a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Roma : Crítica ou Apologia ?

Com uma das estéticas mais bonitas dos últimos tempos (fazendo-nos lembrar de uma mistura entre Bunuel e Fellini), uma direção impecável, o filme quase convence. A beleza de suas cenas, contudo, encerra uma armadilha que nos seduz e quase nos cega para uma narrativa que mais parece uma apologia ao pensamento imperialista defendido em " O fardo do homem branco", poesia de Rudyard Kipling.


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Com uma das estéticas mais bonitas dos últimos tempos, e uma direção impecável, de Alfonso Cuarón, o Roma quase convence. Cria um estado de espirito dúbio em nossas mentes. Por um lado, toda a parte técnica deste longa nos leva a querer amá-lo !

Por outro, sua narrativa perde a enorme chance de tecer uma crítica contundente aos relacionamentos abusivos historicamente empregados por patrões a seus serviçais.

Passado no México, Roma foi filmado em preto e branco, e nos dá aquela sensação boa que os filmes de Arte nos trazem.

Aquela satisfação de vermos cenas magistralmente filmadas, com lindos planos longos, captados de forma naturalistas, com um estilo que, em vários momentos, nos faz pensar entre uma mistura entre Bunuel e Fellini.

Outro ponto alto é o trabalho de direção impecável de Cuarón, que se mostra presente desde à direção de atores (com uma atuação impecável de todos eles, inclusive das quatro crianças), até os mínimos detalhes da resconstrução da década de 70, na qual a história se passa.

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O reconhecimento da sensível atuação do elenco já rendeu duas indicações ao oscar. Perfeita nos mínimos detalhes, Yalitza Aparício, que desempenha o papel principal da empregada (concorrendo na categoria de melhor atriz) , comove nos mínimos detalhes de sua personagem. Com uma atuação econômica, sem extravazos, Yalitza forma um retrato fiel da relação entre empregados e patrôes típica em países colonizados, que usaram o povo nativo, ou os escravos trazidos de além-mar, como mão-de-obra doméstica.

E é justamente este o centro do enredo desta história, que a primeira vista, nos dá a impressão de que será uma crítica social, ao narrar a história de Cléo , uma empregada que mantém um relacionamento de amor com a família na casa de quem ela trabalha. Mas que acaba por reforçar uma interpretação perversa de que é possível se haver amor verdadeiro em relacionamentos abusivos. Relacionamentos nos quais o lado mais forte decide as regras da convivência. Ao Outro, cabe aceitar as migalhas de amor que lhe são lançadas.

A beleza de suas cenas, contudo, encerra uma armadilha que nos seduz e quase nos cega para uma narrativa que mais parece uma apologia ao pensamento imperialista defendido em " O fardo do homem branco", poesia de Rudyard Kipling. À como as classes mais pobres se beneficiariam de uma relação de tutelagem com as mais privilegiadas.

No caso deste filme, é ainda um pouco pior esta relação porque faz um paralelo entre uma serviçal de origem indígena (não branca) e seus patrões brancos .Remetendo-nos, assim, a um ideal perverso de que o homem branco tinha muito a ensinar aos nativos, e que, por isso, seu jugo deveria ser aceito como algo positivo.

Muitos defendem que o roteiro constitui somente um retrato daquela realidade. Para mim, todavia, ele é muito mais do que isso. Ao optar por seduzir o telespectador, a nos pegar pelas mãos e nos conduzir por aquele mundo, o enredo de Roma nos apresenta a sua leitura da realidade: um mundo cruel, no qual o empregado (indío) deve ser defendido por seu patrão ( colonizador branco). Apesar de mostrar em diversas cenas as durezas impostas à Cleó pela família que a emprega/acolhe e explora (retratada desde o primeiro frame do filme), a mensagem final é de que não há saída para aquela resignada empregada mexicana nativa, na dura realidade externa.

Cleó é amada pela família, que a trata bem, mas que , ao mesmo tempo, a explora, de forma incansável. O mais perverso desta história é que a exploração passa quase de forma despercebida, seja porque ficamos estupefatos com a plasticidade das cenas, seja porque a personagem não evidencia nenhuma revolta contra seus patrôes.

A única cena em que ela tece pensamento crítico em relação ao tratamento que lhes dispensam é tratada de forma leve, quase como uma brincadeira. Cléo é uma máquina de trabalho. Ah, uma máquina de amor, também, já que não apenas faz todas as tarefas de arrumação da casa, como também provê amor ilimitado pelas crianças, chegando a arriscar a própria vida por eles.

Mas vejam bem, uma máquina de amor: que se liga e se desliga conforme o desejado.

É impossível o amor se estabelecer em relações entre empregados e patrões? Não! Óbvio que não. Não sejamos duros e radicais para considerarmos todos os relacionamentos dentro de um prisma de luta de classes .

Mas é possível o amor nascer em relacionamentos entre desiguais, no qual um não respeita o limite do Outro ? Possível é, como o filme mostra de forma contundente . Saudável? Certamente,não !

Como o final do filme mostra, tudo muda .
Só não muda o lugar que Cléo ocupa. O lugar de cães (na casa há um que sempre pede carinho quando chegam) que são afagados pelos donos, quando estes assim o desejam.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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