a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

American Life - um álbum consciente e honesto

Todos já ouviram falar de Madonna em algum momento, em algum site de fofocas e todos nós já ouvimos uma música dessa artista. Com muita coragem, ousadia e talento ela enfrentou o padrão e trouxe inovações para a música, moda, etc. Sempre escrevendo músicas que tragam mensagens e que proporcionem uma reflexão, o álbum American Life foi o “dedo na ferida”. Lançado em uma época delicada politicamente e socialmente, Madonna não fez um trabalho dançante, animado, digno das pistas de dança. Dessa vez, a preocupação com o presente e a conscientização são os temas centrais nesse álbum tão bonito, lúcido e tocante.


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Que Madonna é uma das maiores artistas do mundo todos nós já sabemos. Ao longo de mais de 30 anos de carreira, ela construiu uma jornada incomparável na indústria da música e vendeu milhões de álbuns no mundo. Com turnês grandiosas e recheadas de inovações, ela já é considerada uma das cantoras que mais vendeu ingressos e mostra uma vitalidade no palco surpreendente. Além disso, ela também inspira os fãs e artistas das novas gerações através de sua influência na música, na moda, no empreendorismo ou no cinema.

Um dos álbuns menos vendidos da Madonna foi o American Life. Lançado no ano de 2003, e chocou o mundo por conter uma gama de questionamentos sociais, políticos e religiosos. Nesse trabalho, Madonna se juntou com o DJ francês Mirwais para produzir o álbum e trouxe uma sonoridade bastante eletrônica. Um som dançante, envolvente, e com a voz de Madonna mais “manuseada”.

Precisamos entender que nessa época o mundo havia vivenciado ataques terroristas como a queda das Torres Gêmeas, por exemplo. Existia uma tensão conflituosa, um medo imensurável não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo em relação aos ataques, à violência. E, foi exatamente inserida nesse complexo contexto, que Madonna trabalhou para criar o álbum American Life.

Todos estavam assustados com a crueldade crescente dos atos terroristas, e Madonna queria mostrar sua repulsa e fúria em relação à guerra, ás mortes, a falta de respeito e amor. Definitivamente, não havia espaço para músicas fúteis ou inconsistentes e por isso Madonna nos presentou com um álbum repleto de canções honestas, críticas e retratam uma realidade preocupante. Podemos classificar American Life como o trabalho mais singelo e edificador da Madonna, e talvez seja esse o motivo das baixas vendas em um momento da história em que as pessoas sentiam a necessidade de uma distração, uma fuga do caos.

American Life é, no sentido mais popular, o “dedo na ferida”.

De início temos o single que é homônimo ao álbum, American Life, e a partir dele já podemos perceber a desconstrução que Madonna sugere. O conceito de “American Way of life” é difundido na maior parte do globo, e é o que move o consumismo, o individualismo e a maneira como todos nós deveríamos direcionar nossas vidas. Nessa música, Madonna faz um exame dessa ideia e, o mais curioso, ela não se exclui. Em momento algum da música, Madonna se liberta da responsabilidade perante às tragédias mundiais. Ou seja, agora ela entende que fazer parte desse modelo é prejudicial. A música aborda a questão de gênero, o fracasso na tentativa de pertencer ao padrão, a omissão de nossa personalidade para sermos aceitos pela sociedade.

Que esse “sonho americano” traz consequências incontroláveis. Que vivemos em uma bolha e somos permeados de ilusões e jamais estamos satisfeitos: sempre queremos mais trabalho, mais riquezas, mais sonhos, mais roupas, mais amores, mais vontades, enfim. Nessa faixa, o sentimento de incompreensão do mundo é evidente. No clipe polêmico, que foi censurado na época de lançamento, Madonna mostra como a guerra é vista pelos que detêm o poder: como uma forma de entretenimento.

Temos também a música Hollywood e traz uma melodia dançante, envolvente. Nessa canção, Madonna fala sobre luxo, riqueza e como tudo é lindo em Hollywood. Logicamente, o lugar representa de forma bastante fiel o que é o tal “american way of life”. Uma região onde todos são felizes, alegres, vivem bem e possuem os melhores empregos. É uma espécie de metáfora sobre a vida perfeita que todos nós desejamos e buscamos, e a própria Madonna diz que está inserida nessa cultura e já viveu no “modo automático”. Inclusive, na letra Madonna afirma que a libertação desse mundo de fantasia é dolorosa porque há um conforto (que é ilusório), um alívio quando não questionamos. Ao nos resignarmos, somos aceitos e acolhidos, afinal o que importa é ter uma vida dentro do padrão, e qualquer um que fuja disso será visto como descartável.

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Na música, Nobody Knows Me, a voz de Madonna foi alterada e traz um som mais robótico, o que traz a ideia de tecnologia e modernidade dos dias atuais. A letra é repleta de mensagens, e aqui podemos dizer que a principal ideia é a incompreensão do mundo perante aqueles que se sentem diferentes. Há também a questão da manipulação das mídias e como a ilusão é necessária para que haja o controle da massa. Madonna diz que teve de morrer para perceber que estava no caminho errado, e que ao abrir a mente pôde observar que vivemos em uma sociedade incoerente. Existem várias “doenças sociais” e elas são perigosas, portanto precisamos reavaliar nossa forma de enxergar o mundo, o que assistimos à televisão, como nos relacionamos com o próximo. Além disso, em um dado momento na música, Madonna diz que não é possível reverter o caos social, no entanto podemos impedir que a sociedade continue entorpecida e que dias melhores poderão vir.

