Silas Almeida

Gosto das coisas simplesmente complexas.

A complexidade da Justiça

Uma sociedade justa não existe. Nunca vai existir caso continuarmos com
o senso comum sobre esse assunto. É uma verdade que a maioria dos
homens teme admitir por estarem constantemente bombardeados por
conceitos distorcidos de justiça. No ponto de vista do senso comum, uma
sociedade justa é quando todos são iguais. Mas será que justiça é
realmente sermos todos iguais? Rawls responde essa questão com
maestria.


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O mundo está dividido em uma falsa dicotomia: Os de direita e os de esquerda. Atualmente a discussão mais acirrada está entre os libertários econômicos e os adeptos da escola Keynesiana. Porém tudo começou com Karl Marx e Adam Smith. Marx defendia o socialismo/comunismo como um modelo justo de política e de economia e difundiu o conceito de guerra de classes, onde os operários são explorados pela burguesia. O povo deveria ser dono dos meios de produção.

Por sua vez, Adam Smith, ao investigar o motivo de uma nação ser pobre e outra rica, chegou a conclusão que a riqueza de um país é produto direto do livre mercado. Não entrarei em detalhes sobre as duas teorias, pois o objetivo aqui não é falar da história do pensamento econômico. Pelo menos não em sua totalidade. Porém foi necessário citar esses dois pensamentos porque os dois regem direta ou indiretamente todo o sistema político/econômico de vários países e apresentam falhas.

O modelo de Marx como ele mesmo disse é um modelo utópico, e que realmente nunca funcionou. Um exemplo de fracasso desse sistema foi a união soviética. O livre mercado como pregava Smith e mais atualmente Friedrich Hayek também não me parece o mais apropriado, mesmo que os números mostrem que em países que adotaram pelo menos parte desse sistema os pobres vivem melhor, porque ainda sim beneficia muito mais quem já tem muito dinheiro. Então qual seria o melhor modelo de sociedade justa ? Rawls responde.

Em sua obra “Uma teoria da justiça”, Rawls tenta conciliar dois pressupostos que são divergentes: o da liberdade e o da igualdade. Não podemos ser todos iguais sem tirar a liberdade de muitos, e nem podemos ter liberdade sem sacrificar de alguma maneira outros tantos. É um exemplo à discussão a cima sobre qual melhor sistema econômico, livre mercado ou o intervencionismo estatal? Liberdade ou interferência para uma igualdade? A resposta poderia ser um meio termo. E foi isso que Rawls que fez. Achou um meio termo para as questões sociais.

Rawls formulou sua teoria com base no que ele chamou de contrato social e também no conceito do véu da ignorância. O termo véu da ignorância é utilizado no seguinte sentido: ninguém sabe qual sua posição original, ou seja, ninguém sabe qual será sua posição na sociedade. Vamos exemplificar: Se toda sociedade se juntasse para fazer um contrato social, sem saber qual seria sua posição em uma sociedade futura (se nasceria rico ou pobre, branco ou negro, com muita inteligência ou não e etc.), todos iriam escolher o Maximo de liberdades e igualdades igual ao maior número de liberdades e igualdades do outro.

E isso com total imparcialidade por não saberem o futuro. Rawls, também conceitua de forma brilhante a importância da desigualdade. Segundo ele, a desigualdade é viável, desde que satisfaça um bem geral, criando prosperidade e benefícios a todos. Por exemplo: é bom para a sociedade que um médico neurologista ganhe mais que um trabalhador que execute algo menos complexo. Pois se todos forem recompensados de maneira igual, as atividades mais complexas perderiam a razão de ser, motivando menos as pessoas a realizá-los de forma perfeita (ou até mesmo a não fazer), e isso faria mal a toda a sociedade, afetando principalmente os menos favorecidos. Estritamente nesse sentido, a desigualdade é necessária e faz bem.

Podemos observar que o conceito de justiça vai muito além do senso comum de igualdade. Penso que a igualdade deve ser nas oportunidades. Nas oportunidades de aprender (do ensino fundamental ao pós-doutorado) com uma qualidade uniforme para todos, nas oportunidades de alimentação e acesso ao lazer e a cultura. Ora o que cada um vai fazer com essas oportunidades, como cada um vai aproveitar essas oportunidades é da consciência e da força de vontade de cada um. No modelo proposto pelo autor, Quem for realmente superior em algo será recompensado por isso, porém os incapazes não serão esquecidos, pois eles também terão acesso ao “mais abrangente sistemas de liberdades e direitos dos outros”. Ou seja, todos seriam iguais, mas nem tanto.

Rawls é um autor de extrema importância para que possamos criar, ao menos, um modelo de sociedade justa. Ao estudar as teorias mais conhecidas como o comunismo e o capitalismo, perceberemos que em nenhum modelo a liberdade e a igualdade conseguem seguir juntas. No comunismo quem produz mais e é mais capaz consequentemente será prejudicado, pois não poderá crescer. No capitalismo há um enorme descaso com quem é improdutivo. Ambas não parecem ser situações justas. Já no modelo de contrato social de Rawls todos os grupos receberiam a mesma atenção.

Por exemplo: Se uma pessoas tem uma capacidade matemática acima da média e decide se tornar engenheiro , ela será retribuída de uma forma justa por seu trabalho. Mas isso não acarretaria para a pessoa um sistema de liberdades e direitos diferente ou superior de uma pessoa que tem só o ensino fundamental.

A leitura da obra de John Rawls é de extrema importância para que possamos nos posicionar politicamente de forma coerente fugindo do senso comum e de extremismos.


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