a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

Vozes de Tchernobil

“...O que me interessa é o pequeno homem. O pequeno grande homem, eu diria, porque o sofrimento o torna maior. Nos meus livros, ele próprio conta a sua pequena história e, no momento em que faz isso, conta a grande história. O que aconteceu conosco é ainda incompreensível, é preciso ser pronunciado...” O livro Vozes de Tchernobil, escrito por Svetlana Aleksiévitch, ganhador do Prêmio Nobel, merece todo destaque e reconhecimento. Não apenas por falar de uma das maiores tragédias nucleares, mas por tocar no nosso lado mais íntimo e humano com os vários relatos e histórias.


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No dia 26 de abril de 1986, na usina nuclear de Tchernóbil, Ucrânia, ocorreu uma explosão seguida de um incêndio. Obviamente, isso acarretou uma série de problemas e catástrofes: uma quantidade inimaginável de elemento radiativo foi lançado na atmosfera da URSS, e dias depois outros países europeus foram atingidos. Foram dias muito difíceis, angustiantes e milhares de pessoas, infelizmente, morreram em decorrência da altíssima radiação.

Através do livro Vozes de Tchernóbil, a escritora e jornalista Svetlana Aleksiévitch, coletou diversos depoimentos das pessoas que vivenciaram essa tragédia. Com muita delicadeza e sensibilidade, Svetlana imortalizou a voz de homens, mulheres, crianças, idosos, soldados, que participaram desse capitulo tão triste de nossa história. São relatos honestos de cidadãos comuns que nos fazem olhar para o acontecimento em questão de forma mais humana, mais atenta.

Para falarmos de Vozes de Tchernóbil precisamos, de forma resumida e objetiva, mencionar o contexto histórico e social da época...

Sob a liderança de Mikhail Gorbachev, líder da URSS, apresenta-se um projeto de reestruturação econômica (perestroika) e de transparência política (glasnot) devido a uma séria crise nos anos de 1980. Apesar dos esforços para conter a forte instabilidade em todos os setores da sociedade, no início dos anos 90, a URSS começa o processo de fragmentação. Vale ressaltar também que a queda do muro de Berlim ocorreu no final década de 80 representando, assim, o fim do maior símbolo da Guerra Fria.

Na cidade mais próxima da usina nuclear de Chernobyl, Pripiat, durante a madrugada, ocorre uma explosão que trouxe consequências complicadíssimas na vida cotidiana das mais de 40 mil pessoas. Inclusive, os primeiros bombeiros que chegaram ao local (acreditando que seria um incêndio comum), não receberam orientação alguma em relação às vestimentas e os aparatos de proteção colocando, assim, em total risco suas vidas. Muitos deles morreram em questão de minutos, e outros faleceram depois de poucos dias. Obviamente, eles não puderam fazer grande coisa porque os materiais em combustão dificultavam o controle das chamas, da fumaça radiativa.

Sabe-se que na manhã, após o “acidente”, as pessoas permaneciam com seus hábitos rotineiros: trabalho, escola, trânsito, etc, a vida fluía normalmente. Não havia sinais de qualquer confusão. As autoridades políticas não mencionaram o fato para a população seguindo a lógica de não semear o pânico, a desordem. A partir do dia 27 de abril, centenas de famílias foram evacuadas rapidamente para regiões mais distantes e, através dos vários depoimentos coletados pela autora, sabemos que diversas pessoas eram retiradas das suas casas sem explicações ou informações que justificassem tal ação. Se a intenção do silêncio político era controlar o medo dos cidadãos, eles nunca se sentiram tão vulneráveis ao deixar seus sonhos, seus bens para trás. É importante lembrar que os soldados ocuparam não apenas as ruas da cidade de Pripiat como também os bairros vizinhos, e neles aconteceram evacuações igualmente.

Em certos trechos, sentimentos a infelicidade das pessoas que moravam nas aldeias provocaram resistência à desocupação. Eles não queriam deixar suas plantações, tudo que construíram, afinal de contas muitos desconfiavam do “acidente” na usina. Aliás, quando essas pessoas chegavam as cidades para tentarem uma nova vida, elas sofriam forte preconceito: humilhações, discriminações, bullying.

Nada era pormenorizado. Havia uma intensa desconfiança pairando a mente dos habitantes.

Não podemos, de forma alguma, nos esquecer dos chamados “liquidadores” – homens que eram voluntários (alguns intimados, obrigados, diga-se de passagem) para limparem o teto da região em que houve tal desgraça: eles recebiam uma pá, colete de chumbo, mascara antigás e eram monitorados pelo comandante/general do exército. Eles ficavam expostos a tanta radiação que seria impossível calcularmos, o corpo sofria de forma imensurável com toda aquela toxicidade. Como pagamento, o governo prometera uma boa grana, mas apenas uns poucos receberam a quantia (ainda em vida), e muitos ganharam somente um certificado comprovando seus esforços. Muitos morreram, poucos sobreviveram com a saúde debilitadissíma, com graves sequelas, até os dias de hoje.

No livro, também descobrimos que vários helicópteros foram usados na tentativa de lançarem areia e outras substâncias para apagar o incêndio e amenizar a fumaça. Não houve sucesso, ademais os pilotos e todos que estavam ali presentes receberam doses de radiação tão absurdas que muitos tiveram que ser levados para os hospitais. Eles sobrevoavam o local com extrema rapidez e precisão, porém sem nenhum tipo de resguardo.

Os animais morreram. Os soldados e caçadores, muitas vezes, os matavam: pássaros, vacas, animais silvestres, etc.

É importante notar que esse povo, lamentavelmente, já havia se acostumado com a ideia da guerra devido ao histórico conflituoso, sangrento e violento da URSS. A maior interrogação naqueles dias era: quem é o inimigo agora? O átomo? As partículas? Quem? O adversário era invisível, silencioso, feroz, moderno. O adversário não dispunha de arma ou trincheira, mas de partículas radiativas que geravam doenças perversas, mortes dilacerantes e cenas comovedoras.

Sonhos foram destruídos. Vidas foram levadas. Lágrimas eram os únicos bens que eles possuíam. Dor era rotina. Medo como denominador comum.

Uma coisa é fato: Chernobyl jamais será esquecido. E dar voz aqueles sobreviventes e a todos que sentiram na pele a impetuosidade do átomo, que foram ignorados ou calados durante anos e anos, é trazer o lado mais humano a tona. Falar de milhares de pessoas afetadas por essa guerra, esse desastre, é olhar para si, para seus próprios valores e agregar tudo aquilo que é bom.

A partir do momento que temos contato com aquelas pessoas através do livro e do trabalho inesquecível feito pela Svetlana, podemos perceber que, apesar da distância, eles também são nossos irmãos e irmãs. Que apesar de nossas dores serem diferentes (fome, miséria, violência, corrupção, e não um ocorrido nuclear) ainda sim podemos senti-la intensamente.

Dar voz ao homem, a mulher, ao idoso, a criança, ao soldado de Chernobyl, enfim, dar voz a alguém é, antes de qualquer coisa, perpetua-la na história. É confirmar um tempo, um contexto, um problema, é ratificar o homem como criador e ator de sua época.

Um livro necessário, relevante e que sempre será lembrado com carinho pelos leitores e críticos. Tocante, profundo e extremamente humano e honesto.

“...O que me interessa é o pequeno homem. O pequeno grande homem, eu diria, porque o sofrimento o torna maior. Nos meus livros, ele próprio conta a sua pequena história e, no momento em que faz isso, conta a grande história. O que aconteceu conosco é ainda incompreensível, é preciso ser pronunciado...”


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