a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Trágico ou Mágico ?

Certa vez, um gênio da música cantou: "a vida é o que acontece com você, enquanto você está ocupado fazendo outros planos." Esta frase faz parte da canção "Beautiful Boy", que John Lennon compôs para o filho Sean, na qual lhe dá alguns conselhos. E o melhor deles talvez seja o que o trecho em tela ensina: "relaxe! não há como controlar a vida!"

E este pequeno conto completa: há muito mais áreas coloridas na vida do que imagina a nossa necessidade primal de classificar cada segundo de nossa existência como sendo uma experiência entre o céu e o inferno.


tragic or magic menina.jpg Foto:Gjon Mili


A menina acorda sentindo-se super bem disposta.
Noite bem dormida!
Sonhou com praias, rapazes, provas gabaritadas ...

Tudo em travesseiros de listrinha, assentados displicentemente em lençóis geladinhos...

Cantarolando, com um grande sobressalto, corre para escovar os dentes.

Mas ACABOU a pasta de dentes: que trágico !
Despenca o seu dia!

tragic or magic 2.jpg Foto:Gjon Mili

Do outro lado da rua, o vizinho sessentão, que sofria de dores na coluna a semana toda, caminha lentamente para comprar pão na padaria.

Um carro passa sobre uma poça encharcando a “ porra” da calça novinha que usaria para ir a missa acompanhar a falsa da sogra.

Odiava igrejas! Mas fazia tudo para evitar o apocalipse que eram todos os seus domingos,quando a jararaca, que durava mais do que a Highlander da Rainha da Inglaterra, sempre arrumava um motivo para lhe criticar,jogar na sua cara o rol dos seus fracassos.

E, agora, esta! Uma calça toda enlameada, que Merda!

Exclamou ele, completamente encolerizado.

Torturado, sob os degraus da padaria, sua coluna grita: DOR !

Aproxima-se do balcão pronto para chamar aos urros o padeiro, que distraidamente conversava com uma atendente novinha gostosa (o que lhe dava muita inveja e mais raiva ainda!), enquanto uma enorme fila indiana se formava...

E o idiota lá sem a menor contrariedade, sorria animadamente, muito provavelmente já imaginando a noite que teria, ponderava com ódio o azarado sessentão.

Quando chega a sua vez, lançando-se sobre o balcão, tropeça!

Putz, mais esta ?

Apoia-se no vidro e frustrado olha para baixo ...
E ali - bem ali - em sua frente, enxerga uma Brevidade ...!
O docinho de sua infância...
Que mágico!
Os olhinhos de menino se iluminam.

Pensa, "peço todas as dez que aí estão, levo para a sururu de macumba e meu dia esta ganho!"

A única coisa que tinham em comum: o gosto pelas brevidades!

Sim, a única! Porque nem da filha aquela megera gostava !

Ontem, o deputado que estava gozando da liberdade de regime semi-aberto, (a qual havia conquistado com a condição de não cometer nenhum outro delito) estava sendo escoltado para a cadeia de volta, e seu filinho, sem querer, derramou um achocolatado em sua calça.

Ele, então, foi obrigado a trocar de roupa sob vigilia e voilà: o político corrupto foi pego com presunto na cueca!

Alguns indignados riem ! Adoram toda a situação ! "Deus escreve certo por linhas tortas...!" pensam eles.

Já outros, mais céticos, acham que esta é mais uma evidência da decadência do país...

E aí, vai avaliar: Que mágico ! Ou que trágico ?

Difícil de saber...


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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