a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

O nome do paciente é: Brasil

Nos últimos anos, os noticiários mostraram inúmeras reportagens sobre o vírus zika e informações sobre a doença, transmissão, profilaxia. Desde então, muitas discussões e pesquisas foram feitas para entender os sintomas, a razão para o surgimento de uma nova epidemia, a relação do vírus zika com a microcefalia. No livro, Zika - do sertão à ameaça global, escrito pela antropóloga Débora Diniz podemos perceber, de uma forma mais ampla as possíveis causas e consequências do vírus zika não apenas no nordeste como em todo país. Com uma linguagem simples, Débora nos convida para uma reflexão de nosso modelo de saúde atual.


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De forma geral, o mosquito Aedes aegypti já é conhecido em nosso país há muito anos. Na realidade, podemos dizer que ele faz parte de nossa história. Vale lembrar que foi apenas no século XX, que chegamos à descoberta do Aedes como transmissor da febre amarela. Logicamente, medidas de segurança foram tomadas na época, e na década de 50, a ONU declarou a erradicação do mosquito em nosso país. O mosquito voltou ao Brasil e nunca mais foi embora a partir do ano de 1976. De lá para cá, outros desdobramentos aconteceram e soubemos que o inseto transmite uma doença chamada dengue, por exemplo.

Com o afrouxamento das políticas de saúde pública e a urbanização desenfreada o mosquito ganhou força e já acometeu milhões de brasileiros, inclusive levando ao óbito.

Como se não bastasse a febre amarela e a dengue, a partir de 2013 também tivemos que lidar com a chikungunya e o zika vírus. É importante frisar que o Aedes ganhou outras facetas e novas enfermidades apareceram em nosso cenário. Resumidamente, os sintomas são todos parecidos: dor forte nas articulações, febre alta, etc.

Possivelmente, o zika assumiu uma visibilidade mais assustadora e temida, afinal a possível relação entre o zika e os casos de microcefalia nos bebês repercutiu internacionalmente. No livro, Zika – do sertão à ameaça global, escrito pela antropóloga e professora Debora Diniz, podemos observar como o zika afetou a vida das pessoas, alterou sonhos e impediu uma jornada tranquila para vários cidadãos. Sobre a origem da chegada da doença aqui no Brasil, as hipóteses podem ser questionadas: alguns acreditam que teria chegado durante o campeonato de canoagem (Polinésia), outros a Copa do Mundo Fifa ou Copa das Confederações Fifa. De qualquer maneira, os primeiros casos foram notificados na passagem de 2014 para 2015, e é a partir daí que uma equipe de cientistas, biólogos, médicos e diversos profissionais da saúde se juntaram, criaram uma rede de comunicação através dos aplicativos e redes sociais e foram movidos pela curiosidade de entender o que estava acontecendo no país.

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O zika, segundo tal livro, deve ser compreendido de duas formas: o surto da doença e a relação com os casos de microcefalia.

Muitos especialistas e médicos se uniram e com suas vocações estudaram profundamente os adoecidos, não apenas no nordeste, mas em todo país.

Em um primeiro momento, precisamos entender que a região nordestina, assim como as demais, foi severamente acometida pelo zika. Além disso, como havia um desconhecimento enorme em relação à doença, muitos acreditavam que seria uma espécie de dengue fraca ou alergia. Os leitos dos hospitais estavam lotados e havia pouquíssimo conhecimento a respeito do zika vírus.

Pessoas foram inspecionadas, exames foram coletados e levados para laboratórios com alta tecnologia da região sul e sudeste do Brasil. Foi um trabalho árduo para chegar à conclusão de que a “dengue fraca” fosse, na verdade, um arbovírus de origem africano chamado zika cujo significado é “coberto de ervas” ou “muito crescido”. Além disso, eles também conseguiram identificar o vetor da enfermidade, o Aedes aegypti, um velho conhecido do brasileiro.

Em um segundo momento, é importante observarmos o aumento no número de bebês com microcefalia e uma possível ligação com o vírus do zika. Através do livro escrito por Debora Diniz podemos conhecer a história de uma jovem italiana que veio à região nordestina brasileira, casou-se, teve sintomas de zika e ficou grávida. Depois do retorno ao seu país de origem, a futura mãe refez os exames de praxe na gestação e os médicos perceberam que havia algo diferente: manchas brancas no cérebro da criança. A moça fez pesquisas, buscou repostas para o problema do filho nos livros e não obtinha resultados satisfatórios, e então viajou para Eslovênia e teve acesso a um centro de referencias em doenças tropicais. Infelizmente, o bebê não sobreviveu e havia fortes suspeitas da associação do vírus zika com as calcificações no cérebro de seu filho.

Aqui no Brasil, mais especificamente nos estados nordestinos, acontecia o mesmo com diversas mulheres que chegavam ao consultório médico e recebiam a notícia de que seus filhos estavam doentes. A ultrassonografia de várias mulheres grávidas apresentavam fetos com as mesmas calcificações cerebrais, e os médicos questionavam “por que?” “o que essas mulheres têm em comum?”. Desconfiavam de quase todas as enfermidades e alguns apostavam em diagnósticos como citomegalovírus, por exemplo, e descobriram após intensas buscas por respostas que todas tiveram os efeitos do zika vírus antes ou durante a gestação.

Muitos médicos contribuíram para o desenvolvimento das investigações sobre os efeitos do vírus zika na gravidez e merecem ser reconhecidos pelo seu custoso trabalho. De uma forma triste, alguns profissionais não foram gratificados, especialmente os da região nordestina. No entanto, sem a força dessas mães a ciência nada poderia fazer ou realizar, e talvez jamais entenderíamos a epidemia de zika. Vale lembrar, inclusive, que alguns doutores diferenciam a microcefalia – que pode ter muitas causas, desde limiar genético e outras doenças – do que veio a ser chamado de síndrome congênita do vírus zika.

Podemos questionar os motivos do mosquito vetor não ser eliminado de vez do nosso cotidiano, e precisamos compreender que um dos fatores que contribuem com o cenário de surtos de dengue, zika e chikungunya, é o saneamento precário. É inadmissível que nos tempos de hoje, no século 21, ainda tenhamos regiões onde o esgoto percorre calçadas, ruas. Enquanto o governo não elaborar estratégias para a melhoria dos serviços de esgoto e saneamento, teremos que conviver com um mosquito que traz sofrimento, dor e agonia.

O nosso Sistema Único de Saúde não está preparado para cuidas de todos os brasileiros que adoecerão nos próximos anos, e é exatamente por isso que a expressão “o Brasil está em coma” nunca fez tanto sentido. As crianças que foram diagnosticadas com microcefalia necessitam de tratamentos contínuos, indispensáveis para um crescimento saudável, e eis a pergunta: os nossos hospitais estão capacitados para receber essas crianças?

Serão necessárias que mais mães vejam seus filhos mortos para que políticas de saúde públicas saiam da teoria? Quantas mulheres nordestinas e pobres ainda terão que pedir ajuda de familiares para conseguirem um tratamento digno para seus bebês?

De fato, a participação da população para conter a força do mosquito também é importante. Através das campanhas de conscientização, milhares de brasileiros trocaram a agua pela areia nos pratinhos de plantas, por exemplo. A partir do momento em que combinarmos o esforço de toda uma população informada e atualizada e políticas públicas eficazes, talvez poderemos ter uma vida mais qualificada.


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