a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

O Sal da Terra ou a Perfeição do Imperfeito

Ao assistir este documentário,fui procurando poesia e imagens.
Mas a frase clichet “é filme poesia, ou poesia em forma de filme” neste caso, não se aplica.
Não é poesia.
É brutal.
É duro.
É real


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Esta semana, o renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado recebeu mais um prêmio em sua vasta lista de homenagens angariadas ao longo da vida: o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, uma das premiações literárias mais prestigiadas da Alemanha. A Federação do Comércio Livreiro explicou esta deferência pelo fato de Salgado ser "um excepcional artista visual que tem feito campanhas contínuas em benefício da paz e da justiça social.¨

A volta de seu nome à Mídia, me fez recordar o documentário O Sal da Terra, dirigido por Win Wenders e Juliano Salgado (filho do fotógrafo), lançado em 2014, uma obra imperdível para todos os que amam fotografia, amam a vida e odeiam injustiças. Para aqueles que escolhem não fechar os olhos para as atrocidades da vida.

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Ao assistir na época de seu lançamento, fui procurando poesia e as belas imagens.
Mas a frase clichet “ é filme poesia, ou poesia em forma de filme” neste caso, não se aplica.
Não é poesia.
É brutal.
É duro.
É real.

E o “ pior” é que a realidade mais dura que ele retrata nos é oferecida por meio de imagens deslumbrantes, avassaladoras. Que revestem de beleza as mais cruéis tragédias humanas. Torna-as “víveis”, palatáveis. E, assim, Salgado consegue, numa dança entre o obsceno do que retrata e a plasticidade de suas composições, expor as belezas e os horrores de nossa humanidade.

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Criticados por muitos, "como explorador das tragédias do mundo", o fotógrafo é, para mim, um homem de grande coragem, que, por opção, acompanhou e viveu algumas das grandes tragédias humanas modernas, como as tragédias de Ruanda e da Bósnia, na década de 1990. Ele não apenas vai ao locais nos quais as tragédias estão ocorrendo; tira fotos durante uma semaninha, e parte, levando imagens chocantes. Ele torna, durante longos períodos, os horrores alheios, sua vida. Fica com seus " sujeitos de fotografia". E, ao ficar, sente um pouco de suas dores. Sente o cheiro ouve os sons de suas dores. Caminha, literalmente, os passos daqueles que se deslocam. De povos inteiros que são obrigados a se refugiarem.

Fotografia é o seu meio de comunicação. E foi por meio de imagens pertubadoramente trágicas e bem feitas que ele participa da dolorosa tarefa de mostrar os horrores a que o ser humano tem sido submetido e as maldades que é capaz de fazer. Seu relato é ainda mais cruel , por que é de uma beleza lacerante. Ele nos grita, " olha como o ser humano é tão bonito. Olha, como o ser humano é capaz de gestos monstruosos!"

Mas o filme vai além de sua vida profissional. Se fui procurando apenas as célebres imagens deste renomado fotógrafo, encontrei palavras, ritmos e tons de narrativas embriagadores. Encontrei as origens simples de um dos homens de visão mais sofisticadas de nosso tempo. Pelas palavras de seu pai, intuímos a ligação do fotógrafo com a terra, com os jeitos simples da vida.

Se o filme escancara as barreiras geográficas do mundo, ele abre uma pequena fresta na janela da vida pessoal de Salgado.
Nela, o vemos ainda de cabelo. Um homem muito bonito, cuja trajetória de vida talhou de expressividade absurda seus olhos, de seu olhar.

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Vemos sua parceria amorosa e profissional com a mulher, cuja visão é fonte de inspiração para cada uma daquelas imagens. E, é neste aspecto familiar que podemos ver também a humanidade e a franqueza deste relato. Vemos um profissional totalmente comprometido com o seu trabalho, denunciando com grande sensibilidade às grandes tragédias humanas, mas um pai muitas vezes ausente.

E, aí, vemos novamente a presença de Lélia, sua mulher, na realização de suas fotos. Neste documentário, parece claro que o casal opta por este tipo de arranjo, no qual ela é o principal membro da família a cuidar e a educar o filho deles. Assim, sua liberdade como pai, para permanecer tanto tempo longe do lar, tem em sua mulher uma presença marcante e forte, que assume o olhar em casa, para que o fotógrafo possa direcionar o seu foco para relatar a história de sua família mais ampla: a humanidade.

E , no filme, esta ausência da figura paterna no lar não é escondida. Pelo contrário, este documentário não apenas expôe os longos distanciamentos entre o fotógrafo e o filho, como também parece ser um meio lúdico de filho e pai se aproximarem de forma mais intensa.

Interessante é que depois de presenciar, aliás, "presenciar" não é o termo correto, mas, sim, "vivenciar" tantos horrores, Salgado se lança a processos criativos de cura. Depois de vivenciar tantas tragédias, seus olhos buscam a cura pelo retorno ao lado mais primitivo do homem: tanto em seu trabalho fotográfico, como em sua vida particular, Salgado vai de encontro à natureza , à criação, a Gênese das fotografias e ao reflorestamento de seu entorno imediato.

O fotógrafo parece ouvir o sábio conselho de Nietzsche: " cuidado ao olhar por muito tempo dentro de um abismo, pois o abismo pode acabar olhando de dentro de você."

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Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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