a aerodinâmica das palavras

O Mundo nas Asas da Arte

Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente .

Lemon Torquato: Sem Lugar

Lançado em 2019, o álbum de Torquato nos oferece uma Oração, em forma de canção, que cabe com uma luva para este emblemático início de ano de 2021, e nos dá força, nos ajuda a viver as turbulências da pandemia e da política atual, ela nos diz para “ ... Nascer quando tiver que nascer , e morrer, quando e todas as vezes que tiver de morrer...” e deixa o seguinte convite :
"Coragem, Senhoras e Senhores, nasçamos todos de novo"!


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Foto de capa: Gustavo Souza

Início de ano é hora de remexer em nossos armários, estilo de vida e sentimentos. Hora de introspecção de buscarmos realizar purificação tanto interna quanto externa. Hora de nos conectarmos com aquilo que nos faz bem e de deixar ir tudo o que não nos pertence, que nos adoece.

Buscando encontrar uma canção para expressar este movimento do tempo, deparei com a brilhante canção de Belchior, Sujeito de Sorte, na qual ele diz “tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro, ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

Fiquei maravilhada e pensei: Voilà ! Uma frase que evidencia toda a dor e frustração e perda que sentimos em 2020, em meio a uma pandemia avassaladora e uma situação politica tão cruel no País. Evidencia, também, a força que pretendemos ter este ano. A nossa garra para lutar!

Ocorre , contudo, que em meio a tanta dor e perda, espantamo-nos com a nossa capacidade de resiliência. Percebemos que podemos andar por caminhos diferentes, áridos, e nos transmutar. Podemos morrer, várias vezes, com a certeza de que teremos força para renascer, tantas outras vezes.

Se tivesse que escolher uma definição, para expressar o sentimento que Sem Lugar nos transmite, ela seria: coragem para renascer ! Para criar! Pois a criação é um renascimento, tanto para quem a criou, quanto para quem dela desfruta!

Em um cenário musical contemporâneo no qual as paradas de sucesso são recheadas de composições musicais que carecem, em grande maioria, de belas harmonias e letras inspiradoras, o álbum de Torquato se revela uma experiência das mais deliciosas de se ouvir , de se ver.

Com uma voz lindíssima e trabalhada, o cantor Lemon Torquato é paulista. Quando menino, Leandro da Silva Torquato já gostava de cantar e cantava pelos cantos, encantando a todos que o ouviam. Adolescente, participou de saraus. Já aldulto, fez parte de alguns corais, como o Coral da USP.

Aos 34 anos, faz parte de uma geração de músicos da MPB - como os já consagrados Roberta Sá, Céu, Thiago Iorc, Silva, Ana Cañas - que, nos brinda com beleza, em meio a um cenário musical, muitas vezes, empobrecido.

Foi em 2019, que Lemon Torquato (nome artístico de Leandro) lançou Sem Lugar, seu primeiro álbum, que se encontra à disposição em lojas que vendem cds e em plataformas digitais.

Composto por dez músicas, tem a coragem incrível de bailar entre diferentes estilos, traçando uma belíssima aquarela das influências recebidas, dos fluxos e movimentos que compõem a sua existência.

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Foto: Gustavo Souza

Lemon conta que mergulhou na produção de Sem Lugar, abrindo e buscando caminhos novos, e seus. Para esta caminhada, contou com a parceria do excelente produtor musical Diogo Sili, músico multi-instrumentista, da jovem geração do rio, que muito contribuiu com o processo de criação deste álbum.

Lemon fez uma bela seleção de obras, com oito composições novas (suas e de convidados) e duas gravações de José Barbosa da Silva (1888-1930) , mais conhecido como Sinhô, um dos mais talentosos instrumentistas e compositores de samba.

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Em seu instagram @torquatolemon, Lemon nos conta que Capinheiro, lançada em julho de 1929, foi classificada, "à época, como um "coco-ajongado" e interpretada pelo Pedro Celestino (irmão do cantor Vicente Selestino) e pela Simão Nacional Orquestra. Após ter pesquisado e escolhido a canção, levei-a ao produtor musical, Diogo Sili. Ele foi até seu estúdio, pegou uma viola e iniciou a ideia que geraria o resultado desta canção que se aproxima do pagode de viola."

Em Sem Lugar podemos perceber influências de grandes nomes da MPB,como Marisa Monte, Milton Nascimento, Francis Hime, Arnaldo Antunes. A beleza das harmonias e das letras são características comuns a todas as composições.

Além da riqueza de harmonias, vale destacar a beleza e complexidade das letras das novas canções, tantos nas de Lemon, quanto nas de seus convidados.

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Foto: Gustavo Souza

Pense Não, composição de Gustavo Souza, brinca com a simplicidade, e parece nos chamar para não sermos muito cerebrinos e brincarmos com a realidade. Em outro trecho da canção, ele diz assim :

"Você vai perguntar pra mim
que coisa essa tão sem graça
a graça é de ser assim
a graça é de ser sem graça "

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Foto: Gustavo Souza

Gravidade, de Fábio Siqueira, tem uma letra que nos faz lembrar as composições mais poéticas e profundas de Caetano Veloso.

" Só no olhar já decifrei o gosto
Sorriso a iluminar os dedos que ocultei
Foi de arrepiar os pelos
E na pele exalei desgosto "

Sobre esta canção, Lemon comenta em seu instagram : "a canção “Gravidade”, de Fábio Siqueira, é um blues e a mim sempre chegou como uma canção que fala de uma questão central da vida, universal e inescapável: o sofrimento. Existe a possibilidade de se ter dignidade no sofrimento? Se sim, imagino que um dos caminhos para isso é observá-lo e contemplá-lo, seja ao estar com ele, na vida real, ou vivê-lo representado na arte".

Os trechos de canções acima citados foram apenas uma pequena degustação do banquete musical que este primoroso álbum nos oferta. Ao escutá-lo por inteiro, vocês verão que não há como não esboçar um sorriso de puro deleite e renovação. Não há como não nos sentirmos renovados com a criação artística de qualidade entrando por todos os nossos sentidos, nos fazendo desejar, desejar com força, mais Arte.

Vale ressaltar também o incrível trabalho de fotografia, arte e concepção de Gustavo Souza,com algumas fotografia aqui reproduzidas, que alinhava o primoroso Sem Lugar, de Lemon Torquato e Diogo Sili.

É no final de sua Oração, canção que fecha o albúm, que Lemon tece arguta crítica a diversos aspectos tanto da sociedade como do ser humano, em geral, e nos convida a ter "coragem, senhoras e senhores, nasçamos todos de novo!"

E, nós, só podemos agradecer a esta belíssima lufada de vida que é esta obra de Arte musical.


Eduarda Amaral

A Arte nos permite brincar com a realidade. Desconstruir verdades estagnadas, colorindo-as com novas cores. Psicóloga, Mestre em Relações Internacionais e Especialista em Políticas Públicas, apaixonada por cinema, musica, fotografia e gente . .
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