a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

A galinha, o homem e a mulher

Para começo de conversa, todos nós ouvimos falar de Clarice Lispector em algum momento da vida. Os textos de Clarice são repletos de sensações e a escritora conduz com maestria as epifanias dos personagens. No conto Uma história de tanto amor, podemos perceber um tema recorrente em muitas de suas obras: a mulher. Essas mulheres ganham ampla importância que toca nas profundezas do ser humano.


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Todos nós, em algum momento da vida, já ouvimos o nome Clarice Lispector. Uma escritora modernista, com obras eternizadas pelos leitores e uma linguagem singular. Os textos da Clarice são recheados de sensações, questionamentos e personagens memoráveis. Ela é muito conhecida por nos conduzir a momentos de epifania, ou seja, aquela súbita situação que permite um processo de autoconhecimento e transparência.

No conto, Uma história de tanto amor, podemos observar um tema habitual em muitas de suas obras: a mulher na sociedade e o despertar profundo dos sentimentos. Esta pequena narração escrita na década de 70, pode parecer distante de nós. Mas, engana-se quem pensa assim, já que ela é relevante para o nosso presente e denuncia certos aspectos ainda vigentes ou impostos à sociedade.

E, neste curto relato, lemos sobre uma menina que amava suas galinhas (Pedrina e Petronilha) e tinha um grande conhecimento sobre suas companheiras. Um belo dia, na casa de um parente, Petronilha virou refeição e todos comeram com satisfação. Depois, foi a vez de Pedrina e a menina, tristemente, colocou a galinha no fogão. Mais tarde, teve uma galinha chamada Eponina, e já sabia que o destino dela era o almoço, afinal não idealizava o amor de antes. Nessa altura do campeonato, já reconhecia que a galinha era um ser solitário e que tinha um uma meta de vida concebida desde sempre: uma receita saborosa.

A menina cresce e se torna uma mulher. A menina inocente e pura que amava, amadureceu e então havia os homens.

Durante muitos anos repetimos o exemplo da menina, e ainda hoje diversas pessoas reforçam essa ideia de que a mulher é mais frágil, mais desalentada. Que mulher pode chorar, servir, sofrer. E, que o homem é como o galo: dono de seu harém, sem um amor verdadeiro e com a função de vigiar a noite para cantar seu famoso cocoricó. O que a galinha e a mulher têm em comum? Fardo e um paradeiro. A galinha carrega a obrigação de produzir lindos ovos e seu rumo é de saciar a fome. Infelizmente, a mulher traz o peso de se adequar ao padrão e seu lugar no mundo é repleto de limitações.

Que padrão? Ser mãe, dona de casa, esposa feliz, filha comportada. Que limitações? Jornada dupla de trabalho, salários desiguais, etc. Não há problema em fazer parte dessas posições, afinal assim como a menina da historinha, muitas mulheres levam a vida com esse ônus. A grande questão é acreditar que só há tal propósito para a vida da menina, da mulher, da moça.

No nosso atual contexto, temos uma ideia de liberdade um pouco mais extensa. Porém, se olharmos cuidadosamente para tudo que acontece ao redor, a sensação é de uma viável ilusão. Apesar de estarmos inseridos em um mundo mais moderno, mais frenético, o cenário humano ainda é infeliz. Homens podem ser provedores do lar, empresários ou empregados, pais destemidos, seres racionais e fortes. Mulheres podem ter o dom da maternidade, cuidam da casa, seres emocionais e com capacidade de imaginação. Resumidamente, homens no papel primário e mulheres em segundo plano. Quando alguém foge dessas alternativas, é visto diferentemente dos demais, um estranho no ninho.

Assim como o nome do livro de coletâneas que contem Uma história de tanto amor, Felicidade clandestina, temos que continuar escolhendo uma felicidade clandestina? Ignorar uma forma de viver que, para o outro, é excêntrico ou ilegal apenas por fugir da regra?

Tantas pessoas acreditam fortemente em destino, em uma trajetória pré- estabelecida e que ninguém é capaz de alterar as direções. Mas, será que não podemos deixar de lado a sina de mulheres e homens que, no decorrer de milhares de anos, nos aprisionaram em certas condições de vivência? Que nos colocaram como modelos únicos e perfeitos de uma sociedade caduca?

Obviamente, grandes movimentos sociais surgiram pela luta dos direitos de homens e mulheres. E com eles ganhamos significativos avanços, isso é inegável. No entanto, para que mudanças revolucionárias ou expressivas realmente atinjam toda a população demandamos muito tempo e paciência. Demandamos coragem, sabedoria e incentivos à educação de qualidade. Necessitamos de pessoas dispostas a abrirem suas mentes ao diálogo, a diversidade.

Ah, não podemos nos esquecer dos grandes símbolos da era contemporânea: as redes sociais. Elas são capazes de facilitar trocas de informações, mostrar mais opiniões e até mesmo de promover ativismos. Lembram da hastag #MeuPrimeiroAssedio em que mulheres registravam o abuso no trabalho, de familiares e desconhecidos? Apesar disso, há o lado contrário: páginas preconceituosas que reforçam o machismo, a violência humana, a ignorância quase que inerente da nossa geração.

Damos um passo. E recuamos dois. Damos um passo. Recuamos mais dois...

A mídia como sempre tendenciosa também contribui para essa caminhada vagarosa, lenta, preguiçosa. Quantas vezes nos deparamos com reportagens ou manchetes que enaltecem uma determinada classe, um determinado sexo? Na verdade, estamos nos acostumando com todo esse universo prepotente, como se fosse “só mais uma notícia parcial”, “ela é só mais uma”, “ele é só mais um”.

Para remover todas essas questões, falácias e moléstias sociais demorará um longo período e precisamos de um ponto de partida.

Olhamos o mundo de forma tão objetiva, dinâmica e nos esquecemos das particularidades e ignoramos o fato de que todos nós temos sonhos e necessidades. É chato sobreviver dia após dia em uma sociedade opressora, que superioriza um lado e rebaixa o outro. Que, desde o nascimento, nos impulsiona a aceitar o destino e levar nos ombros o peso da conformação.


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