a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Malaise

Angústia. Indisposição. Insônia.
Estes eram os sentimentos que atropelavam Júlia ao longo dos últimos dias e a deixavam atônita. Não conseguia entender o que estava acontecendo com ela. Era boa mãe; filha; profissional competente; tinha uma ótima parceria com o marido.... Mas algo a incomodava muito.
Adorava música, mas aquilo já estava demais: a maldita rosa juvenil tanto que rodopiava em sua cabeça e não a deixava dormir.



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Pintura Zélia Salgado

Júlia não consegue dormir. A noite passa e seus esforços para cair no sono fracassam. Sabe que deu uma cochilada no início da noite, lembra-se de ter, até mesmo, relaxado.

Mas isso já faz algumas horas. Já são quatro da manhã e um contínuo desconforto impede que ela adormeça. Aquilo, porém, não a chateia muito. Racionaliza que a manhã seguinte será um novo dia, não precisa temer... é apenas uma noite ás claras; no dia seguinte ela recupera.

Com esse sentimento, acende a luz e pega um livro de contos. Senta-se na cama e suspira aliviada diante do conforto imediato que aquela solução lhe oferece. Sabe que aquelas pequenas histórias lhe proporcionarão passatempo descompromissado, que não precisará se dedicar além do necessário. Quando desejar, poderá colocar a leitura de lado, sem correr o risco de envolver-se demais na longa trama de um romance; de varar a noite na obrigação de terminar aquilo começara.

É exatamente disso de que necessita, de algo curto e instantâneo. Nesse momento, uma seleção dos melhores contos brasileiros lhe parece a escolha mais adequada. É felicidade garantida ou seu dinheiro de volta.

Sorri.

A noite passa e ela devora uma história atrás da outra. Sente-se enriquecida. Em pouco tempo, consegue viver emoções distintas, acompanhar a trama de diversos personagens.

Pousa o livro sobre o colo e reflete acerca dos pequenos fragmentos de mundos que está conhecendo. Alguns daqueles contos são mais densos, existenciais, outros apenas narram cenas cotidianas, e há, também, aqueles que, por meio das palavras, buscam despertar a sensibilidade dos leitores, aguçar seus sentidos.

O que mais lhe agrada, entretanto, é a agilidade daquela leitura. Em pouquíssimo tempo, consegue, sem se desgastar muito, conhecer o estilo literário de importantes escritores nacionais. Sem sombra de dúvidas, ela era uma pessoa vitoriosa, que sabia aproveitar a vida mesmo nas adversidades.

Assim, Júlia passou a noite do dia 13 de janeiro de 2002. Era uma noite como outra qualquer, nenhuma data especial era comemorada sequer no dia anterior ou na madrugada que começava; nenhum feriado nacional, nem tampouco aniversário de alguém.

Enfim, não tinha grandes expectativas em relação aos próximos dias, nenhum encontro programado, nenhum sorriso especial, nenhuma despedida dolorosa. Uma noite como outra qualquer, que teria passado totalmente despercebida, caso tivesse dormido.

Sua ansiedade era infundada, ponderou metodicamente.

Quando o dia já estava claro, tirou uma pequena soneca. Antes que o alarme do despertador disparasse, ela o desligou. Estava feliz. Apesar de não ter dormido, tinha aproveitado seu tempo. Não deixaria que aquela maldita campainha atrapalhasse seu bom humor. Ninguém iria lhe dizer a que horas deveria fazer isso ou aquilo.
Ela era a Senhora de sua vida, a Dona de seu destino, e sabia, como poucos, controlar seus horários.

Jogou o lençol para o lado e pulou da cama, como fazia desde garota. Gostava de cultivar hábitos de infância. Era como se esses pequenos gestos tão conhecidos lhe reafirmassem sua personalidade; sua essência.

Mecanicamente, lavou o rosto, pegou a toalha, enxugou os olhos, escovou os dentes, secou a boca e pensou em que roupa iria vestir. Decidiu-se por um tailleur azul petróleo.

