a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

Like A Prayer, um álbum atemporal e notável

É incrível perceber que um álbum lançado no final da década de 80 permanece sendo elogiado, atual, necessário, relevante. Madonna, de certa maneira, foi revolucionária com o lançamento desse disco e ainda hoje, após mais de 30 anos de carreira, não pensa em largar a luta pelos direitos civis, deixar de ser a artista inovadora que sempre foi. Like A Prayer é um álbum memorável, único, e que sempre estará no coração dos fãs e admiradores. Com músicas repletas de intimidade podemos dizer que Madonna fez uma pequena biografia onde há remorso, luto, decepções, medo, enfim. Definitivamente, Like A Prayer mostrou que música e arte andam de mãos dadas e que Madonna tem total capacidade de compor, de fazer com que as pessoas reflitam: sobre violência, sobre amor, AIDS, religião, etc.


21mar14.png

O quarto álbum de Madonna, mais conhecido como Like A Prayer, foi lançado em 1989. Esse trabalho tão elogiado pela crítica e visto com certa repulsa pelos mais conservadores contou com a colaboração de Patrick Leonard, Stephen Bray, Prince. Em relação a sonoridade, podemos dizer que há uma mistura: dance, elementos do gospel e funk, elementos do soul, pop, etc. Há a presença constante de guitarras, corais, um som mais obscuro, inclusive a voz de Madonna aparece de forma mais firme, forte, e em algumas vezes soa como se ela estivesse sofrendo. Foram escolhidos seis singles: Like a Prayer, Express Yourself, Dear Jessie, Keep It Together, Cherish e Oh Father. Talvez podemos dizer que esse seja um dos trabalhos mais polêmicos de Madonna e, ao mesmo tempo, um dos mais pessoais e completos de sua longa carreira. Esse album foi destacado como o trabalho musical pop que mais se aproximou da arte, e é considerado um dos melhores álbuns de todos os tempos.

Na verdade, precisamos falar brevemente sobre o momento em que esse lindo álbum fora divulgado: final da década de 80, a AIDS fazia milhares de vítimas ao redor do mundo e havia muito preconceito em relação a doença, machismo, discriminação sobre a comunidade lgbt, racismo, enfim. E é exatamente sobre todas essas questões que Madonna, através de Like A Prayer, pretende dialogar, desafiar, debater.

Like A Prayer é um single homônimo ao álbum, e gerou muita repercussão. A letra da canção é bem escrita, estruturada e alguns afirmam que há dois sentidos: sentido religioso e sexual. Começamos ouvir a voz de Madonna de forma doce, leve e, ao longo do tempo, ela se torna mais resoluta. Com a presença de um coral, a música traz tendências do gospel e, de certa forma, traz também temas como a religião, a influência do sobrenatural em nossa vida. O clipe, dirigido por Mary Lambert, foi um marco na carreira e vida de Madonna.

Basicamente, são dois cenários que, ao final, parecem se fundir (propositalmente ou não) na tentativa de questionar como a religião pode se tornar uma prisão, um problema: uma igreja com a presença de um santo negro (primeira crítica de Madonna) e uma cadeia. Além disso, Madonna também aparece cantando trechos da música com cruzes em chamas como uma maneira de inquirir sobre a KKK (seita racista, com rituais, defesa da supremacia branca), sobre o racismo enraizado nos Estados Unidos. O clipe foi tão repercutido que Madonna perdeu um contrato milionário com a Pepsi, e conseguiu afrontar os grandes líderes da Igreja Católica e os conservadores da época.

Madonna-Like_a_Prayer-Music_Video.jpg

Seu segundo single, Express Yourself, é visto como uma espécie de hino feminista até hoje. Com uma letra conceituada, estimulante, desafiadora, Madonna trata de mostrar as mulheres que o amor próprio não é pecado, não é um erro. Além disso, como o próprio título sugere, expressar-se sem medos ou inseguranças é o primeiro passo para a liberdade. Trechos como "não aceite o segundo lugar" ou "você merece o melhor da vida" são encorajadores não apenas para as mulheres, mas para todos aqueles que são oprimidos e ignorados. Podemos declarar, sem dúvidas, que Express Yourself é uma canção poderosa e importante na luta por direitos, por oportunidades. O clipe foi dirigido lindamente pelo David Fincher, e já foi classificado como um dos vídeos mais caros da indústria pop.

