a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

Gabriela, Malvina e Glória...

Jorge Amado é um dos maiores escritores Brasil e suas obras são muito famosas. Todos já ouviram falar em Dona Flor e seus dois maridos, Tieta do Agreste, por exemplo. Seus romances já renderam boas adaptações na televisão, cinema e teatro. Sempre com uma linguagem simples, críticas sociais e personagens cativantes, Jorge Amado nos encanta. Quem nunca escutou o refrão “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim”? É exatamente de Gabriela, Cravo e Canela que podemos observar personagens femininas fortes, marcantes e inspiradoras.


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O livro Gabriela, Cravo e Canela, foi publicado na década de 50, e que até hoje continua entre os mais lidos do escritor Jorge Amado. Nesta obra, podemos entender momentos históricos como o ciclo do cacau, por exemplo. Além disso, somos presenteados com criticas sociais relevantes que são, infelizmente, feitas até os dias atuais.

O romance tem como cenário Ilhéus, na Bahia. Um local que está recebendo novas tecnologias e avanços. Entretanto, o povo ilheense continua com costumes antigos, manias obsoletas, comportamentos antiquados. Eis aí uma contradição.

Obviamente, o romance está repleto de personagens masculinos interessantes. O personagem Mundinho Falcão, por exemplo, é um político visionário e que luta pelo progresso. O coronel Ramiro Bastos que representa o autoritarismo. O coronel Melk Tavares que esboça o conservadorismo. Jorge Fulgêncio é dono da papelaria e possui a mente moderna.

Eles, e outros personagens, renderiam um ótimo texto, porém Jorge Amado nos cativa igualmente com as personagens femininas.

Malvina, Glória e Gabriela são algumas personagens inspiradoras.

Glória é tratada pelo povo ilheense como “rapariga”. Ela sempre ficava observando a rotina da cidade pela janela de sua residência, e incita as imaginações dos homens devido seu decote, sua ousadia. Em dado momento, ela é reconhecida pelo papel de educar os jovens sexualmente, afinal as mulheres serviam para fecundação e as raparigas para o entretenimento. A personagem vive em um relacionamento com o coronel Ribeirinho que, em troca, leva uma vida confortável com boas roupas, casa equipada, boa comida, etc.

Nesse caso, podemos considerar que, de certa maneira, Glória representa o meretrício. A prostituição, até nos dias de hoje, é uma forma de experimentar a liberdade física e moral. De fato, não podemos negar que ainda vivemos em um mundo de forte opressão à mulher e pela falta de oportunidades, de espaços e pela condição desigual, muitas se submetem a libertinagem.

Na realidade, a prostituição funciona como manutenção do sistema e reação ao mesmo: preserva o patriarcado e cria, ao mesmo, uma oposição a essa estrutura social.

Outro ponto interessante que podemos destacar é a união entre Glória, coronel Coriolano e Josué. Ao assumir tal vínculo, ela expõe aos ilheenses sua emancipação e sua coragem de contrariar o padrão de relacionamento válido. É digno de nota lembrar que, qualquer outra mulher que tentasse fazer o mesmo, seria advertida ferozmente.

E a Malvina? Quem era?

Uma jovem da alta sociedade e que foi criada conforme as tradições da época, filha do inclemente coronel Melk. Malvina era incompreendida pela família por seu hábito de questionar os velhos costumes, e por acreditar que poderia ter uma carreira profissional promissora. Ela pode representar uma independência mental através dos livros, de sua ambição em se tornar uma mulher instruída, qualificada.

E ao lutar para conquistar seus projetos, Malvina não estava enfrentando apenas sua família, mas toda aquela comunidade enraizada nas convenções mais antigas. Perante a sociedade ilheense, alguns a viam de um jeito mais enigmático, e outros a criticavam justamente por ter um discernimento amplo do mundo e de seus sonhos.

De acordo com sua criação mais rígida, ela sabia que única educação viável era voltada para os afazeres domésticos e para o himeneu.

Sendo assim, Malvina gostaria de formar uma família por amor, afeto e jamais pensava em repetir o paradigma de sua mãe, avó, e de várias outras que se casaram por obrigação. É relevante dizer que, muitas mulheres enxergavam no casamento um caminho assegurado para conseguir gozar de uma boa reputação ou status. À vista disso, nossa querida Malvina não pensava na necessidade de um homem em sua vida para ser livre...ela confiava o suficiente em si mesma para voar, alcançar seus objetivos.

E, por último, porém não menos importante, falaremos sobre Gabriela.

Uma mulher com história de vida sofrida, de origem muito humilde e que, em momento algum, perdeu a alegria dos prazeres mais simples. Adorava dançar, cozinhar, arrumar a casa, brincar com as crianças, andar descalça...

Gabriela traz aquela sensação de que podemos ser autossuficientes através das vontades, da distração, pela utilização do corpo, dos sentidos. Para compreendermos melhor, nossa personagem acreditava na separação entre amor/sexo e, que poderia conciliar ambos sem aflição, padecimentos.

Por esse ângulo, ela não entendia os preceitos monogâmicos como a fidelidade, o ciúme, a exclusividade sexual, o “resguardar-se”. Além disso, por intermédio de Gabriela, podemos fazer alguns questionamentos: “por que só o homem poderia vivenciar as mais diversas façanhas sexuais?” “por que a fidelidade era um ônus apenas para a mulher?” “por que não poderíamos experimentar o prazer de um jeito recreativo?”.

Resumidamente, Jorge Amado nos proporciona uma visão que, lamentavelmente, ainda temos: o mundo que pertence aos homens, o mundo que coloca as mulheres como seres secundários e desprovidos de metas, desejos, e etc.

Vamos continuar diferenciando as mulheres como “para casar” e para “diversão”? Até quando permitiremos que a prostituição, uma profissão tristemente rebaixada, seja a única solução para milhares de jovens? Por que não incentivamos meninas e meninos a terem grandes interesses? Vamos continuar vivendo em “uma Ilhéus” de hábitos primitivos, desatualizados?

Até quando?


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