Já estava se encaminhando para o closet, quando se virou para o espelho do quarto e deu uma conferida em sua aparência. Horrorizou-se: estava com duas enormes olheiras, os sulcos das maças do rosto estavam mais marcados, a boca ressecada.
Não conseguiria se vestir daquele jeito; teria, antes de mais nada, de consertar o estrago feito pela insônia.

Voltou para o banheiro para se maquiar. Ao abrir a gaveta do armário para pegar a sua base, passou os olhos por suas mãos, verificando que nem elas haviam sido poupadas; estavam ásperas e murchas. Rapidamente, passou hidratante nelas, aplicou a base, a sombra, o pó compacto, o rímel, o lápis de contorno e o batom. Pingou colírio nos olhos e Voilá....

Agora, sim, reconhecia sua imagem.
Para garantir que começaria o novo dia com a aparência de frescor, passou um gloss rosa bebê por cima do batom. Novamente, pensou em como havia obtido êxito em driblar os inconvenientes da insônia e ainda se divertir, sem necessitar despender valioso tempo durante o dia com a leitura. Estava satisfeita. No final das contas, havia lucrado.

Vestiu-se e constatou alegremente que o novo tailleur, de fato, alongava sua silhueta, como havia lhe afirmado a vendedora. Não fora ludibriada por uma propaganda enganosa. Mais um ponto marcado a seu favor naquela manhã.
Ficou radiante: mãos macias, cintura devidamente marcada no vestido, olhos úmidos e descansados.
Ao sentar-se na cama para vestir a meia calça-calça, contudo, voltou a sentir uma sensação estranha, opressiva. Não soube identificar o que lhe estava incomodando, mas também não conseguiu se livrar daquele terrível mal-estar. Um peso inexplicável apoderou-se de seu corpo, sua juntas pareciam enferrujadas.
Como para todas as outras aflições que sentira naquela noite, rapidamente pensou em uma solução para aliviar o desconforto: iria começar a malhar naquele mesmo dia!

Ruminando seus pensamentos, decidiu não se aborrecer. Não podia perder tempo com bobagens. Acabou de arrumar-se. Tomou um suco de laranja. Foi trabalhar.

O dia transcorreu sem nenhum incidente, sem novidades, era um 14 de janeiro como outro qualquer, como todos os outros que já tinha vivido. Engraçado que semanas e mais semanas passam sem que nenhum detalhe relevante lhes confira significado especial, pensou Júlia distraidamente.

Já de volta em casa, comeu uma maça e foi para o quarto se preparar para dormir. Tomou um banho quente, enrolou uma toalha na cabeça e pegou uma revista de variedades. Estava interessada em ler as críticas sobre um filme que havia assistido na semana anterior.

Já há algum tempo, não acompanhava as notícias de jornal, estava mal informada sobre os fatos cotidianos, sobre o mundo; até mesmo, sobre o circuito de lazer de sua cidade. Não gostava de ficar tão alheia à realidade. Sempre que podia, lia a programação cultural. Gostava de participar dos assuntos debatidos por seu grupo de amigos sem se sentir por fora. Considerava-se uma pessoa em sintonia com o seu tempo, capaz de falar sobre todos os assuntos.

Para completar o programa da noite, colocou um CD de músicas antigas e calmas. Estava um pouco nostálgica.

Tudo estava perfeito, aconchegante. Adormeceu em apenas alguns minutos. O som permaneceu ligado, a revista caída na cama. Sonhava com os momentos felizes que tivera quando criança na casa de praia de sua família.

À uma hora da manhã, acordou sobressaltada; levantou da cama e foi pegar um copo de leite. Talvez estivesse com fome, ponderou. Bebeu e voltou correndo para dormir.
O sono, contudo, não vinha.
Talvez tivesse adormecido muito cedo... talvez tivesse comido algum alimento muito pesado de difícil digestão... talvez a cama estivesse dura demais; ou, pelo contrário, mole de mais, fazendo que sua coluna ficasse toda torta e impedindo que relaxasse .

Procurou respirar calmamente, fazer alguns exercícios de yôga, para se descontraísse. Suas tentativas frustraram-se; não voltou a dormir.

