. Sharon Tate foi assassinada em 1969 e não é um bater de claquete que irá mudar isto. Nem tudo é Hollywood.

Até agora, a genialidade de Tarantino havia sabido transitar em uma linha muito fina entre o profano e o sagrado, adentrando, com mestria, comportamentos humanos e fatos históricos, por vezes, muito dolorosos.
O respeito à vida humana é sagrado. O enredo de Era uma vez em...Hollywood é apelativo. É desrespeitoso e de muito mau gosto.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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