a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

Isto também passará

Sabe aquele tipo de texto que não possui a menor intenção de ser conceitual? Sabe aquele tipo de texto que, após experiências pessoais e de outras pessoas próximas, você sente uma necessidade de desabafar sobre essas emoções? Então, é disso que gostaria de falar. Em determinados momentos da nossa vida podemos nos sentir "anestesiados" em relação aos acontecimentos, as sensações, aos comportamentos humanos, etc. Como diz a lindíssima música Sad Song, do grande artista Noel Gallagher, "mas tudo no fim do dia é igual"....


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Em uma cirurgia, provavelmente aquelas de grande ou médio porte, usa-se a anestesia geral para adormecer o paciente e fazer com que ele não sinta dor durante o procedimento. Imagine ser cortado, rasgado, com sangue por todo lado, tudo isso de olhos abertos? Talvez isso nem seja possível porque poderemos perder a consciência antes mesmo de finalizarmos a cirurgia.

Não suportaríamos a dor.

Fato é que nosso organismo produz uma substância chamada endorfina que tem, entre outros, o efeito de atuar na diminuição da dor. Contudo, essa substância nem sempre é suficiente e recorremos a um remédio, uma pílula, enfim. Não sou habilitada o suficiente para me aprofundar sobre os hormônios, então seguiremos! Na realidade, somos muito frágeis e não aguentamos muito tempo de dor, seja ela qual for. Existem pessoas que se recusam a tomar um medicamento para inibir ou tirar a dor, porém até eles possuem limitações.

Por isso, os médicos utilizam o recurso da anestesia para que possam trabalhar sem nenhum empecilho e realizar um tarefa de forma satisfatória para o enfermo. O especialista em anestesia é o anestesista, que não apenas injeta a substância sonífera, mas fica com o paciente até o final para que não haja quaisquer problemas.

Por que eu estou falando disso?

Simples. Porque não precisamos estar numa sala de cirurgia toda equipada, com todos os profissionais necessários e todos os instrumentos esterilizados para nos sentirmos anestesiados. Há momentos da vida em que ficamos absortos, aéreos, como se estivéssemos dormindo.

Nós não sentimos nada. Não sentimos medo ou pavor. Não sentimos amor, paixão e nem compaixão. Não sentimentos tristeza ou alegria, satisfação. Não sentimos saudade. Não sentimos remorso. Não sentimos raiva ou tranquilidade. Não sentimos serenidade. Não sentimos.

Talvez, para alguns leitores, isso soe como uma indiferença em relação aos acontecimentos do mundo, ao que se passa com um ser humano deficiente ou carente. Entenda que existe uma distância entre indiferença e a "anestesia": na minha visão, e peço desculpas para aqueles que não concordarem, a indiferença é uma escolha para que não lidemos com as situações do dia a dia. Você escolhe ser indiferente a um atentado terrorista por n motivos, por exemplo, mesmo que isso seja considerado "errado". Você escolhe ser indiferente a uma cena de assédio com uma garota na rua. É uma forma de omissão por escolha, "eu escolho não me envolver".

Você não escolhe não sentir amor. Você não escolhe não sentir raiva. Você opta por essa sensação de paralisação dos sentidos. Você não decide "quero ficar anestesiado" quando, na verdade, durante toda sua vida foste uma pessoa de sentimentos, de tê-los e senti-los. Você não escolhe não sentir medo, quando tudo que você mais sente é medo.

É uma fase da vida que você não anseia por.

Isso simplesmente chega, se fixa por um tempo (longo ou curto) e te tortura cada dia um pouco mais. E você tenta de todas as formas tentar lidar com esse tipo de vazio. Você lê, você sai, você dorme mais, você até faz coisas que nunca pensou em fazer na tentativa de se livrar dessa dor. Porque, sim, essa anestesia dói, machuca, e te faz se senti como a pior pessoa do mundo.

E não há uma maneira, um protocolo para ser seguido. Não há uma forma de delegar a sensação, a paralisia para outra pessoa. Falar sobre isso é penoso porque, numa sociedade em que todos são felizes o tempo todo e divulgam seus lazeres nas redes sociais, ninguém compreende. Alguns, inclusive, te criticam por ser uma pessoa tão insólita, por ser "insensível" (o que é irônico - para ser insensível tem que haver a ideia de sentimento, e isso você não tem).

Você quer sentir, mas não sente.

Você até sorri, no entanto não sente a alegria propriamente dita. Talvez, até chore ao se deparar com algo triste, todavia não sente a mais profunda dor. E por aí vai...provavelmente, irá surgir aquela sensação de tudo que você faz é uma encenação. Um teatro para que as pessoas não questionem o seu real estado de anestesia. Poucas pessoas saberão de fato da sua "cirurgia", e algumas te ajudarão no caminho.

Nos hospitais, a anestesia por mais impactante que seja, sempre acaba e o paciente pode voltar ao seu estado consciente. Alguns, demoram para se situarem e entenderem o que aconteceu na sala cirúrgica, outros rapidamente compreendem tudo ao seu redor.

E como sair da "anestesia" emocional? Sinceramente, não há uma resposta específica e pronta para essa pergunta tão complexa. Da mesma forma que os médicos dizem "cada paciente tem um organismo diferente, e portanto os efeitos/fim da anestesia serão diferentes também", podemos supor que "cada organismo sai da sua anestesia emocional de uma forma diferente".

Não cabe, aqui e agora, propor uma receita igual a receita médica: faça isso, leia aquilo, visto essa, tome aquele, fique sem isto por 20 dias, etc.

Portanto, converse. Busque ajuda. Fale sobre isso ou qualquer outra dor que esteja te afligindo. Sim, vivemos em um mundo onde há preconceitos e milhares não acreditam na existência de uma "saúde mental-emocional". Porém, garanto que existem muitas pessoas boas, generosas e que podem ajudar.

Lembra quando o médico diz "olha, se você não tomar os remédios, pode piorar"? Então, não se limite pela sua dor. Não se entregue. Não se anule. A vida não nos dá um peso maior do que aquele que podemos suportar.

A anestesia emocional pode demorar para chegar ao fim, ser cruel e nos fazer mal. Ela pode nos fazer repensar nos nossos valores, ideias, nos deixar mais ansiosos, desesperados e cansados.

Uma única certeza nós temos: ela não dura para sempre. Ela vai passar!

"...mas, no processo, esqueci que eu também era especial..." X-Static Process, Madonna.


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