a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

Sedutores, frios e sem consciência

Ansiedade, transtornos de personalidade, depressão, psicopatias e vários outros distúrbios psicológicos nunca foram tão comentadas como nos últimos anos. São assuntos polêmicos que possibilitam uma enorme discussão através de pesquisas na área de psiquiatria, filmes, séries, livros. Os psicopatas, por exemplo, podem ser encontrados em todos os setores da sociedade. E, talvez, seja por isso que nos intriga tanto. Quando pensamos em um deles é sempre comum imaginarmos um cruel assassino ou um sujeito hediondo, porém hoje sabemos que muitos não chegam ao extremo de cometer um crime perverso


O livro Mentes perigosas – o psicopata mora ao lado escrito pela psiquiatra brasileira Ana Beatriz Barbosa Silva, nos mostra de forma bastante objetiva e simples como os psicopatas agem, vivem e se comportam. Com uma linguagem comum, podemos compreender melhor a psicopatia e nos esquivar dos preconceitos em relação ao tema.

Comecemos pelo começo... É fundamental entender que há uma infundada ideia do termo “psicopata” por indicar uma doença mental. A palavra, de modo literal, tem esse significado, porém a psicopatia nos dias atuais não se encaixa na visão habitual de doenças mentais. Para a OMG, a expressão mais correta seria Transtorno de personalidade dissocial, por exemplo.

Durante muitos anos, usou-se o nome “sociopata” para falar desses indivíduos porque havia a crença de que todos os seres humanos nasciam bons, e que a sociedade os corrompiam. No entanto, atualmente, sabemos que não é bem assim: muitos especialistas acreditam que o senso moral está presente no DNA. Mas essa ideia pode ser questionável, afinal há certos fatores que favorecem atitudes psicopáticas e crimes graves como a “cultura da esperteza”, leis ineficazes, corrupção e etc. O diferencial é que os psicopatas são indiferentes em relação aos crimes que cometem, não possuem empatia alguma.

Esses indivíduos são muito racionais em suas atitudes. Eles são inteligentes e possuem um grande conhecimento sobre vários assuntos, contudo pecam na superficialidade de conteúdos. Por outro lado, são totalmente deficientes de emoção, de compaixão e amor ao próximo. E, quando se sensibilizam com alguém é apenas encenação, um teatro para comover a “vítima”. São pessoas egocêntricas e vivem de acordo com suas próprias regras e vontades, possuem facilidade em mentir e não sentem culpa. Para eles, o remorso é uma ilusão que impede suas ações, seus desejos e por isso não se preocupam ao serem desmascarados.

Não se engane! Quando pensamos em um psicopata é comum idealizarmos alguém extremamente cruel, hostil, com mãos sujas de sangue. Na verdade, muitos não chegam ao extremo de realizarem transgressões tão hediondas. A psicopatia tem prevalência, segundo profissionais da área, de cerca de 3% em homens e 1% em mulheres. E desse percentual, uma minoria representa aqueles que chegam a cometer crimes bárbaros, perversos. Furtos, roubos, arrombamentos, falsificação de documentos e etc, são delitos habituais para esses psicopatas. E aqueles que são considerados os mais perigosos são capazes de crimes inimagináveis, desumanos.

É importante lembrar que muitas pessoas praticam delitos porque são influenciadas pelo meio, pela desigualdade social e pela falta de mesmas oportunidades. Apesar disso, não devemos esquecer que os psicopatas são pessoas sem consciência genuína e fazem todos ao seu redor soldados de suas vontades. Diante disso, as vítimas percebem a destruição em todos os setores de suas vidas após um contato íntimo com um psicopata. Aliás, alguns psiquiatras os chamam de “vampiros sociais” porque eles tendem a sugar os sonhos, as esperanças que os outros inocentemente depositam neles.

E, sim, eles estão em todos os lugares e em todas as culturas. Estão por aí, como a Ana Beatriz explica claramente, disfarçados de políticos honestos, religiosos exemplares, chefes tiranos, pais e mães de família, enfim.

Uma pergunta importante: se a grande maioria da população é relativamente boa, por que o mundo nos parece um lugar tão apavorante?