Continuaria a ler os contos da noite anterior... Não! Teve uma idéia mais interessante. Leria algum livro em inglês; assim, além de sorver cultura, praticaria uma segunda língua. Essa era a fórmula perfeita para aproveitar outra noite insone.

Leu até as sete da manhã do dia 15. Dessa vez, não cochilou; não conseguiu. Uma tensão permanente impedia, até mesmo, que permanecesse quieta, de olhos cerrados.

O mesmo ritual da véspera foi executado. Naquele dia, porém, teve de carregar mais na maquiagem, para esconder as marcas de mais uma noite não dormida.

Foi para o trabalho.


Durante todo o dia, aquela ansiedade a acompanhou.
Apesar da falta de eventos significativos associados ao dia 15 de janeiro de 2002 - nenhuma tragédia, nenhuma novidade, nenhum acontecimento a comemorar, um dia que não previa sorrisos especiais, abraços de despedida - tinha a certeza de que aquela data seria para sempre lembrada.

Sabia que algo muito estranho estava acontecendo, só não conseguia determinar exatamente o que era. Pensava que tanto poderia ser alguma coisa diretamente associada a ela, quanto algo relacionado ao mundo, em geral.

Quem sabe alguma tragédia histórica estivesse prestes a acontecer. Essa era uma boa opção que explicaria por que estava com a respiração curta; a garganta ardendo; a faringe travada e o esôfago fechado.

Mesmo um inocente copo de água lhe doía o estômago.

Trabalhou até o final do expediente. Não queria chegar em casa e ter de enfrentar aquele sentimento que crescia dentro dela.
Preferia passar mal ali, em um lugar público, onde tinha muita companhia, muitas pessoas que poderiam lhe defender do inesperado; testemunhar com ela o desenrolar de uma nova tragédia humana.

Estava convencida de que toda a sua angústia era causada por estar demasiadamente ligada ao tenso clima do mundo atual, tão perturbado por guerras e crises econômicas. Sim, pensou assustada, era muito sensível, capaz de captar o inconsciente coletivo, as más vibrações que antecediam um evento tenebroso.

Esperou, esperou e esperou...

Os colegas de trabalho começaram a ir embora; a se despedir. Um pequeno grupo, formado por pessoas mais íntimas, a convidou para um “happy hour”, ela declinou. A tensão a corroia, não era capaz de se divertir.

Não queria que percebessem, mas toda a sua atenção estava voltada para a televisão, que ficava num canto de sua sala.

Queria pedir para que as pessoas se demorassem um pouco mais. Que aguardassem. Pois, certamente, teriam a oportunidade de ver - em tempo real - o desenrolar de mais uma tragédia humana.

Com alguns colegas, ela conseguiu verbalizar suas aflições. Tinha a certeza, afirmava, de que outro atentado terrorista estava prestes a acontecer.

Por quê?

Como tinha formado esta convicção, perguntaram alguns. Não era capaz de dar explicações lógicas, coerentes. Sua crença advinha de razões inconscientes, argumentava assustada. O que não confessava, no entanto, era que sua intuição estava começando a paralisar seus atos; a interferir em seu trabalho, a roubar seu precioso tempo...

Naquela tarde, porém, ninguém estava disposto a ficar especulando sobre a malaise contemporânea. Nenhum de seus colegas se propôs a divagar, de forma mais profunda, sobre aquele cansativo assunto acerca dos perigos do terrorismo moderno e do choque de civilizações.

Decepcionada, constatou que estava sozinha em seus temores, que nenhum dos presentes compartilhava de suas angústias.

Mesmo se sentindo traída e rejeitada, estava decidida a não sair do escritório cedo. Engendrava assuntos prolixos, tentando manter o maior número possível de gente ali com ela.

Com o anoitecer, as pessoas iam saindo do escritório, e ela permanecia sentada, tentando entender o sentimento ambíguo de angústia e satisfação que experimentava.
Se, em alguns momentos, sentia-se realizada, como se tivesse conseguido conquistar alguns de seus mais valiosos sonhos e objetivos de vida , em outros, sentia-se sufocada, esmagada. Tinha de se esforçar até para conseguir respirar.