Já na canção chamada I´m So Stupid, Madonna prefere ir direto ao ponto e sem rodeios. Ela diz que era uma idiota por acreditar em um modelo de vida ganancioso e nocivo, ou seja, o “sonho americano” é uma armadilha do sistema. E é nessa rede de devaneios que todos nós estamos inseridos, e o processo de desapego e de expandir sua visão de mundo são fundamentais. Com uma letra forte, verbos no passado e presente, Madonna fala sobre o aqui e o agora. Que nunca estamos satisfeitos, felizes, estamos sempre buscando mais, trabalhando mais, comendo mais, cada vez mais ansiosos e preocupados. O título da música é bastante explícito e em um dado momento Madonna diz que todos nós somos estúpidos, tolos: devemos ficar ofendidos com essa afirmação ou aceitar que, de fato, precisamos nos libertar das amarras sociais e questionar o mundo ao nosso redor?

Como há músicas que falam abertamente sobre uma desconstrução de mundo, uma percepção atualizada da “bolha” em que vivemos, também há aquelas canções que mostram uma direção, uma saída. Que nos atenta para um exame interno de valores, dúvidas, opiniões, de sentimentos...

Em Easy Ride, por exemplo, Madonna escreve que precisamos achar nosso lugar no mundo e que pode ser qualquer um: construindo uma família, sendo bom em sua profissão, ajudando o próximo, desejando o melhor para quem quer que seja. Os arrependimentos, as mágoas, as feridas devem ser libertadas e curadas, e que para isso o ideal é olharmos para dentro de nós mesmos e sermos a mudança que queremos para o mundo. Esse processo de autoanalise é duro, doloroso, mas proporcionará uma leveza na alma, na mente.

Love Profusion é uma música que fala sobre o papel do amor, da abundância desse sentimento revolucionário e que há tempos está escasso. Inclusive, há um trecho em que Madonna usa a metáfora da pele para nos contar que antes de conhecer o mundo precisamos nos conhecer, nos fortalecer e procurar pelas nossas verdades. E podemos sentir amor próprio, pela nossa família, pelos nossos amigos, pelo nosso bairro, pela criança desabrigada, pelo refugiado, enfim. Amor é a resposta. Amor é a nossa maior demanda. Que a diversidade deve ser celebrada, que o isolamento traz efeitos estarrecedores.

Na música Nothing Fails, temos uma letra repleta de afeto e ternura, e a voz de Madonna é suave, tranquila. Ao ouvirmos a música, temos a sensação de tudo ficará bem, que estamos sendo acalentados depois de tantas lágrimas. Madonna nos diz que não temos que ser religiosos para sentir o que é amor, paz, esperança, para entramos em contato com o Poder Superior de cada um de nós. A mensagem é que existe algo ou alguém que pode afastar tudo aquilo que é ruim, pesado. Que algo (música, arte, livros, etc) ou alguém (Deus, pais, familiares, amigos, nós mesmos) pode nos deixar mais firmes e resilientes. Nada acontece por acaso, não carregamos um peso maior que nossa capacidade de aguenta-lo, nada ocorre sem propósito. Que você é o escolhido: para mudar o mundo, para amar e ser amado, para trazer felicidade e lidar com as tristezas, para cuidar do próximo, para fazer o melhor que puder e dar o máximo de si.

O álbum American Life traz Madonna não como a mulher que sobe ao palco todas as noites e faz sua arte, mas aquela mulher aflita com o seu país e com o mundo, a mãe, a filha que cresceu com sentimento de culpa, a cidadã que quer um governo mais autêntico e que sonha por um futuro acolhedor e igualitário.

Infelizmente, pouca coisa realmente avançou ou mudou do ano de lançamento para cá. Entretanto, alguém disse que é fácil? Alguém falou que iremos acordar em uma sociedade totalmente diferente? Qualquer transformação externa ou interna requer tempo, espaço, amadurecimento, vontade, união, aceitação, atitude. Desistir jamais!

O trabalho de Madonna em American Life não é panfletário, e esse é o fator que mais agrega genialidade e grandiosidade ao álbum. Não existe em música alguma “seja capitalista”, “seja socialista”, “seja a melhor pessoa do mundo”, “tenha dois carros na garagem”, “não compre carro”, etc. Há apenas uma visão de mundo de uma artista, e que ela própria permite aos ouvintes e fãs de fazerem outras interpretações e pensarem de outras formas.

Talvez o maior recado que Madonna nos ajuda a construir é: você está satisfeito com a vida que tem hoje? Você pode fazer algo bom para aqueles te cercam? Você se desafia a abrir a mente e enxergar novas possibilidades? Você está pronto para enfrentar o sistema e aguentar as críticas? Você se preocupa com o que os outros pensam mesmo sabendo que és o escolhido para comandar sua vida, suas decisões? Você tem ambição para alcançar seus sonhos? Você se ama? Você já desejou ser outra pessoa apenas para ser mais aceito?

Se você está infeliz e cansado de tentar se encaixar, por que não tenta ser quem realmente é? Se você está fadigado das decisões do governo, por que não mostra sua opinião? Se você acha que está na profissão errada, por que não escolhe algo que verdadeiramente te faça feliz? Se você quer ser vendedor de miçangas e é algo que te faça sorrir, por que se incomoda tanto com o que vão pensar? Se você sabe que as mídias são tendenciosas, por que liga a televisão para assistir programas fúteis?

Não deixem que te controlem. Que te transformem. Que te digam o que fazer e quando fazer. Que te manipulem ou te suguem as suas energias. Que te proíbam. Que te impeçam. Você pode ser diferente. Você pode ser grande. Você encontrará amigos na sua resistência e nas suas lutas. Você consegue abrir seu coração, mente e seus olhos.


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