a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Uma Vida Oculta : o mal te incomoda ?

Contando uma história verídica, ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial, Terrence Malick nos apresenta mais um filme seminal e atual, que nos deixa com a seguinte reflexão a responder:

Será que você reconhece o mal quando o vê ?
Será...?



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Imagine que você está vivendo a sua vida, calmamente ... imagine que seus objetivos sejam aqueles que aprendemos de nossos antepassados; trabalhe, seja feliz... e você está sendo.

Cuidando de sua família, trabalhando duro.

Feliz,com pouco. Amando sua vida. Honrando o seus país.

Mas, daí, as garras do mal vêm e encontram você, e todos aqueles a quem você ama. Entram em seu mundo, dilacerando a tudo e a todos. Entrando por dentro das suas entranhas!

E é exatamente esta a sensação que os planos aéreos de aproximação, marca típica de Malick, nos transmitem.

Diferente de seus últimos filmes, o enredo de Uma Vida Oculta segue uma narrativa biográfica, respeitando um desenvolvimento mais linear do que o escolhido no absolutamente brilhante e sútil a A Árvore da Vida, ou no bonito Amor Pleno, e do que o pesado e desconcertante Cavaleiro de Copas.

Em uma pequena aldeia camponesa, Franz Jägerstätter vive uma vida bucólica e feliz, com sua mulher, três filhas pequenas, a cunhada e a mãe dele. Malick constrói uma narrativa focada , ora em grandes planos, que mostram a infinitude e força da natureza, ora em pequenos detalhes, que evidenciam a delicadeza do amor e do trabalho dos personagens. A trilha sonora clássica auxilia na criação de uma visão idílica de vida.
A paz de espírito de Jägerstätter, todavia, é interrompida pela expansão do nazismo na Europa.

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Desde o início da guerra, ele percebe a possibilidade de ser convocado a servir e se sente mal. Questiona-se o que fazer quando a sua pátria amada o chama para lutar a luta ruim? Quando a Igreja, o seu Deus, se posiciona ao lado dos maus?

Apesar desta estrutura mais tradicional, todavia, a assinatura poética e mágica de Malick permeia as imagens deste lindo e seminal longa.

Ao refletir sobre a escolha deste diretor em contar esta história em particular de forma tão mais simples e compreensível do que a linha narrativa surreal que emprega em seus demais filmes, cheguei a uma conclusão: não se iludam! Não foi à conclusão mais simples, que seria, obviamente: ele está filmando uma biografia, então, tem de escrever de forma linear!

Não, querido leitor!
Se a minha interpretação fosse esta, estaria menosprezando a sofisticação de Malick.
Narrativas biográficas contadas de forma direta qualquer diretor pode filmar, não é mesmo!?
Para mim, não foi preguiça, ou simplesmente a vontade de aderir a uma narrativa simples que fez Malick optar por lançar um filme com um enredo mais compreensível...

Penso que Malick quis desenhar (como dizemos quando queremos realmente explicar algo que parece óbvio e nossos interlocutores não entendem) o horror que tomou conta dos seres humanos ao longo do regime nazista. Seu narrador oculto onipresente (recurso utilizado em alguns de seus filmes) pergunta: Será que eles não reconhecem o mal quando o veem ?

E eu vos pergunto, será que nós não reconhecemos o mal quando o vemos? Será...? Será...?

É esta pergunta que nos pega pelas mãos e nos acompanha em meio a todo o desenrolar da história.

Quantos horrores presenciamos hoje em dia e nos mantemos apáticos? Como podemos compactuar com governantes que constroem campos de concentração para prender crianças pequenas, afastadas de seus pais, como se fossem bandidos... como se fossem bandidos, mas seus crimes são procurarem vidas melhores, longe de suas pátrias, que tanto as maltratam.

Como elegemos representantes que pregam o ódio aos demais, a violência da população? Como alguém pode votar em um candidato racista? Em um candidato que defende a distribuição de armas para a população, ao em vez de pregar o fortalecimento de um sistema de segurança calcado na especialização profissional e no respeito à população?

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Alguns, criticaram o enredo de Uma vida Oculta por achar que ele não explica como que um fazendeiro simples, em um vilarejo isolado, desenvolveu um pensamento tão sofisticado, questionador acerca dos horrores no nazismo; uma aversão tão grande ao pensamento Hitlerista.
Este raciocínio, no entanto, poderia ser invertido.

Poderíamos nos perguntar como camponeses simples, em um vilarejo isolado, levando vidas pacatas e com um espírito comunitário forte, tenham desenvolvido um pensamento tão macabro, que ia contra tudo o que estavam acostumados até então. Um drive de morte, que contrastava com uma forma de viver de cultivo da natureza, de geração de vida.

Penso em duas respostas complementares a este questionamento: a primeira, seria que quando não parado, o mal se entranha em todas as partes. A outra, diz respeito ao despertar do mal que há dentro de alguns indivíduos, quando incentivados por algo ruim.

E você, quando vê o mal, o reconhece? Você consegue reconhecer quando o mau está sendo praticado por outros?

E o seu próprio mal, você consegue discernir? Você consegue perceber quando está apoiando ideias erradas ...?


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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