Por fim, restou só a faxineira, que constrangida esperava que Júlia vagasse seu escritório para que o pudesse limpar e ir embora. A executiva, todavia, lutou bravamente. Perguntou para a faxineira se ela também andava baixo astral ultimamente. A outra senhora balançou a cabeça em concordância.

Que alívio, pensou Júlia, outra pessoa compartilhava daquela sensação ruim.

Afobada, pediu para que Lurdes lhe dissesse o que a estava atormentando. Aos soluços, a faxineira contou que seu vizinho, um rapaz que conhecia desde garotinho, havia sido morto pelos traficantes.
Nesse momento, Júlia quase deu um grito de contentamento. Voilá, ai reside a razão de sua angústia, deduziu ela triunfante. A violência havia tomado conta de sua cidade, de sua vida.
Lembrou-se de que todos os dias, antes de sair para o trabalho, fazia inúmeras recomendações para a babá de sua filha: cuidado quando atravessar a rua, olhe para os dois lados, e depois, não esqueça de olhar para frente novamente. O carro lhe atropela e você nem se dá conta.
Cuidado no parquinho, não deixa a Maria subir no escorrega que ela cai; não deixe ela lhe esperando do lado de fora da cabine do banheiro do Shopping; o tráfico de seres humanos é um perigo real e crescente. Leva ela para dentro com você. É apertado, mas é a melhor solução.

Depois desse breve instante de frenesi, deprimiu novamente. Recordou que há apenas um mês atrás a prefeitura havia sido metralhada. Naquela ocasião, ela ficara muito angustiada com a selvageria urbana e com a inabilidade das autoridades competentes em reprimir o crime. Passara, então, dias e mais dias refletindo a respeito do ocorrido e de como a violência afetava sua vida.
Putz grila! Não, não era isso... ...seu mal estar atual era diferente, era como uma premonição, uma coisa aleatória.
Nessa hora, riu de si mesma. Recordou de sua sobrinha adolescente que “zoava” dela quando usava a expressão “putz grila”.... quando ela dançava nas festas de família.... quando ela tirava os cabelos do rosto e os jogava para o lado com as mãos, no melhor estilo “charminho” anos 80.
Por fim, nenhuma catástrofe aconteceu, e ela partiu desoladamente.

Chegou em casa tarde. Todos estavam dormindo. Em sua cabeça , uma pergunta reverberava: será que conseguiria dormir ? será que conseguiria? será?

Não nutria mais a esperança de que uma notícia de uma nova catástrofe mundial iria lhe resgatar do estado de torpor em que se encontrava . Nem mesmo ligou a televisão para acompanhar o noticiário da meia noite. Vestiu a camisola , deitou e dormiu rapidamente .

Duas horas depois, acordou assustada. Pensou que não tivesse conseguido pregar os olhos até então. Aos poucos, lembrou-se de fragmentos de um sonho, suspirou aliviada. Havia dormido

Ao olhar para o relógio da mesinha de cabeceira, no entanto, ficou bastante contrariada. Eram duas horas da manhã e estava completamente acesa. Só, então, realizou que estava tensa.

Começou a mudar de posição na cama, virou-se para o lado no qual o marido costumava dormir. Aproveitaria sua ausência e esparramaria-se no colchão.

A nova posição lhe proporcionou momentos de descanso, pensava nas diferenças que uma mesma cama pode ter. O lado de seu marido era certamente diferente do seu, mais fresquinho, menos claro, geladinho. Decorridos os primeiros instantes, impacientou-se. Voltou para o seu lugar. Pegou um travesseiro e o colocou sobre a cabeça para abafar os barulhos dos passos que vinham da rua. Depois, descobriu-se , estava com muito calor.

De repente, escutou um barulho vindo da porta de sua casa. Era isso! Um ladrão estava tentando entrar lá. Seus receios não tinham sido infundados. Alguém estava tentando violar sua casa.

Puxou o lençol sobre a cabeça e tentou permanecer o mais imóvel que pôde, não daria sinais de que estava acordada.Sentiu um frio na barriga. Teve medo até mesmo de respirar. Supunha que o invasor, encontrando todos dormindo, roubaria e iria embora. Mas, e se ele fosse um maluco...