O single Keep It Together possui uma letra bastante pessoal e podemos deduzir que Madonna a escreveu com base na sua trajetória de vida, sua infância, sua convivência com irmãos, etc. Aliás, Madonna fala sobre sua relação conturbada com seus familiares e como a vida na cidade grande (após a mudança para Nova Iorque para tentar uma carreira promissora) pode ser dura e cruel. Apesar de todos os problemas que teve com seus parentes devido a sua criação tradicional e religiosa, de todos os conflitos que surgiram por ela ser diferente e não se encaixar nos padrões, Madonna deixa claro que "casa é o lugar onde nosso coração estar". Que família é um tesouro, que irmãos e irmãs fazem parte de quem somos e ao nega-los estaremos, de certa forma, negando nossa história. Que o amor é o mais importante.

Sobre o single Oh Father, podemos afirmar que é uma das músicas mais íntimas de sua trajetória artística. Aqui, ela fala sobre o relacionamento intricado com seu pai após a morte de sua mãe. Madonna perdeu sua mãe ainda na infância e essa tragédia a marcou profundamente, e ao ver o pai em outro casamento sentiu que estava sozinha e sem afeto. Desde então, seu relacionamento com o pai foi difícil, e nesta canção Madonna coloca todas as emoções, suas dores, seus pensamentos. O clipe, também dirigido por David Fincher, mostra passagens de sua meninez como a imagem da boca de sua mãe costurada no caixão, por exemplo, e também os conflitos paternais. Inclusive, Madonna é capaz de falar sobre a raiva que sentia, a angústia que vivenciara naqueles tempos e de compreender que seu pai também fora machucado.

Till Death Do Us Part, não é um single, porém merece todo destaque. A canção com um som contagiante aborda, de maneira muito sutil, sobre violência doméstica e relações abusivas. Na verdade, Madonna foi casada com o ator Sean Penn e tudo indica que essa música fala sobre o tempo que viveram juntos. De toda forma, essa canção é repleta de emoção, de sentimentos de culpa, de arrependimento, de momentos de fúria e vemos isso em trechos como "ele chuta a porta", "os hematomas irão sumir", etc. Apesar de trazer questões tristes e pesadas, Madonna compôs uma bela música e que poderia ser lançada nos dias atuais, afinal de contas muitas mulheres ainda são vítimas de violência (verbal, física, sexual) ao redor do mundo.

Com o álbum, Madonna criou uma turnê mundial chamada Blond Ambition Tour e que, além de se tornar uma referência para as artistas posteriores pela inovação de dividir o show em blocos, causou grandes confusões. Madonna arquitetou um espetáculo com muitas coreografias trabalhadas, repertório coerente com as propostas do show, faturamento de bilheteria altíssimo. Ademais, nessa turnê o Papa João II pediu boicote aos shows na Itália por Madonna simular a masturbação durante a apresentação de Like A Virgin, e por em seguida, encenar um exorcismo em Like A Prayer. No Canadá, Madonna enfrentou a polícia quando foi ameaçada de prisão caso não alterasse algumas partes do show.

madonna-blond-ambition-tour.jpg

É importante lembrar que, diferentemente de outros trabalhos, a capa do álbum aparece apenas Madonna da cintura para baixo, vestindo calça jeans, na tentativa de provocar os mais tradicionais (calça não era uma boa peça de roupa para uma mulher). Além disso, Madonna cedeu um espaço do encarte para falar sobre a AIDS. Ali, era colocado informações gerais sobre a doença (forma de transmissão, como previni-la, etc) justamente para tentar quebrar os tabus, enfrentar o preconceito com as vítimas da doença.

madonna-like-a-prayer-cover-insert-600x301.jpg

É incrível perceber que um álbum lançado no final da década de 80 permanece sendo elogiado, atual, necessário, relevante. Madonna, de certa maneira, foi revolucionária com o lançamento desse disco e ainda hoje, após mais de 30 anos de carreira, não pensa em largar a luta pelos direitos civis, deixar de ser a artista inovadora que sempre foi.

Like A Prayer é um álbum memorável, único, e que sempre estará no coração dos fãs e admiradores. Com músicas repletas de intimidade podemos dizer que Madonna fez uma pequena biografia onde há remorso, luto, decepções, medo, enfim. Definitivamente, Like A Prayer mostrou que música e arte andam de mãos dadas e que Madonna tem total capacidade de compor, de fazer com que as pessoas reflitam.

Obrigada, Madonna.


version 1/s/musica// @obvious, @obvioushp //Gabrielly Rezende