a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

A incompreensão nos dias atuais

Você já se sentiu incompreendido? Você já sentiu que, ás vezes, as pessoas não te entendem da forma como gostaria? Você já se sentiu deslocado por não compreenderem sua visão de mundo? Você já se sentiu como a pessoa mais estranha do universo por pensar diferente da maioria? Você já sentiu uma obrigação de explicar algo para alguém e fazê-la entender sua perspectiva? Você já chorou por não saber como esclarecer seus pensamentos e sentimentos? Você já se calou por medo da repreensão dos que estão ao seu redor?


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Permita-me a brincadeira: se você leu a introdução, talvez ainda não tenha compreendido o assunto desse texto. E, provavelmente, deve estar se perguntando “o que ela quer dizer com todas aquelas dúvidas?”. Mas, calma...tentarei explicar da forma mais clara possível.

(Caso não atinja esse objetivo, perdoe-me porque a incompreensão é minha sócia!).

Todos nós temos desejos, vontades e questões sobre as quais ainda não sabemos os meios para expressa-las. Todos nós temos problemas familiares decorrentes de brigas, desencontros que pensamos “por que ela entendeu tudo errado?”. Todos nós tentamos expor nossas opiniões, e com o advento das redes sociais a tendência é que os outros possam arbitrar sobre nosso caráter sem, necessariamente, interpretar nossa visão.

Todos nós tivemos dificuldade em assimilar uma disciplina escolar, e sentíamos medo de explanar isso para os colegas por causa de piadinhas. Todos nós tentamos, e continuamos tentando, fazer alguém apreender nosso comportamento. Todos nós levamos broncas de nossas mães e pais por um comentário descabido, porém nas nossas pequenas cabeças ele era óbvio. Todos nós buscamos descrever o caminho para um estranho que pede informação de um endereço, e que por não saber como descrevê-lo, de maneira transparente, dizemos “sou novo aqui no bairro”.

Todos nós arriscamos tomar partido de uma discussão, e por receio de falar algo inteligível nos calamos. Todos nós (ou pelo menos aqueles que querem um mundo melhor) vemos uma ilicitude acontecendo e ignoramos porque, assim como a vítima, nós sentimos que ninguém nos compreenderá.

Há uma preocupação excessiva para que os outros nos aceitem e, além disso, para ouvirmos “eu te entendo”. Há uma ansiedade imensurável para discorrermos sobre nossas angustias e sermos acolhidos. Há uma grande incerteza sobre como comer, andar, vestir-se, cantar, transar, rezar, estudar, enfim.

Estamos vivendo em um mundo tão complexo que não há espaço para diálogo. Estamos vivendo em um mundo tão dinâmico que as incompreensões viram rotina. Estamos nos privando de escolhas, alegrias e de liberdades por medo.

Mas, de que?

De críticas negativas e que afetam profundamente, de julgamentos que podem machucar, de exposições que geram comentários maldosos, de optar por um estilo de vida e ser hostilizado por isso. De sermos vexados por revelar nossas fantasias sexuais e nossos prazeres, de sermos assediadas por usarmos um tipo de roupa. De sofremos por causa da violência, de falar o que pensamos.

Medo de sermos desentendidos. Sim, possivelmente, seja esse o maior pavor.

E quer saber os efeitos desse temor?

Isolamento social e familiar. Timidez, rejeição, impaciência. Noites mal dormidas, falta de criatividade, baixa autoestima. Crise de choro, pessimismo, falta de confiança em si próprio. Perda da ambição e da motivação. Sensação de estarmos anestesiados. Ausência da fé (não aquela religiosa, e sim aquela que nos faz acreditar em dias felizes). Tristeza, diminuição da coragem para novas aventuras amorosas, variações de humor, necessidade de fuga da realidade. O sentimento de impotência, de prostração.

Sinceramente, parece que existe uma voz dentro de nossas cabeças dizendo incessantemente “ninguém te compreende porque é inútil, incapaz”. E esse ruído mental não pede licença, some e reaparece quando quiser, acomete nossa vida diária e gera limitações. Ah, antes que me esqueça, ele possui forte propensão de fazer os outros rirem de nós. Em um primeiro momento, falar sobre esses problemas parece ser algo tão pequeno e simplório tendo em vista as atrocidades que ocorrem no mundo atual. Contudo, esses contratempos estão impedindo jovens e adultos de interagirem com o ambiente, criar laços e fortalecer vínculos.

Onde devo ir para me sentir parte do bando? Qual grupo pertencer para que minha visão seja respeitada e notada? Onde posso externar meus sentimentos sem hesitações? Até quando as pessoas reproduzirão o padrão? Existe uma regra de como pensar?

Na verdade, todas as pessoas que criticam sua mente desvairada ou julgam suas percepções incomuns não sabem viver com a multiplicidade. Um dia, porventura, elas possam descobrir que é possível conviver harmonicamente onde as incompreensões não sejam reprimidas.

Obviamente, não somos seres humanos iguais. Cada um de nós possui particularidades, opiniões e personalidades diferentes. Cada um de nós passou por experiências únicas. O problema é que estamos perdendo nossa capacidade de ouvir o outro gradativamente. Entender e compreender o que o próximo tem a nos oferecer, a nos ensinar. Quando nos silenciamos por medo de represálias e modificamos nossa maneira de viver apenas para sermos parte do grupo, estamos nos prejudicando e criando uma felicidade manipulada.

Apesar de todo sofrimento que as incompreensões podem nos causar, há também maneiras de usa-las ao seu favor: a partir do momento que você percebe que seu desajuste é uma forma de diversidade. Que não existe nada de errado com você por pensar diferente. Que a arte, música, a literatura, amizades saudáveis, cinema e várias outras fontes de expressão e inspiração podem trazer conforto. Que abrir a mente e refletir inusitadamente é vantajoso. Que existem pessoas que sobrevivem como você sobrevive.

Já experimentou mostrar sua pluralidade? Já tentou, pelo menos uma vez, seguir seus sonhos sem ouvir o julgamento alheio? Já parou para pensar naquela velha frase “se precisa forçar, é porque não é o seu tamanho”?

Se você sente que é incompreendido de alguma forma, não se preocupe. Seja bem vindo ao clube!

E lembre-se sempre, por favor:

- “Por que você luta tanto para se encaixar se na verdade você nasceu para se destacar?”.

- “Se você sente que não se encaixa no mundo, talvez você tenha vindo para ajudar a criar um mundo novo”.


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