Tomou essa dúvida como certeza. Era a explicação mais razoável, mais condizente com o terror que havia sentido durante os últimos dias. Estava petrificada. Todos iriam morrer, não teriam escapatória.

Mais uma vez, aquele som se repetiu. Foi ai que se deu conta de que, na realidade, o barulho vinha de dentro do quarto da filha. Tomou coragem e sentou-se na cama, fosse o que fosse, teria que ver como a filha estava.

Correu, então, para o quarto da menina para socorrê-la. Chegando lá, viu que ela chutava a grade da cama, provocando aquele barulho que tanto a havia amedrontado. Sussurrando, pediu que ela se acalmasse. Deitou-se no chão e agarrou a mãozinha que se estendia em sua direção. Fora salvar Maria, mas, na verdade, ela é que a havia salvado, resgatando-lhe da insuportável angústia que vinha sentindo.

O cheiro da criança lhe confortou, era como se só aquele contato lhe bastasse. Tudo mais era supérfluo, desnecessário... Aquelas mãos pequenas e gordinhas lhe transmitiam paz. Sabia que ao longo dos anos elas cresceriam, que muito ainda havia pela frente. Elas, certamente, seriam finas e compridas, como as de seu marido e as suas.

Retornou para o seu quarto. Sua casa não estava mais em perigo, deitou-se alegremente.

Logo, porém, tornou a ficar apreensiva. Não conseguia dormir. Uma terrível sensação de perda a assolava, como se a qualquer instante fosse morrer.

Sentia que algo inesperado, terrível, lhe aconteceria. Será que sua vida havia chegado ao fim, que as coisas haviam se tornado muito boas e que então ela não tinha mais nada a fazer. Não queria morrer naquele momento. Estava passando por um período muito bom de sua vida. O casamento, a filha, o trabalho: conquistas valiosas, pelas quais havia ansiado e batalhado durante toda a vida.

Voltou o pensamento para sua saúde. Além de fumar dois maços de cigarros e beber um litro de café por dia, levava uma vida sedentária, odiava exercícios. Gostava de assistir televisão comendo biscoitos gordurosos.

Seu coração não devia estar muito bom. Com certeza esses hábitos já tinham deteriorado seu metabolismo. Conjeturou que poderia estar com algum tipo de câncer. Em muitos casos, as pessoas são capazes de diagnosticar o surgimento de uma doença grave antes mesmo dela se desenvolver e causar sintomas aparentes.

Levantou-se e foi até a cozinha beber um copo de água. Voltou para o quarto cantarolando A Linda Rosa Juvenil. Concentrou-se de novo em seu estado físico. Deveria recomeçar a ginástica, deveria ir ao ginecologista para fazer o exame preventivo, há anos não ia a nenhum médico, talvez desde o nascimento de sua filha; há exatamente três anos atrás. “Vivia alegre no seu lar, no seu lar, no seu lar ...” , não conseguia tirar aquela música da cabeça.

Mais uma vez sentiu um arrepio percorrer o corpo. Parou de pensar em si própria.

Como pudera estar tão enganada e não ver que o sentimento de morte que lhe havia acompanhado durante os últimos, com certeza, dizia respeito a morte de outra pessoa, de algum parente ou amigo chegado. Gelou. Ficou esperando o telefone tocar. Certamente, alguém iria lhe telefonar para transmitir a má notícia.

Alguma pessoa idosa morrera , ou , pior, alguém sofrera um acidente de carro. Apavorou-se. O marido estava viajando... Não, não! Nada de ruim aconteceria com ele. Ele sempre viajava e sempre voltava. Seu retorno era fato consumado, infalível! Sentiu breve consolo.

Logo, no entanto, ela apavorou-se novamente.

Não podia suportar imaginar que o pior houvesse acontecido com alguma pessoa querida. Tentou deslocar sua atenção para alguém menos importante, alguém mais distante, quem sabe algum colega de trabalho, ou, melhor, alguém de seu escritório com quem tivesse pouca ou nenhuma proximidade. Melhor ainda, que fosse um desafeto!