Para respondê-la precisamos entender que todos os acontecimentos, sejam eles adequados ou não, são feitos com as nossas mãos. Nós, como cidadãos, somos responsáveis por tudo que ocorrem em nossa cidade, em nosso país. Contudo, os psicopatas ou aqueles que vivem de maneira psicopática, quando efetivam suas contravenções produzem impactos gigantescos.

Além disso, pessoas “do mal” possuem a tendência de se unirem. Basta vermos os comentários nas redes sociais, por exemplo, marcados por ódio e preconceito receberem apoio, cumplices. Enquanto que algumas “pessoas do bem” inclinam-se ao medo, a resignação e se sentem sozinhas. Os indivíduos generosos e caridosos, tendo como exemplos, são diminuídas e desencorajadas por parte da sociedade.

Outro fator significativo é a “cultura da esperteza” que a médica Ana Beatriz expõe em seu livro. O que seria isso, afinal? Vivemos em um mundo cada vez mais dinâmico, mais frenético e que vulgariza as maldades. Milhares de pessoas, infelizmente, se acostumaram com o cenário de violência e com a desordem na vida cotidiana. Ademais, a cultura influencia os valores morais de uma determinada sociedade e organiza também os status hierárquicos de cada elemento social.

A grande questão dessa “cultura da esperteza” é os membros dela não se contentam com o “ter”. Eles sempre querem mais, o melhor, o mais bonito, o mais prazeroso. E para alcançar esses objetivos eles não medem esforços. Estamos vivendo em uma cultura que favorece o sujeito em detrimento da humanidade como um todo. Ou seja, a pessoa tem o ônus moral de procurar sua felicidade antes de qualquer outro dever com o próximo.

E não podemos ignorar que atualmente, há uma grande propagação sobre a psicopatia através dos filmes, series e documentários. Diversos artistas, felizmente, colaboraram para trazer uma faceta da psicopatia realmente interessante e, de certo modo, educativa. E, de alguns anos para cá, diretores e produtores focam nessa temática para nos informar acerca da psicopatia. O grande problema, talvez, seja a glamourização ou a banalização que fazem desses distúrbios psiquiátricos. Muitos profissionais do cinema mostram a psicopatia ou outros transtornos de uma forma bela, emocionante, sensual e fascinante.

E se não tomarmos um cuidado maior, uma precaução, acabaremos aceitando o comportamento psicopático como uma forma de viver natural, bonita ou eficiente para obter a satisfação dos nossos desejos.

O que precisamos fazer para contornar toda essa situação e criar um mundo melhor?

É a hora de realizarmos uma forte reflexão sobre a vida coletiva e individual. Para iniciar, precisamos reavaliar nossa conduta no dia a dia em relação as pequenas infrações, como estacionar em vaga para deficiente, furar fila, sentar em locais preferenciais em transportes públicos, jogar lixo na rua, etc..

Devemos, imediatamente, reconsiderar as etapas pelas quais nossas crianças e nossos adolescentes assimilam os valores e mecanismos sociais. Para que isso aconteça, todas as instituições terão que manifestar empenho, responsabilidade e colaboração. Uma educação realmente voltada para o respeito, a empatia, a solidariedade e os bons preceitos são importantes nessa jornada de mudanças.

Vale lembrar que qualquer avanço capaz de trazer benefícios e progressos, sejam eles sociais, econômicos ou políticos, são bem recebidas e necessárias. O que não pode ocorrer é fundamentar pretextos para o consentimento de uma sociedade formada por seres humanos desinteressados com os outros que estão ao redor.

Em Mentes perigosas, por exemplo, a autora lista algumas estratégias para sobrevivermos à psicopatia, como jamais se tornar cúmplice de um ato feito por um psicopata ou não cair no jogo de “coitadinho” que eles costumam fazer com maestria. Também é importante que tenhamos uma série de técnicas para “afastar” os psicopatas e impedir suas ações maldosas. Um conhecimento, mesmo que simplório, sobre a psicopatia pode ajudar a nos afastarmos dessas pessoas.

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