Balançou a cabeça e pigarreou, não pôde dar continuidade àquele raciocínio. Sacrificar vidas inocentes era muita crueldade. Para salvar os seus, assassinava desconhecidos. Abominava julgamentos. Não poderia ela, então, interpretar o papel do juiz implacável, sentenciando quem deveria ou não morrer.

Mas sabia que a morte rondava sua vida. Ficou muito tempo imóvel na cama, esperando o toque que lhe arrancaria da felicidade alcançada ao longo dos últimos anos; a qual, nos últimos dias, havia sido interrompida por esse mórbido estado de espírito.

A rosa continuava a rodopiar em sua cabeça, tentava pensar em outras músicas, mas a canção infantil tragava todos os seus pensamentos: ” e o tempo passou a correr , a correr, a correr ... “

Graças a Deus, o telefone não tocou. Passados alguns minutos, concluiu que sua intuição também falhará a respeito do suposto telefonema.

Desistiu de procurar sentido para aquele mal-estar. Estava resoluta, esperaria a manhã chegar deitada em sua cama. O mau agouro, contudo, não havia lhe abandonado. Não estava bem. Tinha taquicardia, as mãos estavam geladas, os ombros duros e sua mente obcecada com aquela maldita música. Não bastasse isso tudo, pressentia que a Morte havia estacionado ao seu lado.

Reagindo corajosamente, tentou se recompor e aurir forças para enfrentar o nascer do sol. Agora, como uma hipocondríaca, prestava ‘a atenção a todas as particularidades de seu corpo, aos mínimos desconfortos, à tensão no pescoço, à passagem de gases no intestino, à saliva de sua boca, ao tártaro que se acumulava nos dentes posteriores. Controlava sua mente e seu corpo para que não fosse pega de surpresa. Ao invés de fugir dos sentimentos indesejados, procurou detectá-los e controlá-los.

Sua ansiedade, entretanto, aumentava a cada minuto. Resolveu que não iria trabalhar naquele dia. Estava passando muito mal. Assim que desse oito horas, ligaria para o médico e marcaria uma consulta de emergência. Não suportaria virar mais uma noite daquelas.

As oito e meia, levantou-se da cama para marcar sua consulta. Inicialmente, a secretária afirmou que só teria horário disponível na próxima semana. Júlia desesperou-se. Uma semana era muito tempo. Quase caiu aos prantos. Sua voz tornou-se muito trêmula, sua respiração ofegante, seu pensamento confuso; incoerente. Não conseguindo mais controlar a língua, suas palavras tornaram-se incompreensíveis.

Aflita, a mulher do outro lado da linha chamou o médico correndo. Preocupado, ele mandou que a paciente fosse imediatamente a seu consultório, que pedisse para alguém a levar, ou que pegasse um táxi;não deveria , de modo algum, ir dirigindo. Júlia suspirou aliviada, alguém iria lhe salvar.

Relaxou. Decidiu se arrumar imediatamente. Aquele homem certamente extirparia seu sofrimento. Ainda estava muito fraca e insegura , porém, teve um momento de alegria quando se lembrou de que tinha outra roupa nova para estreiar. Tinha de estar linda, como sempre, para ir ao médico.

Foi para o banheiro se arrumar. Como nos dias anteriores, lavou o rosto e escovou os dentes mecanicamente. Ao se olhar no espelho, prendeu a respiração, o corpo inteiro contraiu-se. Procurou ficar imóvel, talvez o minuto seguinte fosse capaz de apagar o que vira, de proporcionar-lhe algum tipo de amnésia.

Nada aconteceu, e ela continuou ali; parada. Não era uma pessoa obtusa. Sabia perfeitamente dar nome aos bois. Ali, na sua frente, soube reconhecer a ameaça que rondava sua mente ao logo dos últimos dias.

Voltou para a mesinha do telefone. Ligou para o consultório médico e cancelou sua consulta. Permaneceria o dia inteiro na cama.

Deitou-se.

Olhando para o teto, num misto de angústia e resignação, pensou: estou envelhecendo.




Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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